Ponto de Vista: O papel da Universidade Moderna, 4

Por Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
03/03/2021 22:08

   

Ao Confrade e grande cineasta Oscar Santana!

A escola, sobretudo a universidade, é a igreja de nossa sociedade secular. Daí a importância de nos interessarmos e de nos envolvermos com o seu desempenho, dentro de um ambiente democrático, marcado pela diversidade e tolerância entre pontos de vista divergentes, particularmente políticos e religiosos, respeitadas as regras da moralidade vigente e a convivência entre distintos níveis técnicos em uso. Para tanto, importa saber que a democracia é uma sinfonia permanentemente inacabada, porque em contínuo processo de construção, durante cuja obra a sociedade aberta que constitui sua conquista fundamental se expõe aos regulares ataques de seus inimigos que é imperioso enfrentar e vencer.

É indispensável, portanto, que o ambiente universitário seja o grande palco para o exercício da democracia, o que significa dizer, um ambiente onde a pluralidade de opiniões e a diversidade existencial sejam a regra, através do sagrado reconhecimento do direito ao contraditório. É por isso que usar o espaço universitário, para a imposição de uma única ideologia, qualquer que seja, em prejuízo de diferentes visões do mundo, constitui a verdadeira antítese do espírito universitário, como é usual com as posturas supremacistas da direita e da esquerda. No Brasil, dá-se o desvio em favor do socialismo marxista, de viés bolivariano, forja de “eruditos de manada”, na expressão de Hannah Arendt, fracassado em toda parte. Essa prática abominável vai na contramão do mais famoso depoimento filosófico, em favor da liberdade de expressão, de autoria de John Stuart Mill, em seu seminal livro de 1859, OnLiberty, capítulo 2, “Ofthelibertyofthoughtanddiscussion”, em que aponta como grave erro a imposição do silêncio a qualquer opinião, mesmo que equivocada, uma vez que a verdade precisa do confronto de visões distintas ou mesmo colidentes para emergir. Enquanto não houver essa abertura, a própria verdade remanesce como uma mera possibilidade e ou preconceito.  

As sociedades decadentes ou em formação são alvo permanente dos atentados populistas de esquerda ou de direita, quase sempre com propósitos totalitários. Em ambos os casos, apoiados na fragilidade individual e coletiva advinda do sentimento de escassez proporcionado pelas carências no plano das necessidades fundamentais, como as fisiológicas e de segurança, como nos ensinou Abraham Maslow, em sua conhecida hierarquização das necessidades humanas. Diante da cronicidade de carências tão agudas, o dependente imaginário popular veste os seus candidatos a líderes com a roupagem de salvadores da pátria, hipotecando-lhes a própria liberdade. A experiência comprova que não há instituição que seja invulnerável a críticas, em face da possibilidade de falhas em qualquer estrutura. Mais inteligente e produtivo do que defendê-las dos ataques que lhes forem dirigidos é perguntar o que se perderia com sua extinção e, em seguida, o que seria colocado em seu lugar. Essa simples sequência de perguntas tem considerável poder de abreviar ou extinguir discussões. Já é mais do que chegado o momento de perguntarmos se o elevado custo da Universidade Pública Brasileira justifica a continuidade de sua manutenção, diante dos parcos resultados que produz, e se não seria preferível sua substituição por empreendimentos privados no modelo que levou os Estados Unidos ao primeiro posto em escala planetária. Basta ver que são americanas dez entre as doze melhores universidades do Mundo.

As bem sucedidas iniciativas da Embraer, fundada em 1969, sob a liderança de Ozires Silva, e da Embrapa, em 1973, por Alysson Paolinelli, são modelares do que pode ser alcançado quando as pesquisas científicas e tecnológicas ocupam o primeiro posto dos centros de conhecimento, em lugar do pernicioso processo político-partidário presente na Universidade Pública Brasileira. Esses dois empreendimentos levaram o Brasil à liderança em suas respectivas áreas, a tal ponto que o nome do professor de Agronomia e ex-ministro Paolinelli está sendo cogitado para receber o Nobel da Paz.

O próximo, quinto e derradeiro artigo desta série, será dedicado a sugerir o que deveria ser o papel da outrora respeitada Universidade Federal da Bahia, hoje, em 18º lugar, no Brasil, entre as unidades públicas, abaixo do Ceará, Alagoas e Sergipe.


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