Ponto de Vista: Um mundo mais perigoso

Por Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
07/01/2021 22:10

   

Eu acreditava que a reeleição de Trump tornaria o mundo um lugar mais desconfortável do que já é. Enganei-me. A não reeleição, depois do espetáculo de violência no Capitólio, mostrou que Trump, na oposição, liderando um bando de mais de 70 milhões de ensandecidos – total de votos na derrota para Biden -, tornou o mundo mais perigoso. Muito mais do que em 2001, quando os famélicos terroristas de Osama Bin Laden derrubaram as Torres Gêmeas. Os terroristas de Trump são brancos, bem alimentados, fanáticos religiosos, armados até os dentes, nasceram e residem, desde criancinha, nos Estados Unidos. São da vovó.

O Iluminismo, que reunia movimentos intelectuais diversos, influenciou, a partir do século XVII, todos os setores da atividade humana: filosofia, ciência, arte, arquitetura, literatura, economia, política... Apesar dos inúmeros ataques que, desde o início, foram dirigidos aos seus pressupostos filosóficos e às suas consequências práticas, mantém marca indelével nas relações políticas há quatro séculos. A perspectiva iluminista dominou a consciência intelectual ocidental. Moldou o mundo como conhecemos. A admirada democracia norte-americana é fruto dessa fé no poder da razão humana. Trump a jogou no lixo. Se sobrepôs a ela e a colocou em cheque. Ninguém, em tempo algum, ousou tanto.

O vigor empreendido na construção dos Estados Unidos e de sua democracia, já cercada de cuidados na primeira Constituição do país, inspirou políticos, economistas, administradores, historiadores e, sobretudo, escritores. Não há quem melhor tenha descrito essa pujança do que a nata da literatura norte-americana no século XX. Philip Roth, John Updike, Norman Mailer e Gore Vidal narraram, reunindo ficção e fatos, a idade de ouro do país - surgimento de uma Roma -, aspectos sociais, educação, riqueza, tecnologia e bastidores da política. Traçando os perfis das lideranças que os construíram. Fossem presidentes ou “big shots” do petróleo, finanças ou entretenimento.

Como esses escritores reagiriam à cena num Capitólio invadido a mando de um presidente em exercício? Se surpreenderiam? Não. O ceticismo em suas obras sugere que não se permitiriam tal ingenuidade, mas admitiriam certa incredulidade, até porque toda ameaça ao “Império” sempre foi externa, como no período da Guerra Fria. Uma ameaça interna, como Trump, seria algo que a força da democracia americana debelaria antes. No máximo, algo exótico como Lee Oswald, assassino do presidente John Kennedy, que ganhou biografia de Norman Mailer. No livro, se há conspiração, é a de um homem torturado por dúvidas e ideologias mal compreendidas.

Se Updike, com a saga de Harry Angstrom, o “Coelho”, traça o perfil psicossocial da cultura americana da classe média, na segunda metade do século passado, Roth trata das ameaças à democracia, destacando “Complô contra a América”. No livro, o herói da aviação Charles Lindbergh, simpatizante do nazismo – concorreu às eleições presidenciais de 1940 e perdeu – vence as eleições, levando os EUA a se aliarem à Alemanha, de Hitler. É, porém, Vidal, o cronista da América, quem melhor trata o tema: “Lincoln”, “Burr’, “Washington D.C.”, “1876”, “Império” e “Hollywood” mostram a trama do agigantamento ianque com ironia, malícia e graça.

“O verdadeiro poder – nem quero usar tal palavra – é o medo”, disse Trump, em 2016, a Bob Woodward. A frase está na epígrafe do livro “Medo – Trump na Casa Branca”, do jornalista, que é categórico: o presidente seria capaz de tudo, inclusive deflagrar um golpe. Não dá para afirmar que foi essa a intenção na invasão ao capitólio, mas foi danoso. Os EUA viraram chacota. É um Pitbull desmaiando diante do Chihuahua. A deposição dele, como pedem, é pouco. A prisão é necessária. Exemplo para os EUA e para o mundo. A democracia é o bem maior. Não merece ameaças.

Cláudio Pimentel é jornalista

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