Ponto de Vista: Maré de Março

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo e Luciano Chaves de Farias


Tribuna da Bahia, Salvador
11/04/2021 21:54

   

As marés do mês de março (também conhecidas como marés de sizígia) são as maiores do ano devido à passagem do sol pelo plano do equador terrestre. Como nos ensina o oráculo da vida moderna, essas “marés grandes” podem ser mais elevadas com a ação dos ventos empurrando a água do oceano contra a costa. Quando coincide com a passagem de uma frente fria, a maré de março fica ainda mais evidente e perigosa. 

No nosso país, já ocorreram tragédias nessa época da temida maré de março. Como esquecer do fatídico episódio do desabamento da ciclovia Tim Maia, em 2016, no Rio de Janeiro? Na ocasião, evidentes falhas no projeto básico, negligências de contratado e contratante, associadas às fortes marés de março cariocas, acarretaram a morte de duas pessoas. Um dos peritos que trabalhou no caso, chegou a afirmar publicamente que a maré de março contribui decisivamente para o evento. Relatou ele: “no final da manhã, a maré subiu mais do que o normal, o que acontece quando a lua cheia fica alinhada com a Terra, um fenômeno conhecido como maré de sizígia”. 

Infelizmente, desde o ano passado, justamente nesse mês das temidas marés, o Brasil se depara com a terrível pandemia da Covid-19 e temos enfrentado um outro tipo de “maré”, muito mais aterrorizante. 

Especificamente no mês de março de 2021, tivemos o pior mês da história do nosso país. Pela primeira vez, o Brasil superou a marca de mais de 140 mil mortes em um único mês. A partir desse inesquecível mês de março, o Brasil começou a atingir recordes sucessivos e a registrar números assustadores de mortes diárias. O dia 26 de março já alarmou a todos, quando 3.610 pessoas morreram por covid-19 em apenas 24 horas. No dia 30, mais 3.801 pessoas morreram em um só dia. E, fechando esse mês tenebroso, o Brasil voltou a ter seu pior dia da pandemia, com o recorde de 3.869 mortes por Covid-19 registradas nas 24 horas do dia 31 de março.

Após bater sucessivos recordes ao longo do mês, pela primeira vez, num intervalo de uma semana, foram registradas mais de 20 mil mortes por covid-19. Com isso, o mês de março se encerrou com o montante de 66.573 óbitos. Isso é mais do que o dobro das mortes anotadas em julho de 2020, o segundo pior mês da pandemia, quando registramos 32.881 vítimas. Esses dados são reproduzidos a partir das informações divulgadas pelas Secretarias Estaduais de Saúde e foram apurados pelo consórcio de veículos de imprensa. Como divulgou a CNN, em mais de um ano da decretada pandemia, a cada cinco pessoas que morreram em decorrência da Covid-19 no Brasil, uma perdeu a vida em março de 2021. 

O que o povo brasileiro viu e sentiu nesse mês de março é algo aterrorizante e amedrontador. O medo é tão real, e as perspectivas de futuro ainda tão incertas, que podemos questionar, com base em um dos grandes hits do carnaval baiano, se não seria o fim da aventura humana na terra?

Não teremos ainda o final da odisseia terrestre. Cremos na ciência e no quanto ela pode contribuir para salvar vidas. Essa pandemia não foi a primeira. Temos a convicção que a humanidade irá também superar mais essa tragédia.

E para esse bom combate, atualmente e em todo o mundo, as vacinas têm se apresentado como o maior aliado. É verdade que podemos notar que o país começa a avançar no ritmo de vacinação. Mas, certamente, poderíamos e podemos ser bem melhores e mais eficientes nesse processo. Sem querer aqui adentrar às questões, por demais sabidas, de negação ao vírus ou menosprezo às vacinas, precisamos recordar aos leitores que nosso grande Brasil, há muito, vem sendo considerado referência mundial em campanhas de vacinação. Em 2010, por exemplo, quando vivemos momentos críticos com a gripe suína (H1N1), o país vacinou 80 milhões de pessoas em apenas 3 meses, com uma média de quase um milhão de pessoas vacinadas ao dia. Chegou-se a divulgar que, nessa época, houve um dia em que foram vacinadas 10 milhões de pessoas. Sem dúvida, essa célere e tempestiva atuação do Ministério da Saúde, 10 anos atrás, acabou evitando uma tragédia como a que estamos vivendo atualmente. Portanto, podemos afirmar que o admirável SUS tem a expertise necessária. Seguramente, não é isso o que está faltando!

Enfim, acreditamos que essa tenebrosa e diferente “maré de março” tenha ficado para trás e que a situação começará a aliviar a partir deste novo mês, que se iniciou com uma semana santa, com a comemoração do renascimento da vida e com o sentimento de recomeço. Com o perdão do pobre trocadilho, que este mês de abril nos abra novos horizontes e que possamos renovar nossa fé por dias melhores. E que neste Outono, estação das colheitas, que também está se iniciando, possamos colher boas novas, com mais vacinas e melhores notícias. 

*Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do TCE/BA. Professor. Escritor.

*Luciano Chaves de Farias

Mestre em Políticas Sociais e Cidadania. Secretário-geral do TCE/BA. Professor. Escritor.


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