Ponto de Vista: Sobre homens e cães

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo*


Tribuna da Bahia, Salvador
28/02/2021 21:46

   

No meu artigo sobre a agressividade dos pitbulls, concluí afirmando que a culpa era do homem. Como o texto, após ser publicado, ganha o mundo, recebi alguns comentários de leitores amigos. 

De um, ao concordar com meus escritos, resumiu que a questão são os donos que não tratam os cães com o devido carinho. Afirmou também que todos os cachorros possuem 42 dentes quando adulto. Como nunca abri a boca de um para contar, confio nas redes e na informação de quem gosta e conhece.

De um outro, que a mordida do pitbull é cinco vezes mais fraca do que a do rottweiler. A diferença é que a mordida do pitbull tem uma trava na mandíbula, e ele não precisa fazer força para manter a presa, bastando sacudir e dilacerar sua pobre vítima.

Em resumo, se o dono for irresponsável, coloca realmente em risco as pessoas. Precisa ter a confiança do cão para liderá-lo. O cão precisa de vários contatos para que tenha confiança e aceite a liderança.

Para um belo casal, que cuida há muito de cães, meu artigo reflete o posicionar de especialistas. E traduz a verdade para a maioria dos cães, pois os animais são diretamente influenciados pelo temperamento dos donos, mas não de forma absoluta. Em relação aos pitbulls, informam-me que estudos apontam que é quase impossível o seu adestramento devido ao comportamento imprevisível, fruto dos cruzamentos que o originaram 

Ao concluir, rememoram que o pitbull de um proprietário consciente, equilibrado, que não o maltrate, se tornará muito menos agressivo do que outro criado entre o desequilíbrio e a agressividade. Mas isso não impedirá o primeiro, diante de uma situação qualquer, de ter um rompante de descontrole.

Tudo verdade, mas qual a certeza absoluta nessa vida?

De um amigo-irmão, um relato que, a seguir, reproduzo na íntegra:

“Tenho trauma com pitbulls. Preciso lhe contar. 

Corro pela manhã da minha casa até o Farol de Itapuã. Num certo dia, fui surpreendido por um pitbull. O animal estava amarrado num desses piquetes de estacionamento.

Seu dono estava tomando cerveja com amigos num barzinho-biboca de beira de rua. Um barraqueiro de praia caminhava na companhia de seu cachorro vira-lata, empurrando um carrinho com as cadeiras. Ele estava indo trabalhar, era manhã de sábado.

Quando o vira-lata passou distraidamente em frente ao pitbull, a cena foi terrível. Inesquecível pra mim que passava na hora.

O pitbull pulou de surpresa no pescoço do vira-lata. Rabi (assim ele me chama), ninguém conseguiu fazer com que a fera soltasse o cachorro que agonizava e sangrava. Bem na garganta. 

As pessoas gritavam, o cãozinho urrava, o dono do pitbull batia de cacete, cadeira, tamborete. Até com uma pedra grande bateram nele. Mas o pitbull, mais ainda, travava a mordida.

O tráfego parou. Um motorista de táxi veio socorrer, bateu com uma chave de rodas. Nada disso foi o bastante. Os passantes como eu gritavam de desespero em ver a cena.

O desfecho? O cãozinho morreu. O pitbull, todo machucado das cacetadas e pedradas, enfim, acalmou-se. O barraqueiro chorava descontrolado. Eu fui embora em estado de choque. Não quis olhar pra trás. Cheguei em casa amarelo. Simplesmente horrível.

Até hoje me lembro do sangue na calçada e do cãozinho arquejando, mole, de olhos virados nos braços do dono. Já pensou se fosse uma criança?”

Por fim, um outro pensou que eu fosse um dos defensores da raça. Mas, como amigo e admirador, aconselhou-me a não ter ou não brincar com um pitbull, pois ele pode estar 'naqueles dias'.

Nada mais longe de mim. Não gosto do animal. Tenho verdadeiro pavor de quem os cria. Por enquanto é isso.

Se assim comecei, nessa linha assim termino: o cão pode até ser o melhor amigo do homem, mas a recíproca nem sempre será verdadeira.

*Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, professor, escritor.

inaldo_paixao@hotmail.com

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