Ponto de Vista: O riso do presidente e o choro do governador

Por Cláudio Pimentel*


Tribuna da Bahia, Salvador
04/03/2021 22:46

   

O riso não tem cura. O choro também não. São contagiosos, e não passam de expressões dos ambíguos sentimentos do homem. Nos acompanham desde os primeiros passos da humanidade. E a compreensão começa há cinco mil anos. Os animais, se riem ou se choram, não os compreendem. Alguns humanos também parecem que não. Aristóteles, por volta de 335 a.C., deu-lhes cores definitivas, ao dissecar princípios e práticas da arte dramática. Rir e chorar ganharam novas interpretações. Viraram até símbolos do teatro. Se um representava a alegria e o outro a tristeza, passaram a representar tudo. Misturaram-se. Bastam as nossas intenções.

Nessa semana, um choro inesperado abriu o mês de março e deu o que falar, asseverando a gravidade das próximas semanas no quixotesco combate ao Covid. Acostumado a impor energia, assertividade e agilidade às entrevistas que concede, o governador da Bahia, Rui Costa, ia nessa pegada, nas respostas aos jornalistas do televisivo Jornal da Manhã, quando, ao citar a morte de uma menina de 16 anos e relatar as pressões que recebe contra o “lockdown”, travou. E desmanchou-se num choro convulsivo. Era a expressão do poder reconhecendo-se impotente diante de um destino de adversidades, contaminado pelo ambiente tóxico do país.

O choro do governador deveria ser o choro de todos nós. Choro por mudança de atitude de autoridades que desprezam a doença. Choro pelas pessoas que incompreensivelmente negam-se a praticar um dos sentimentos elementares do convívio humano: proteger a si e ao outro. As aglomerações em praias e bares são sinais de psicopatias. E quem incentiva comete crime de homicídio no mínimo culposo. Rui chorou pelas filhas, que correm riscos como nossos filhos; chorou pelos trabalhadores, os mais prejudicados na decretação de “lockdowns”; e pelas insensíveis forças federais que desdenham das ações profiláticas para combater a doença. Rui é humano.

Apesar das mais de 250 mil mortes pelo vírus no país e da iminência de colapso no atendimento aos enfermos nas capitais, duas manifestações chamaram atenção pelo nonsense: a carreata de pais, em Recife, exigindo o retorno das aulas em colégios particulares; e a carreata, em Salvador, de comerciantes exigindo do prefeito a manutenção do comércio aberto. Na primeira, o desamor pelos filhos comove. Na segunda, a recíproca aos clientes é mortal. Com exceção do período colônia/escravidão, cenas como essas seriamARTI inconcebíveis no país. Aliás, inconcebíveis até o errático fenômeno bolsonaro, com b minúsculo. Sua ascensão liberou as múmias apocalípticas.

A primeira manifestação de quem nasce é o choro. Não é um sentimento consciente. É explosão à dor na passagem de uma dimensão a outra. Da segurança do útero ao desconhecido da existência. O choro é o antídoto à dor, que se repetirá além vida. Uma forma de purgar, lavar e purificar a alma, o espírito, a consciência. O riso também regenera. O Universo, por exemplo, nasceu de uma gargalhada. Do riso nasceram os deuses, a luz, a água, o destino, o tempo. O riso nos libera do medo. Nos dá segurança. Rindo ridiculariza-se a ameaça. Rindo nos tornamos ameaçadores.

A era bolsonaro trouxe elementos novos aos sentidos: rir é poder; rir degenera. Por isso, ri. A inquisição se apropriou do riso. O poder aprendeu. Libertador. Opressor. Quem orienta bolsonaro sabe. Convidar o humorista “Carioca” para imitá-lo no “chiqueirinho”, no Planalto, foi exemplo. O riso é dele. O presidente tornou-se obstáculo àqueles que combatem o vírus. “É gripezinha”, ri. “Coisa de maricas”, ri. “Só idiota pede vacina”, ri. O bolsonaro é o “Moinho de Vento”, é o “Dragão da Maldade”, é o “Antônio das Mortes”. Homem que ri. O mundo que chora pelo Brasil. A gente ri. A gente chora.

*Cláudio Pimentel é jornalista.

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