Ponto de Vista: Paulo Freire e a educação que liberta

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo


Tribuna da Bahia, Salvador
19/09/2021 19:03

   

Hoje não é o Dia Mundial da Educação, comemorado oficialmente em 24 de abril, mas bem que o mês de setembro poderia ser escolhido para celebrar o legado deixado por um homem que considerava a educação um ato libertário, voltado para a construção política da cidadania. Em dezenove de setembro, minhas caras e meus caros, é o dia que marca o aniversário de nascimento do saudoso educador Paulo Reglus Neves Freire. Nestes tempos obscuros, em que as políticas públicas e os investimentos pró-educação foram deixados de lado, vale lançar luzes sobre o trabalho, reconhecido mundialmente, do Patrono da Educação Brasileira. 

Confesso que, na caminhada de 31 anos atuando como professor, muito aprendi (e ainda aprendo) com o mestre Paulo Freire. A principal lição tornou-se uma obrigação para mim ao entrar na sala de aula: educar é transformar e construir com os alunos um caminho aberto à consciência crítica. Procuro seguir este compromisso com o testemunho de quem já vivenciou muitas fases da educação no Brasil, tanto no regime de exceção quanto nesses 36 anos de “democracia imperfeita”. 

E digo com a propriedade de quem se lembra e de quem ouviu falar de muitos exemplos extremos: da temível palmatória ao círculo de debates; do constrangimento público em classe à livre discordância argumentativa; do prazer de estudar à inércia do Control C/ Control V (copia e cola). Exemplos que definem os educadores e os educandos que decidimos ser. Sim, Paulo Freire nos mostrou, com os caminhos da sua Pedagogia Crítica, que somos os próprios atores sociais da educação, com uma função política e cidadã, e não apenas meros “papagaios” reprodutores de conteúdos. Nas palavras do mestre, antes de qualquer ação, um sentimento define o ato de educar: “Não se pode falar de educação sem amor”.

Outra grande lição de Paulo Freire provém de um dos seus livros mais famosos, “Pedagogia do Oprimido”. Em seu entendimento, a linguagem, muitas vezes usada como um instrumento de opressão, não deve ter um viés de superioridade na voz dos educadores. Ao contrário, educador e educando devem construir juntos um novo caminho do conhecimento com suas múltiplas experiências, fundamentados na prática dialética com a realidade. Em resumo, ele critica o modelo de uma educação denominada de bancária, tecnicista e alienante, defendendo que os educandos criem os seus próprios rumos. Uma célebre frase de sua autoria sintetiza esse pensamento: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo; os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. 

Como educador e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE/BA), é com grande satisfação que vejo, no âmbito da educação, as iniciativas do projeto Educação é da Nossa Conta. O principal propósito desse projeto é intensificar a fiscalização dos recursos destinados à educação pública, elevando a qualidade do ensino e dos equipamentos destinados à comunidade estudantil. Nesse quesito, o TCE/BA tem dado a sua importante contribuição, entretanto é preciso que cada um faça a sua parte a fim de fortalecer o controle social. 

Navegando na web para uma breve pesquisa, lamento mais uma vez que os brasileiros não conheçam os seus grandes ícones. É muito provável que, pelo senso comum, muita gente saiba o nome dos jogadores de futebol mais famosos, ou das duplas sertanejas que viralizam no Youtube. Mas, certamente, não sabe essa gente que Paulo Freire foi o intelectual brasileiro mais homenageado da história, com pelo menos 35 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades da Europa e América, tendo recebido, ainda, o prêmio da Unesco de Educação para a Paz, em 1986. 

Nesta data, nada mais oportuno do que homenagear, por meio da figura de Paulo Freire, todos os professores e estudantes, a minha querida Universidade do Estado da Bahia (Uneb), enfim, toda a comunidade escolar, principalmente a do ensino público, que vem sendo brutalmente prejudicada com o freio brusco dado pelo governo nas políticas de educação. Quando iremos aprender que gastar com educação não é despesa, mas sim investimento? Persisto sonhando que o sonho de construção de uma sociedade justa, crítica e politizada se transforme em um projeto tangível, sempre com os ideais da educação libertária e transformadora. Feliz cem anos, eterno mestre Paulo Freire.

*Inaldo da Paixão Santos Araújo é mestre em Contabilidade, Conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e escritor. inaldo_paixao@hotmail.com

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