Ponto de Vista: Vacina de vento

Por Cláudio Pimentel*


Tribuna da Bahia, Salvador
18/02/2021 22:10

   

O Brasil tornou-se uma nação de ofendidos. Não ao pé da letra, mas por motivos irreais. Nada com injustiça. Caprichos do ser humano, que acredita ser o centro do mundo. Tudo que discorde e gire na sua órbita, por mais fútil ou inútil, é provocação pessoal. Adora fazer-se de vítima. É dissimulado, seletivo. Certo e errado seguem a lógica do seu interesse. Mudam como as nuvens. Trocam de papéis. A desigualdade social deveria ser uma ofensa, clássica por tudo que significa e gera de ruim. Mas poucos se ofendem. Preferem-na. O fracasso de uns engrandece o sucesso de outros. Maktub.

Se, algum dia, a desigualdade social recebeu antídoto, foi da vacina de vento. O remédio não é novo. O nome do golpe, talvez, mas, na essência, sempre existiu. É passar a perna em quem não tem como se defender. E apareceu justamente contra os idosos, os mais frágeis. Sorte que alguém viu e denunciou. A população agora está filmando as aplicações. Vitória da reação sobre a ação espúria. A vacina de vento tem a idade do Brasil. Andava esquecida, mas a má gestão a resgatou. Por isso, mais de 250 mil mortos, descontrole sobre a pandemia e escassez de vacina.

Os ofendidos de hoje, de uma cepa pestífera, não estão nem aí. Além da pandemia, negam a política, a qual desrespeitam e abominam. São autoritários. Veem como normal 15 milhões de desempregados. Vibram com a energia de um deputado brutamontes, musculoso até o cérebro, fazendo a apologia de regimes ditatoriais, de exceção, em detrimento da democracia. Sua prisão é motivo de indignação para essa turma, que está ofendida com os rumos do BBB, da Globo; a ação do VAR, no Brasileirão; a proibição de eventos festivos; e a pressão para elucidar a morte de Marielle Franco. As redes sociais fervem.

Independente do regime político, gente inescrupulosa sempre existiu e existirá. Trata-se de deformação do ser humano, cuja origem nem vale investigar. É realidade. Está aí. Surgem de todos os lados. Um fato, porém, não há como negar: a proliferação em escala exponencial do discurso extremista de direita no país. O deputado brutamontes, um ogro de telequete fajuto, é exemplar. Rasgar com júbilo e violência a placa de Rua em homenagem a Marielle, como fez, filmou e distribuiu, merecia punição. Se isso tivessse ocorrido, não distribuiria depois “lives” desrespeitando e debochando do poder dos ministros do STF. Comete-se ilegalidades porque permite-se.

Não bastasse a ausência, a lentidão para punir quem desrespeita a lei abre precedentes para fenômenos como o “fura-fila” ou a “vacina de vento”. O primeiro parece ser praticado por “filhinhos de papai”; o segundo, por quem enxergou a possibilidade de engordar o orçamento do mês. São crimes. E a punição deveria ser exemplar, com distribuição de fotos e currículos dos condenados. Os “médicos” nomeados no Amazonas apenas para serem vacinados mereciam, além da prisão, a cassação dos diplomas. Não são médicos. Não salvam pacientes, matam. Como mataram suas reputações. Seus diplomas tornaram-se suspeitos. Médico sem caráter desonra a classe.

Desde o início da pandemia, o governo federal vem causando transtornos ao seu combate, confundindo a população. Jamais admitiu os riscos da doença. Minimizou. Quando fez algo, foi pelo caminho errado: prescreveu, sem autoridade, tratamentos preventivos à base de remédios ineficazes que ameaçam a vida. Estimulou a divulgação de mensagens negacionistas, condenando máscaras, isolamento e tudo que contribuísse para evitar contaminação. O presidente estimulou aglomerações. Com esse quadro, não duvidaria que simpatizantes, os “ofendidos”, estejam por trás das “vacinas de vento”. Imagine o pânico que poderia ter criado. Se é que não criou. Quantos idosos hoje temem ter sido ludibriados?

*Cláudio Pimentel é jornalista.

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