Ponto de Vista: Tecnologias reduzem custos

Por José Renato Nalini *


Tribuna da Bahia, Salvador
11/02/2021 22:55

   

Um 2020 pandêmico fez com que uma parcela considerável dos serviços migrasse para os lares. Com isso, verificou-se que alguns conceitos precisam ser reformulados. Os empregadores perceberam que benefícios como vale-transporte se tornaram inócuos. Até mesmo o vale refeição, um ticket para se alimentar em restaurante, perdeu o sentido, quando o empregado tem de comer em casa.

Isso não impede que sejam pensados outros estímulos para que o serviço continue em ritmo até acelerado, pois há economia no tempo de locomoção, a desnecessidade de trajes especiais, como custear parte da energia elétrica. Agora de uso intensificado, com os equipamentos necessários à navegação pelo mundo web.

Percebeu-se também que é necessário investir em projetos de saúde mental e comportamental. Estresse, depressão, síndromes as mais diversas, proliferaram durante o confinamento. A empresa inteligente providenciará alguma coisa para manter hígido, corpo e espírito, o seu colaborador.

A tecnologia passou a ocupar um papel importantíssimo na vida humana. Ela auxilia o ser racional a realizar suas tarefas e a procurar a consecução de seus objetivos. Mas é mero instrumento, não pode ser convertida numa panaceia ou, pior ainda, substituir a crença, a fé, a relação com a transcendência.

Muitos de nós podemos ter recebido um impacto com as obras de Yuval Harari, que escreveu “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 Lições para o Século 21”. O conceito de “Homo Deus” é justamente a supervalorização das tecnologias, que prolongarão a vida, afastarão a ideia de morte e transformarão o sapiens num ser quase-divino.

Tanto apego à tecnologia, que realmente facilita a vida e nos dá a sensação de sermos mágicos, leva a uma quebra de paradigmas. Abandonamos nossos métodos, nosso modo de pensar e podemos ter a sensação de que vivenciamos a ficção científica. Aliás, as conquistas recentes mostraram que os ficcionistas perderam, em termos de imaginação, um fictício campeonato com os cientistas.

Quem consegue administrar tal fenômeno com superioridade a nós, ocidentais, são os orientais. Eles abusam da mais moderna tecnologia, mas não abandonam as suas tradições, o seu pensamento e a sua espiritualidade. É interessante, para quem se sinta atraído para o assunto da tecnologia e de seus efeitos em nossa vida, a leitura do livro “Tecnodiversidade”, do filósofo chinês Yuk Hui, que a editora Ubu publicou recentemente. Ele também já escreveu “On the Existence of Digital Objects”, obra a respeito da existência e importância de objetos digitais, “Recursivitu and Contingency”, sobre recursividade e contingência e “Art and Cosmotechnics”. Todos ainda não traduzidos para o português.

Ele faz profundas reflexões sobre a tecnologia e propõe que é urgente a reformulação das Universidades, sobretudo em relação ao sistema de conhecimento, suas divisões e estruturas. Tudo foi definido há muitos séculos e a educação, como constatamos de forma escancarada no Brasil, não está preparando as novas gerações para o mundo de hoje. O que se dirá em relação ao amanhã?

A tecnologia não pode ser considerada num grau superior ao de outras formas de pensar, como a ética, a estética, a religião, a filosofia, o contexto histórico e cultural. A ordem é mergulhar no estudo da diversificação, não restrita à perspectiva do mercado, mas também, e principalmente, na missão de imaginar como será o futuro.

Ao contrário de alguns filósofos contemporâneos, agnósticos ou simplesmente ateus, Yuk Hui não acredita na proclamação de Nietzsche de que Deus está morto: “Deus é transcendência que não pode ser substituído pela tecnologia em si. No entanto, a fantasia sobre a tecnologia, como, por exemplo, a ideia de “homo Deus”, de singularidade e outros ermos que invocamos antes podem desempenhar esse papel”.

Muito embora a ciência tenha aberto muitas janelas e desvendado segredos que pareciam inatingíveis, muitas outras coisas continuam desconhecidas. A dimensão de nossa ignorância se amplia à proporção que nos aproximamos de horizontes infinitos. O mistério passa a ser mais místico do que já foi: “o desconhecido ocupa o lugar de Deus; alguns continuam a encontrá-Lo na religião, alguns na poesia e alguns na arte”.

Continuamos mortais, frágeis, efêmeros nesta aventura que nos ilude. É necessário não perder de vista a nossa finitude perante o mistério do mundo. A pandemia deveria nos tornar mais pensativos, mais conscientes de nossa insignificância. Ela poderia mostrar que as tecnologias estão a nosso serviço, para reduzir custos, sim. Mas não para substituir valores, crenças, alicerce e substrato que nos conserva como seres com exata noção de seu papel neste planeta.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022


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