Ponto de Vista: Itaparica

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo*


Tribuna da Bahia, Salvador
29/03/2021 00:36

   

Já que o sol ainda mantém vivas as lembranças das férias, aproveito para comentar sobre a Ilha de Itaparica. Não das suas belezas, há muito desgastadas, mas sim do seu ocaso. Sim, o processo de pauperização é veloz.

O sol, ao se pôr, majestoso, revelou um dos últimos saveiros da Bahia, singrando a Barra Falsa, que separa a Ilha do município de Jaguaripe. Sinto saudades do aprazível banho de mar na "boca da barra".

Ao caminhar, em um final de tarde, pela Ponta da Ilha (trecho entre Berlinque e Cacha-Pregos), questionei-me sobre o porquê da deficiente exploração turística profissional desse maltratado pedaço de paraíso. Ali imperam o descaso e a violência. Lugar paradoxalmente tão perto e tão distante de Salvador.

O arrebol na Ponta dos Garcez, com seus 20 quilômetros de praias desertas e de vasto coqueiral, é inspirador. A natureza, divina, fez com que eu refletisse sobre os motivos do descaso.

Há tempos, li uma reportagem sobre três perguntas básicas que todo turista deveria fazer antes de escolher seu próximo destino: Como chegar? O que comer? Onde dormir?

As opções populares para se chegar a Itaparica são a lancha de Mar Grande, o ferryboat e a Ponte do Funil.

Em relação a Mar Grande, são inadmissíveis as vetustas embarcações utilizadas e que somente funcionam quando a maré cheia permite, a falta de segurança dos atracadouros, a sujeira e o caos reinantes. Sobre acidentes, já comentei em outro texto.

No que tange ao ferryboat, o que mais eu posso dizer!? Basta observar o povo sendo tratado como gado para entender o quanto o sistema é perverso com os mais carentes.

Os veículos de transporte (vans e micro-ônibus) para as diversas localidades, que trafegam em estradas intransitáveis, primam pelo aspecto deplorável e pela inconstância dos horários. Cintos de segurança? São artigo de luxo.

No que se refere às pontes (a do Funil e a sonhada), diz a sabedoria popular que panela em que muito se mexe desanda. Assim, deixo a palavra com os especialistas. Afinal, não estudei para isso.

Comer na Ilha é ainda pior: restaurantes têm padrão de qualidade duvidoso. O atendimento? Não se assuste, afinal, há sempre a desculpa do caráter bucólico e do jeito baiano de ser.

As hospedarias são poucas e de pouco conforto, à exceção, talvez, fosse o Mediterranée, que fechou as portas em julho de 2019. Instalado pelos franceses em 1979, no km 13 da BA 001, o denominado Club Med Itaparica foi uma espécie de “Ilha da Fantasia” dentro da Ilha. Como não o conheci, não sei se era “um mundo de felicidades” ou, ainda, se poderia ter sido considerado como a mistura do “exótico africano com a exuberância sul-americana”. Não o conheci e não o conhecerei. Ele se foi.

Na Ilha, até os sonhos se vão.

Creio, então, que as razões para o atraso da Ilha da Cerca de Pedra são inúmeras: divisão, sem sentido, em dois municípios, falta de planejamento urbano, ausência de política de marketing, precários serviços públicos (energia, água, telefonia, internet, educação, saúde, esgotamento sanitário, limpeza e transporte), loteamentos irregulares, privatização de praias, favelização, elevado índice de desemprego e/ou de subemprego, violência, tráfico de drogas, inadequada estrutura turística e, acima de tudo, o incerto sistema de travessia para Salvador.

Postos esses fatos, como então esperar que o turista frequente ou volte a frequentar a Ilha que tanto encantou e inspirou o mestre João Ubaldo? Quem sabe o saveiro, que também se foi, tenha a resposta?

Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, professor, escritor.

inaldo_paixao@hotmail.com


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