Ponto de Vista: Na terra que em se plantando tudo dá

Por Adary Oliveira *


Tribuna da Bahia, Salvador
01/12/2021 00:36

   

Foi realizado na semana passada (23/11) o 8º Congresso Brasileiro de Fertilizantes promovido pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), reunindo em videoconferência cerca de 4.000 participantes que acompanham o agronegócio brasileiro. Durante mais de quatro horas o debate transcorreu vivamente entre fabricantes de adubos, de corretivos de solos, de máquinas, de equipamentos e investidores, comerciantes e agricultores, avaliando a situação atual da nação considerada um dos maiores celeiros do planeta e as perspectivas futuras de sua produção agrícola, diante de um mundo mergulhado numa pandemia sem fim e onde ainda se passa fome. 

A palestra principal, sobre “O Mercado Brasileiro e Mundial de Fertilizantes”, foi proferida pela Diretora Geral e CEO da International Fertilizer Association (IFA), Alzbeta Klein, para um público do País que importa algo em torno de 80% de fertilizantes nitrogenados, potássicos e fosfóricos, sendo responsável por substancial parte da produção mundial de grãos, frutas, algodão, carne e muitos de seus derivados consumidos pela humanidade. O Congresso mostrou que o modelo brasileiro de substituição de importações dos últimos anos do Século XX ainda não se esgotou, pelo menos para a instalação de fábricas, construção de unidades misturadoras, manufatura de implementos agrícolas e produção de fertilizantes em larga escala. 

Marcos Jank, Coordenador do Centro Insper Agro Global, palestrou sobre “A Economia do Brasil e as Expectativas para o Agronegócio”, chamando a atenção sobre o recente aumento de preço dos insumos trazidos de fora, suportados em parte pelas margens atuais. Embora Marcos não tenha comentado, acredito que o impacto maior dos importados ainda não foi sentido pois, parte dos estoques foi feito com o preço antigo e o efeito vai ser sentido na próxima safra, quando da formação dos novos acúmulos. 

José Velloso Dias Cardoso, representando a Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), discorreu sobre “Logística e Infraestrutura como Desenvolvimento do Agro Negócio”, apresentando dados do balanço oferta/demanda do segmento de máquinas e equipamentos agrícolas e as deficiências da infraestrutura logística, pairando no ar as promessas de investimentos na construção de ferrovias. A alta produtividade que se consegue nas terras do Oeste brasileiro se perde em parte pelos altos custos de transferência dos produtos para o litoral. 

O setor primário brasileiro é tradicionalmente financiado por programas de custeio do Banco do Brasil. A existência de inúmeras agências espalhadas pelo interior assegura a capilaridade necessária. As imperfeiçoes do sistema de crédito são devidas à falta de encadeamento entre os dias de liberação dos recursos e os períodos de plantio de cada cultura, para um vasto e diversificado território brasileiro. Com informática, simplificação da burocracia e mais um pouco de boa vontade, isso tende a melhorar. 

Em que pese a existência de razoável sistema de financiamento do comércio, não se pode dizer o mesmo do financiamento de capital. Sugeri à ANDA a inclusão do tema financiamento do capital para o próximo Congresso. Os exemplos bem-sucedidos de substituição de importação de celulose e papel, dos metais não ferrosos, da indústria química e petroquímica e do fortalecimento da indústria de bens de capital, poderiam espelhar um programa especial de financiamento para unidades industriais e máquinas e equipamentos para o agronegócio. Se o negócio está dando certo, deveríamos apostar mais nele, envolvendo mais o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e sua subsidiária BNDESPar. 

*Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.) – adary347@gmail.com  

 

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