Ponto de vista : Cacique Raoni, índia Ysani Kalapalo e Aristóteles

Por Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
22/09/2021 23:44

   

Aos queridos amigos Ocilene e Sizenor Oliveira Lima.

Uma polêmica que tem passado ao largo da grande maioria do povo brasileiro é a que coloca em polos opostos o cacique Raoni e a índia Ysani Kalapalo que defendem pontos de vista distintos, como representativos dos interesses das populações indígenas brasileiras. 

O cacique Raoni, da etnia caiapó, povo nômade, nasceu na década de 1930, no nordeste do estado do Mato Grosso, em uma antiga aldeia Mebêngôkre, que fixou contato com os brancos em 1954, através dos irmãos Villas Boas, quando ele tinha pouco mais de vinte anos de idade. Desde então, e já com o amplo disco de madeira pintada e implantado sobre seu lábio inferior, conferindo-lhe fisionomia marcantemente inconfundível, Raoni passou a ser o intérprete do seu povo com a sociedade de origem afro-europeia que se instalou em seu redor. Do Brasil, seu nome espraiou-se para a seara internacional, consolidando-se como porta-voz das populações indígenas brasileiras, associado às campanhas de preservação ambiental de curso universal. Daí à sua transformação em modelo rousseauniano do nativo portador de todas as virtudes humanas, antes de serem corrompidos pelos valores ocidentais, foi um pulo mais do que previsível. A ponto de um documentário sobre sua biografia haver sido indicado para o Oscar, tornando-o objeto de paparico de popstars e de poderosas ongs  internacionais. Como derivação desse prestígio, sua aldeia recebeu uma demarcação territorial que a torna a detentora da maior porção de terras per capita do Planeta. Ficou famoso o puxão de orelha que deu no Ministro Andreazza, advertindo-o: “Aceito ser seu amigo; mas você tem de ouvir índio”. 

Desde então, seu prestígio nunca parou de crescer, tornando sua presença obrigatória em todos os programas de reivindicações das populações autóctones, sobretudo durante a redação da Constituição de 1988. Não foram poucos os seus encontros com chefes de Estados de diferentes nações. O problema surgiu quando interesses de fora, nem sempre coincidentes com os do Brasil, passaram a controlar a agenda operacional de nosso simpático irmão Raoni, a exemplo da interrupção de grandes projetos energéticos. Sem que tivesse consciência, Raoni passou a atuar, como inocente útil, contra a expansão do agronegócio brasileiro, torpedeado pela concorrência que tem elevado substancialmente nossa competitividade, pelo aumento constante da produtividade, a ponto de, neste momento, termos o nome do ex-ministro da agricultura do Governo Geisel, Alysson Paolinelli cogitado para receber o Nobel da Paz por sua contribuição para diminuir a fome no mundo, através da criação da Embrapa, na década de 1970.

Com a emergência da inteligente e combativa índia Ysani Kalapalo, moradora do Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, o discurso de Raoni passou a ser contraposto, com inteligência, equilíbrio e coragem moral. A tese que serve de substrato à sua ação intimorata parece irrespondível, como declarou na Sessão de Abertura dos trabalhos da ONU, em 2019, como integrante da comitiva do Presidente Bolsonaro: “São contrárias aos verdadeiros interesses de todos os povos indígenas as campanhas que propõem que fiquemos prisioneiros do passado. Quem gosta do passado é museu. Os índios brasileiros querem ter acesso a todos os benefícios e possibilidades da vida contemporânea: boa alimentação, boas residências, roupas bonitas, assistência médica, acesso ao conhecimento, inclusive aos proporcionados pelas modernas tecnologias dos diferentes sistemas de comunicação, como TV, Internet, automóvel, avião e o que mais de conquistas vier a ocorrer. Preservação ambiental, sim. Os índios, porém, não querem ser vistos como animais primitivos, isolados em zoológicos para diversão de povos mais adiantados”. Aristóteles ficaria encantado de ver sua teoria do meio termo em plena vigência no Terceiro Milênio. 

Parafraseando o saudoso carnavalesco Joãozinho Trinta, podemos dizer que índio também gosta de vida boa. Quem gosta de primitivismo é intelectual. Da esquerda caviar.

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