Ponto de vista: O silêncio vale ouro

Por: Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
10/12/2020 23:43

   

O silêncio é como o oceano: majestoso. Uma força da Natureza que está dentro de nós e preexiste ao Universo. Onde na Bíblia lê-se “quando tudo era escuridão” ninguém estranharia se estivesse escrito “quando tudo era silêncio”. Independe de maquinarias, magias, romarias. Depende de nós. Seríamos menos infelizes se estivéssemos conectados a ele. Mais sensíveis para compreender uma sociedade órfã de líderes. E fortes para enfrentar o Covid, relegado por classes dirigentes inábeis em seus papéis. Cultivar o silêncio é apostar na saúde e não na doença. Um remédio para o desconhecido destino que nos aguarda. Mas quem o garante?

Michel de Montaigne, no livro “Ensaios”, preencheria aquela necessidade de querer ouvir os mais velhos, quando diante das bifurcações da vida. Um dos obstáculos ao cultivo do silêncio é o medo da solidão. O sentimento de poder criar o silêncio sozinho remete a isso. Diz o filósofo francês sobre ela: “(...) podemos retirar-nos da Corte, renunciar aos negócios; não estaremos, contudo, ao abrigo dos principais tormentos da vida (...) a ambição, a avareza, a indecisão, o medo, a concupiscência não nos abandonam tão-somente porque mudamos de lugar. (...) Não há desertos, cavernas nos rochedos, mortificações e jejuns que nos libertem”.

O silêncio não é solução para o postulado de Montaigne, mas a solução para entender cada tormento citado. O explorador norueguês Erling Kagge diz, no livro “Silêncio – Na era do ruído”, que falar é o que o silêncio deve fazer. “E você deve falar com ele para aproveitar o potencial que ali existe”. O silêncio traz consigo um deslumbramento, uma grandeza incomum, pelo fato de estar abrindo caminhos interiores para nos conhecermos realmente. “É por isso que muitos têm medo do silêncio. E é por isso que temos música como pano de fundo em tudo, por toda a parte,” reflete.

Música que está por trás das aglomerações no país: bares, festas, paredões. Ela é culpada? Não. O hábito é ocupar o ambiente ou o tempo com som, ruído, barulho. Tenho conhecidos que defendem música em tudo. Que, ao chegarem em casa, a primeira coisa que fazem é ligar a TV, mesmo sem assisti-la. O silêncio os impõe um medo maior: encarar a própria condição humana, finitude, transitoriedade, angústias. Em tempos de pandemia, quando obrigados ao isolamento social – momento de estar consigo, de mergulhar no infinito interior – a pressão é demasiada. Hora de romper, fugir, procurar companhia, suprimir o desconforto existencial.

O mundo virou um catecismo de lições de moral e lugares-comuns. Num blá blá blá irritante e interminável. Recriminações, opiniões e pontos de vista contraditórios desafiam a sensatez. Puro ruído. Um farfalhar sem sentido. As redes sociais tornaram-se fogueiras da inquisição. A imprensa segue caminho semelhante, dramatizando o fato e repetindo-o além da exaustão. Não há mais silêncio. Ninguém sente sua falta. A lógica dos meios de comunicação é ocupar o tempo, afastar o tédio, desviar-nos da reflexão. Procura-se tempo para tudo, menos para cultivar o silêncio. Uma pena. Cultivar o silêncio qualifica decisões, refina gostos, apura espíritos.

Logo hoje, quando o silêncio é mais importante do que em qualquer outra época, preferimos a cegueira, o barulho, o vazio interior. Mesmo sendo o silêncio um amigo confiável incondicionalmente. Cultivá-lo requer maturidade para a qual as novas gerações, desde a “baby boomer”, jamais foram preparadas. E o hábito vai torná-lo tão natural quanto respirar. Um passo à transcendência. Momentos de paz, sabedoria e bom viver. Alegrias à granel. Quanto à solidão, troquemos por solitude. Enquanto o primeiro nos fecha para o mundo, o outro nos expande em direção ao infinito. O silêncio vale ouro e não custa nada. Confira.


Cláudio Pimentel é jornalista

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