Ponto de Vista: O legado da Guerra Fria

Por Cláudio Pimentel*


Tribuna da Bahia, Salvador
11/02/2021 22:09

   

“O único dia fácil foi ontem”. Filosofia dos Seal, Marinha dos EUA.

Despertei para o flagelo da Guerra Fria pela literatura, e não, como seria comum, pelos livros de história. “O Fantasma da Prostituta” (1991), de Norman Mailer, foi meu primeiro guia nessa longa e turbulenta viagem. Afinal, durou 45 anos (1945 – 1990), definiu as relações internacionais – com base no poderio nuclear - e, a partir da Europa pós-guerra, espalhou-se de Norte a Sul, Leste a Oeste. Guerras e ditaduras que calcinavam o velho continente ganharam outros ares, e sangue, na América Latina, no Oriente Médio, na Indochina. A Guerra Fria foi uma tragédia, cujo espectro continua a nos rondar, puxando correntes.

Em mais de 1.300 páginas, em meio à tênue linha que separa fato e ficção, Mailer compõe um romance emocionante, mas não glamoroso como mostrou outros livros ou filmes do período. Ao invés do combate “bem contra o mal”, com heroicos espiões norte-americanos “defendendo-nos” dos comunistas da “Cortina de Ferro” e da União Soviética, “O Fantasma da Prostituta” mostra o conflito do mal contra o mal. Revela como moldou consciências e definiu o destino da humanidade, valores, contradições, estilo de vida. Faz tendo como pano de fundo a CIA, que tornou-se uma religião nas comunidades de segurança e forças especiais.

O fim da Guerra Fria é associado ao desmoronamento da União Soviética. À época, assessores de Ronald Reagan, presidente dos EUA, se apressaram em afirmar que ele vencera, finalmente, o comunismo, abrindo um período de paz e prosperidade no planeta. Pura propaganda ideológica. A União Soviética, de acordo com Mikhail Gorbachev, caiu por causa dos altos custos do desastre de Chernobyl – existentes até hoje. E paz, se houve, foi até 2001, quando a queda das Torres Gêmeas nocauteou o serviço secreto dos EUA, que não viu que o vácuo deixado pelos “bolcheviques” fora ocupado pelo terrorismo. E sem bomba atômica.

Na ausência dos “vermelhos”, os EUA tentaram eleger um contraponto para justificar suas ações de “polícia do mundo”. Não conseguiram. Partiram, então, para o varejo. Primeiro, foi a tecnologia japonesa. Depois, o despotismo de gente como Saddan Hussein e Kaddaf. Mais tarde, Osama Bin Laden. E, hoje, a China e sua competitividade. Coisas da América. É como se Davi – os EUA aparecem assim em suspeitas produções hollywoodianas de conflitos de interesse – ressentisse-se da ausência de um Golias para dar pedradas. Bobagens. Os EUA tornaram-se hegemônicos e assombram com a ideologia de que tudo gira em torno do dinheiro – fracasso jamais.

O mito “Número Um” intensificou-se com a chegada de Trump à presidência dos EUA, contaminando parte do mundo. E, sem contrapontos, o arrivismo é a ideologia que o país exporta. Está no cinema, na música, na televisão, no estilo de vida, na ascensão social e profissional. O questionado “American way of life” foi resgatado e invadiu países, mesmo aqueles que jamais oferecerão oportunidades como os EUA oferecem aos compatriotas. O eleitor bolsonarista, simpatizante de Trump, sonha com isso. Nem o lema “América em 1º lugar”, de Trump, foi capaz de fazê-lo perceber que está sendo feito de bobo. Nem pensar.

Nos indignamos com cenas, na TV ou nas redes sociais, de pessoas insultando professores, policiais, entregadores, negros, mulheres, gays. Há que se reconhecer que desentendimentos sempre existiram, mas não é o caso. São ataques. E de forma endêmica. Primam pela violência. Reflexo dos rumos ideológicos que o país experimenta. Negacionismo à frente. Sentimento de despeito. Enfermidade dos desinstruídos. Querem ciência, história e diplomacia banidas como pragas; e elegância, educação, generosidade, inteligência e sabedoria enterrados. Programas de TV destacam-se pela pobreza estética, intelectual. E ainda há as cavalgaduras fantasiadas de autoridades. E tão cedo não vai mudar. É coisa de época.

*Cláudio Pimentel é jornalista.

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