Ponto de vista: Urgente Reforma Universitária

Por: Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
16/12/2020 23:30

   

Para a inteligente e culta professora Camila Vasconcellos!

Salta aos olhos de qualquer analista inteligente que todos os grandes problemas brasileiros derivam, em última análise, de nosso deficiente e desigual sistema educacional, ruim do primário, passando pelo secundário, até o universitário, que tem na Universidade Federal da Bahia, de nossos dias, a expressão máxima de sua ostensiva mediocridade, amplamente assoalhada. À educação como o fator mais importante no desenvolvimento dos povos, na sociedade do conhecimento em que estamos vivendo, dedicamos a primeira e maior porção do nosso livro de 2015, As Sete Pragas do Brasil Moderno.

Do ponto de vista prático, mede-se a qualidade do ensino superior de um país pelo tamanho de sua presença no comércio internacional, ensejada pela competitividade que a agregação de tecnologia, oriunda de suas pesquisas, proporciona aos seus manufaturados. Com uma população que representa 3% da mundial, o Brasil contribui com, apenas, 2% das pesquisas realizadas pelo sistema universitário do Planeta, resultando numa modesta participação de magro 1% das transações comerciais globais. Para ficar na média, deveria ser o triplo da atual! O resultado é o que se vê: somos um dos países mais paradoxais, ao reunirmos atributos das sociedades mais adiantadas e aqueloutros das nações mais atrasadas, tanto do ponto de vista do saber, quanto das condições materiais de vida e do desenvolvimento espiritual, como se pode inferir dos elevados índices de violência e crueldade que exibimos. O IDH de nossas camadas sociais, aferidos por entidades internacionais, revela esse desequilíbrio.

Descarte-se de logo o argumento falacioso segundo o qual são poucos os recursos destinados à educação. A partir da Constituição de 1988, os recursos obrigatoriamente vinculados à educação são os maiores de nossa história. O calcanhar de Aquiles é a má gestão, como podemos ver pelo que acontece debaixo de nossos olhos, na Universidade Federal da Bahia, instituição que já foi modelo de eficiência no sistema universitário brasileiro, hoje figurando na parte de baixo do ranking, sendo ultrapassada, no Nordeste, pelas universidades do Ceará, Alagoas e Sergipe. Atenta à influência da qualidade do ensino no rendimento industrial, a CNI promoveu uma comparação com 14 países, escolhidos em razão de assemelhadas características socioeconômicas e competitividade no mercado internacional. O Brasil ficou em 13° lugar, em desempenho educacional, apesar de figurar com o 6° maior investimento na área, elencado a partir do percentual do PIB, o mesmo de Espanha e Coreia do Sul, comprovando a má qualidade da nossa gestão na aplicação dos recursos. As variáveis selecionadas foram custo de mão de obra e de capital, infraestrutura e logística, carga tributária, ambiente econômico, educação, tecnologia e inovação. Além do Brasil, os países foram, por ordem alfabética: África do Sul, Argentina, Austrália, Canadá, Chile, China, Colômbia, Coreia do Sul, Espanha, Índia, México, Polônia e Rússia. Relativamente à educação, três fatores foram considerados: grau de universalização da educação, qualidade de ensino e volume de recursos investidos.

Como acontece com as equipes de futebol de mau rendimento, a UFBA passou para a segunda divisão. A partir do momento em que tornarmos público o desempenho das universidades, a tendência natural é a da cessação dos abusos que condenam nossa futura elite intelectual, forjada num contexto de baixos padrões de eficiência, camuflados por palavras de ordem, em sintonia com a vanguarda do atraso, destinadas a despertar a solidariedade da patuleia ignara, vitimada pelo reflexo condicionado de aplaudir os seus algozes, numa versão coletivizada da síndrome de Estocolmo, patologia psicológica que leva as vítimas a amarem e aplaudirem os seus torturadores. O silêncio conivente dos dirigentes sobre o elevado índice de absenteísmo de alunos e professores é, apenas, a mais tangível das anomalias de nosso viciado sistema que tem usado o saudável princípio da autonomia universitária para acobertar e legitimar lamentáveis desvios de conduta que degradam a mais nobre das instituições das sociedades abertas. A essa conclusão chegaram acreditados pensadores de nossa realidade social, como citamos n´As Sete Pragas do Brasil Moderno. Observe-se que, como suas congêneres públicas, a Universidade Federal da Bahia usufrui da enorme vantagem de contar com os melhores alunos, em razão do pente fino para sua aprovação, e com os professores mais titulados, muitos deles com mestrados e doutorados obtidos nas mais conceituadas universidades brasileiras e do Primeiro Mundo.

Na próxima semana, falaremos da imperiosa necessidade de mudança no modo de escolha dos reitores.

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