Ponto de Vista: Sorry, Paulo Gustavo

Por Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
06/05/2021 23:45

   

         Esta crônica, talvez, não devesse ser escrita. Assim como tantas outras coisas que não deveriam ser ditas ou feitas, como você verá. Mas acontecem, para o bem ou mal. Infelizmente, foi necessária a morte de um símbolo, Paulo Gustavo, ou vários, seus heterônimos, como “Dona Hermínia”, para que parte da população acordasse para o pesadelo que cobre o país. Só assim. As redes sociais desmancham-se em lágrimas. Algumas de crocodilo, uma vez que ainda há quem negue-se a reconhecer os culpados dessa tragédia: daqueles que brincam de Deus. Ou de Diabo. Esse bem mais apropriado. Despreparo? Má-fé? O tempo dirá.

         Politizar a morte de Paulo Gustavo, seu calvário e o sentimento de parentes é sacanagem, mas é impossível não reconhecer que sua violenta retirada do planeta poderia ter sido evitada se ações definitivas tivessem ocorrido no momento certo – quantas vidas seriam poupadas... quanta dor... Em poucos dias, a “CPI do Coronavirus” já descobriu que a população poderia estar sendo vacinada desde novembro do ano passado. E sem interrupções. A iniciativa, por exemplo, teria impedido o surgimento de cepas mais agressivas do vírus. Aquelas que causaram em apenas dois meses de 2021 (março e abril) mais mortes que em todo 2020.

         O humor pode ser ponto de partida para tudo, mas, antes, uma distinção: cômico e humor não são sinônimos. Cômico é corpo, ato. Humor é mente, comentário. Paulo Gustavo unia ambos, inovando o modo de fazer rir, depois do tsunami Internet, que mudou o modo de fazer de quase tudo, inclusive humor. Um sucesso. Paulo era a mistura de Chico Anísio e Renato Aragão: sutil, escrachado, elegante. Humor borbulhante, inesperado, estrondoso. Esbarrar nas pessoas na “Times Square” só para depois pedir “sorry” foi um desses lampejos geniais. Inesquecível. Brincadeira com turistas e cinema. Quantos “sorrys” ouvimos em filmes de Hollywood?

         Além dos seus filmes e programas de TV atenuarem a melancolia do isolamento, o ator ajudou as Obras de Irmã Dulce e doou R$ 500 mil em oxigênio para possível escassez do insumo em hospitais fluminenses. Era voluntário agindo para impedir mais mortes pelo vírus. E impediu. Mas não teve a mesma sorte. Assim como ele, eu e você estamos à mercê da sorte, quando deveria ser da ciência. Mas o Brasil, há dois anos e meio, a trocou pela ignorância. Hoje, somos guiados por supersticiosos mal-intencionados, que exibem a Bíblia numa mão e a arma na outra. “Vade retro”.

         A morte de Paulo Gustavo deve, sim, ser tratada politicamente. A partir dela, a população tem que pedir mudanças no país. Chega de amadorismo, fanatismo, sadismo, cinismo, provincianismo. Chega! O Brasil nasceu para ser feliz e não refém de quem odeia a cidadania. Governos são eleitos para proteger pessoas e não maltratá-las. Os brasileiros moram no Brasil e não nos EUA, fetiche bolsonarista. Nossa bandeira é a da paz e não as que anencéfalos defensores exibem com apologias à morte, ao preconceito, à violência. Não aos loucos que prestam continência a embalagens de cloroquina. A todos, atiro bolas de demolição.

Nós somos Paulo Gustavo. Mas também culpados de sua morte. Nossas mortes. Jair Bolsonaro tornou-se um erro histórico que está sendo pago com vidas. Nós permitimos. Quando digo nós, incluo Congresso, instituições, empresários, grande mídia... A CPI içou o iceberg e a ponta já mostra os pecados da inação, da maldade. O país está muito pior do que em 2016, quando acenamos debochadamente “adeus querida”. Agora seria pomposamente “adeus odioso”. Quantos brasileiros mais ainda perderão a estadia nesse plano? O tempo esgota-se. O tempo é senhor da razão. A razão bate à nossa porta. A da consciência. Sorry, Dona Hermínia!

*Cláudio Pimentel é jornalista

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