Ponto de Vista: Eu só quero chocolate

Por Cláudia Colavolpe


Tribuna da Bahia, Salvador
04/04/2021 21:40

   

Chocolate, chocolate, chocolate Eu só quero chocolate

(…)      “O senhor aceita um cafezinho? Não, eu quero é chocolate”

(Tim Maia)

Desconheço uma época em que se fale mais de chocolate do que o período que antecede a Páscoa, a qual, neste ano, foi comemorada ontem.

Para mim, além dos maravilhosos ovos de chocolate, que, na minha infância, minha mãe costumava esconder para que meu irmão e eu procurássemos, Páscoa lembra família, vida, amor, união e celebração.

Em 2021, no entanto, assim como foi em 2020, as reuniões familiares e os longos almoços não puderam acontecer, ou não deveriam ter acontecido, como gostaríamos, dada a pandemia que nos assola e que ainda não teve o seu fim.

Assim, ao pensar nesse lado da restrição, do distanciamento, da impossibilidade, por mais que queiramos, de estar perto de tantos que amamos, só vem em minha mente o significado maior da Páscoa cristã: a ressurreição.

O que é a ressurreição, senão a transformação da morte em vida, o ato de ressurgir, de ressuscitar? Quantos de nós não já se sentem exaustos por conta do isolamento social? Quantos de nós não se perguntam até quando? Quantos de nós não desejam “a sua vida de volta”?

Aliás, ter a vida de volta, ou seja, retornar à normalidade que conhecíamos, parece ser um consenso, um desejo de todos.

Nesse momento de tantas mortes reais; nesse momento de tanto sofrimento psicológico, que também mata um pouco a cada dia; nesse momento de tanta fome, que causa desgaste físico e também mata, e não é pouco, a cada dia; como não desejar que o mundo se transforme e ressurja, como Fênix, das cinzas?

Sem dúvida, esse é o grande anseio em comum da humanidade. Os meios que cada um imagina que possam levar à concretização disso podem até ser divergentes, mas o desejo é uníssono.

Como o caminho no qual acredito como solução definitiva é um só, peço todos os dias para que a vacina esteja disponível para todos. Quanto a esse ponto, inclusive, uma coisa é certa: nunca fomos tão dependentes uns dos outros.

Nesse momento, é preciso ter essa clareza, essa compreensão. Não adianta que eu ou você esteja protegido se o outro não está. Não adianta que eu ou você tenha recebido a vacina se a maior parte da população não a recebeu ainda.

Só poderemos voltar a viver como antes se a nossa consciência coletiva imperar, se o amor estiver acima da individualidade. Enquanto não há vacina suficiente, precisamos lutar com as armas que temos: com a máscara, não como disfarce, mas como prova de cuidado com o outro; com o distanciamento, não por desamor, mas por um imenso amor.

Não adianta agora jogar tudo para o alto, transgredir, ir contra as regras e viver como se não houvesse amanhã. O amanhã existe sim e está logo ali, na nossa frente, à espera de um novo amanhecer, que depende, acima de tudo, das ações de cada um de nós.

Aliás, como disse Renato Russo, “disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem”.

Será justo que tantas pessoas, como os profissionais da área da saúde, mais que exaustos a essa altura, lutem por nós, abdiquem de suas próprias vidas para salvar as nossas, sem que sejamos sequer capazes de fazer a nossa parte?

Tenha a certeza de que essa visão maior, esse cuidado e zelo pelo que de fato importa é o grande passo para alcançar a verdadeira Páscoa, com o renascimento de uma vida menos amarga e muito mais doce.

“O senhor aceita um cafezinho? Não, eu quero é chocolate”.

Cláudia Colavolpe é Psicóloga, Auditora de Contas Públicas e Coordenadora de Gabinete de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia e escritora. caucolavolpe@gmail.com


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