Ponto de Vista: CPI e as mentiras

Por Raymundo Pinto


Tribuna da Bahia, Salvador
08/06/2021 23:48

   

Quase todos reconhecem que, no Brasil, a campanha para combater a pandemia não está satisfatória. Quem se convenceu de que a única maneira de extinguir a grave doença é a vacinação em massa que venha a atingir, no mínimo, 70% da população está convicto de que tal providência se desenvolve a passos lentos. Por óbvio, existe uma clara revolta por notar-se que, a continuar os limitados e tímidos esforços das autoridades governamentais, fica difícil vencer o perigoso covid-19.     

A insatisfação popular provocou uma reação numa das Casas do Congresso Nacional. Foi criada, no Senado, uma CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito, que se propôs justamente a apurar como ações e omissões do governo federal contribuíram para a atual crise sanitária no país. Havia uma expectativa de que o assunto fosse tratado com o máximo de seriedade, levando-se em conta que, em princípio, o Senado abriga políticos mais experientes e mais maduros. Imaginava-se, também, que os convocados para depor procurassem ser fieis aos fatos de seu conhecimento. Da parte dos inquiridores, viu-se logo que se dividiram, ficando de um lado o grupo majoritário dos oposicionistas e pretensos independentes e, do outro, os governistas. Até agora, o mais lamentável de tudo foi o comportamento de alguns depoentes. Demonstrando claro apoio fanático a teses e posições do governo, certas testemunhas nem tentaram disfarçar que chegaram a inventar falsas declarações em defesa de seus atuais ou anteriores chefes. 

Vergonhoso sob vários aspectos, verificou-se o depoimento do ex-Ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, a respeito do qual comentei em artigo por mim publicado aqui mesmo na Tribuna em 26/05/21. Os observadores atentos já registraram que dois fatos estariam devidamente esclarecidos na CPI: a) a demora do governo federal em contratar as vacinas de combate ao vírus, apesar de oferecidas desde meados do ano passado; b) a insistência de propagar um chamado “tratamento precoce” com remédios não aprovados e considerados ineficazes pela comunidade científica mundial, a exemplo de uma tal cloroquina. Parece evidente, ainda, que tais ideias equivocadas seriam inspiradas por um suposto “gabinete paralelo”, sobre o qual, aliás, surgiu uma recente foto de uma de suas reuniões. O citado general tentou, por todos os meios, isentar de culpa o presidente da República por não ter tomado a iniciativa de adquirir as vacinas com a antecedência exigida. 

Outra depoente, a imunologista Nise Yamaguchi chegou à CPI com fama de ser uma grande cientista, mas igualmente se revelou que estava ali para fazer a defesa dos pontos de vista governistas, inclusive a indefensável opinião de que a cloroquina e outros semelhantes seriam remédios que serviriam para curar, de modo precoce, a doença provocada pelo coronavírus. O senador baiano Otto Alencar, usando sua condição de médico, desnudou a imagem da suposta famosa cientista, que nem soube, a uma pergunta dele, distinguir um vírus de um protozoário.  

As duas indicadas testemunhas não foram as únicas que, a propósito de dar apoio ao presidente Bolsonaro e defendê-lo a todo custo, faltaram com a verdade diversas vezes ou, em palavras menos requintadas, mentiram sem escrúpulos e na maior “cara de pau”. A opinião pública brasileira certamente aguarda que a CPI saiba, por outros meios de provas, apontar os verdadeiros responsáveis pela preocupante situação sanitária atual e que, em consequência, sejam eles devidamente punidos, na forma da lei, não importando os cargos públicos que ocupam, incluindo o mais alto deles.   

*Raymundo Pinto, desembargador aposentado do TRT, é escritor, membro da Academia de Letras Jurídicas da Bahia e da Academia feirense de Letras. racpinto@uol.com.br. 


 

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