Ponto de Vista: Falta de compostura

Por Raymundo Pinto*


Tribuna da Bahia, Salvador
14/09/2021 20:39

   

Quando me preparo para escrever um artigo, tenho por hábito consultar, no mínimo, dois bons dicionários de língua portuguesa, a fim de me certificar que irei empregar, com propriedade, determinados termos ou palavras que vou usar. Dou preferência, por tê-los em casa à mão, os famosos dicionários Aurélio e Houaiss. Agora, no caso, desejava conhecer as definições (os vocábulos têm sempre mais de um sentido) que eles dão a uma das palavras do título: “compostura”, fixando-me nas acepções que em especial quero utilizar neste breve trabalho. O primeiro (Aurélio) destaca que se trata de “composição, concerto, arranjo, seriedade, correção de maneiras, comedimento, circunspecção, modéstia”. O Houaiss, por sua vez, após esclarecer que, em princípio, é “ato ou efeito de compor-se”, reforça os primeiros significados mencionados, acrescentando: “modo de ser ou estar, especialmente o que revela sobriedade, educação, comedimento”. Acho que tais ligeiros dados são suficientes para a compreensão do que pretendo expor em linhas a seguir.

Nas eleições de 2018, a população brasileira ainda não tinha se refeito do choque com as graves acusações de que o partido e seus aliados que então ocuparam o poder central (governos Lula e Dilma) cometeram atos de corrupção e o sucessor (Temer) não esteve à altura para apurar os fatos e punir os culpados. Eis que surge um obscuro deputado federal propondo-se a ser o candidato a presidente “salvador da pátria”. A seu favor, ocorreram duas circunstâncias decisivas: a) sua equipe de assessores e auxiliares mostrou competência para manejar as recentes redes sociais, que fazem verdadeiros milagres na divulgação de ideias, mesmo que mentirosas (a expressão inglesa “fake news” virou moda); b) um atentado contra o candidato, às vésperas do pleito – nunca bem esclarecido até hoje – colocou-o como vítima e ofereceu a desculpa para ele não comparecer a debates (faltava-lhe argumentos consistentes para convencer os eleitores). O clima favorável que se formou tornou fácil a vitória do aventureiro.

A decepção não se fez esperar. Logo no primeiro ano de mandato, o despreparo do novo governante começou a ficar evidente. Uma parcela que ainda acreditava nas promessas de moralização dos costumes políticos chegou a vibrar com a escolha de Sérgio Moro para Ministro de Justiça, pois ele fora aquele personagem que mais simbolizou as campanhas de grande repercussão que se tornaram conhecidas como “lava-jato”, capaz de aprisionar figurões a exemplo do Lula. Foi demitido, depois de se insurgir contra o propósito de dominar e controlar a Polícia Federal.

O espaço aqui é muito curto para narrar todas as besteiras, sandices e outros atos negativos e até criminosos de um presidente que desconhece o que seja equilíbrio no exercício de um altíssimo cargo público. A CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito criada no Senado vem revelando bastante irregularidades. Por último, ele se arrependeu de ter praticado o pior de todos: xingar um ministro do STF – Supremo Tribunal Federal e ainda afirmar, frente a uma multidão aglomerada em via pública, que não obedeceria qualquer ordem judicial vinda do referido magistrado. Infelizmente, o recúo não está sendo levado a sério, pois é sabido que ele não resiste por muito tempo conter seus naturais impulsos de ofender adversários e opositores.

As pessoas sérias e honestas deste país não podem imitar o próprio Bolsonaro e seus fanáticos apoiadores também pecando com o destempero da linguagem chula. Em face disso, prefiro sustentar que falta ao atual presidente aquilo que a língua culta denomina compostura (ver principais acepções no primeiro parágrafo). Até seus próprios aliados já começam a enxergar essa evidência.

*Raymundo Pinto, desembargador aposentado do TRT, é escritor, membro da academia de Letras Jurídicas da Bahia e da Academia Feirense de Letras. racpinto@uol.com.br.

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