Ponto de Vista: Sucessão precipitada

Por Raymundo Pinto*


Tribuna da Bahia, Salvador
22/06/2021 22:23

   

De repente, em 15 de junho, o PSDB, conhecido como o partido do ex-presidente Fernando Henrique, reuniu a Executiva Nacional e marcou para novembro do corrente ano a convenção que irá escolher o seu candidato à presidência da República, existindo desde já nada menos de quatro pretendentes na escolha: João Dórea, governador de São Paulo, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, Tasso Jereissati, senador pelo Ceará e ex-governador desse estado, e Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus (AM). Após terem sido anulados os processos criminais contra ele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ficar animado com a política e, apesar das negativas de nova candidatura, percorre o país, mantendo inúmeros contatos em busca de apoio. Está claríssimo que o atual presidente Bolsonaro não abre mão de concorrer à reeleição. Enquanto isso e no propósito de romper a polarização ora evidente pelas pesquisas (presidente x Lula), luta por fora e muito otimista o candidato certo do PDT Ciro Gomes. Aliás, a busca por uma possível terceira via movimenta diversos outros setores políticos, destacando-se os que se consideram numa posição de “centro”, equidistante, pois, de extremismos da esquerda e da direita, que não se confunde com o “centrão”, grupo de parlamentares menos idealistas, porém mais tendentes a obter favores (nem sempre lícitos) dos que estão no poder.     

Os fatos narrados no parágrafo anterior deixam bem evidente que começou – de modo muito precipitado, a meu ver – a campanha com vistas à eleição de outubro de 2022, que irá eleger o próximo presidente da República. Faltam dezesseis meses. Indaga-se: trata-se de algo positivo ou negativo? Reconheço que não é nada fácil assumir uma posição diante de tal dúvida, uma vez que envolve pontos de vista de vários matizes, inclusive os de ordem econômica, ideológica e até emocional. Tentando explorar o lado negativo, lanço, de logo, o argumento que salta aos olhos da grande maioria: a perigosa e quase invencível pandemia que assola nosso país. Diante desse enorme desafio no plano da saúde pública, é por demais desaconselhável – senão criminoso – não concentrar todos os esforços das forças e poderes públicos e privados no combate incessante contra o gravíssimo problema, evitando desviarem-se as atenções para campanhas eleitorais cujo tempo certo ainda está muito distante.  

Não sou insensível às opiniões dos que alegam que também houve uma antecipação política em face da polarização entre duas candidaturas, as quais, como já demonstrado, estão em plena movimentação. Existe uma multidão de brasileiros que repelam optar por correntes mais radicais e preferem posições de maior equilíbrio. Deveriam, portanto, dispor de um tempo bastante amplo com vistas a encontrar um candidato que venha a se enquadrar nessa terceira via.    

São justas as pretensões dos que não se conformam com a polarização atual. Não concordo, no entanto, que os partidos se dediquem, com tanta antecedência, a escolher candidatos ou programar convenções. Seus líderes devem ter ampla liberdade a fim de promover encontros com outras lideranças, sendo o ideal, no momento, discutir programas e planos de governo, deixando a indicação de nomes para mais adiante. O tempo, com certeza, vai concorrer para que as ideias amadureçam e os pontos convergentes surjam naturalmente. Em suma, as grandes decisões não podem ser tomadas de afogadilho e requerem extrema paciência. 

*Raymundo Pinto, desembargador aposentado do TRT, é escritor, membro da Academia de Letras Jurídicas da Bahia e da Academia Feirense de Letras. racpinto@uol.com.br.  

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