Ponto de vista: Um entre 31 milhões

Por Inaldo da Paixão Santos Araújo


Tribuna da Bahia, Salvador
09/05/2021 23:28

   

Glória a ti neste dia de glória, meu Senhor do Bonfim. Nesta sexta-feira em que escrevo, sou um entre 2,4 milhões de pessoas que, na Bahia, foram vacinadas. No Brasil, mais de 31 milhões.

Enquanto, emocionado, escrevo este artigo, não posso deixar de render as minhas sinceras condolências aos mais de 400 mil brasileiros que foram vitimados pela covid-19 e às suas famílias.

Confesso que o ato de vacinar, para mim, tem um simbolismo todo especial. Remete às memórias da minha infância, fazendo-me lembrar de que as primeiras injeções, aquelas antigas, dadas nas seringas de vidro, sempre eram tomadas com muita credulidade. Minha mãe cria nelas com muita veemência e, para qualquer enfermidade, sempre me dizia: “Se não sarar com isso ou aquilo, vai tomar Benzetacil”.

E não é que o Benzatacil curava mesmo? Mas, paradoxalmente, eu tinha muito medo de tomar o bendito Benzetacil. É que a dor era grande, posso até me lembrar disso também. Por isso, por vezes, me sarava antes. Para tais enfermidades, tão mais simples de curá-las, a gente podia se dar a esse luxo de sarar antes. Ah! Quantas saudades tenho daquele tempo!

Tão emocionado, tão feliz, mas, acima de tudo, tão aliviado fiquei no momento da vacina, que agradeci ao Governo do Estado, à Prefeitura Municipal de Salvador e a todos os profissionais envolvidos no processo de aplicação de uma vacina que seja.

Sinto me grato a todos: desde ao cientista, lá na ponta, ao pessoal da área de logística, ao piloto do avião que transportou os lotes de imunizantes, ao motorista que os levou até o posto de saúde, à pessoa que as armazenou com cuidado, a quem as aplica, a todos os envolvidos, sem distinção.

Sou especialmente grato à Dra. Leila, aquela gentil senhora que, visivelmente, me aplicou a dose com muita alegria e com muito sentimento de servir ao público. Doutora? Sim! Para mim, todos os que exercem seus ofícios com humildade, mestria e alegria são doutores.

Perguntaram-me por que não agradeci a Deus. Ora, a Deus eu agradeço sempre, todos os dias. Ademais, também aprendi com o Senhor que deve ser dado a Deus o que é de Deus, e ao homem o que é do homem. Nessas coisas que são do homem, eu prefiro crer na ciência, crer na pesquisa, crer no serviço público, crer no político também, pois há muitos deles com boas intenções, e crer, acima de tudo, naqueles servidores públicos que, como já falei tantas vezes aqui e alhures, se sacrificam dia após dia, por vezes em troca de um salário nada digno, para prestar, com muita dignidade, a sua messe.

Enquanto escrevo, chove, e chove muito, em Salvador. A mesma chuva que traz graças, que traz bênçãos, às vezes também provoca, numa cidade tão paupérrima quanto Salvador, dissabores. Mas hoje, embora seja um dia gris, não posso e nem devo me lamentar.

Não vou dizer qual vacina tomei. Afinal, isso é o que menos importa. Vacina boa é a vacina aprovada e que está disponível para nos imunizar. Como tenho fé no homem, na vida e na ciência, qualquer que fosse a vacina, eu tomaria de bom grado, eu tomaria para me proteger, para proteger as pessoas a quem quero bem e, principalmente, para servir de exemplo, demonstrando que cada um precisa fazer bem a sua parte.

Nesses tempos tão tenebrosos, tão sombrios, com tantas descrenças, com tantas mentiras, com tanto “não disse que disse” ou “disse que não disse”, eu me sinto feliz por ver se fortalecer a esperança em mim.

Muito obrigado, Dra. Leila, tanto pela vacina que me aplicou quanto pelo largo sorriso que me ofereceu. A senhora reforçou em mim que é preciso saber dividir, e que, sem o outro, nada sou. Ao lhe ofertar um singelo chocolate, a sua preocupação, expressa nas palavras ditas, foi a de compartilhar: “Vou dividir com todos”! Com certeza já tendo dividido o chocolate com todos, Dra. Leila, eu tenho a felicidade de dividir com os que me leem a emoção de ter recebido não apenas a vacina, mas o seu sorriso, a sua alegria e o seu gesto de esperança. E como reza a tradição indiana, curvo-me em reverência a todos os que trabalham por um mundo melhor. Namastê.

Inaldo da Paixão santos Araújo é mestre em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado. Professor. Escritor.

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