Desânimo contamina classe política em relação a Bolsonaro

Raul Monteiro


Tribuna da Bahia, Salvador
17/10/2019 09:16

   

São de susto, entre aqueles que o apóiam ou o apoiaram, e de desânimo, para os demais, os sentimentos da classe política em relação ao governo Jair Bolsonaro (PSL). Em 10 meses de gestão, apesar da ajuda de um Posto Ipiranga quase sem combustível e de colaboradores militares que agregou mais por isolamento pessoal do que efetivamente por opção, a gestão do capitão reformado não suscita mais nenhum tipo de esperança entre aqueles parlamentares que, por credulidade pura, achavam que, apesar da inexperiência e do despreparo, ele se tornara a única alternativa para ajudar a tirar o país da crise.

A sucessão de brigas protagonizadas pelo presidente e seus filhos, partidárias, ideológicas e políticas, locais, nacionais e internacionais, todas enviesadas pela cosmovisão paroquial do clã e, como disse recentemente importante cientista política, pela arrogância típica dos ignorantes, estão longe de serem encaradas como o principal problema por todos, embora aprofundem o clima de instabilidade, péssimo para a construção de pontes necessárias à superação dos inúmeros problemas da Nação, o principal deles uma economia que se arrasta, trazendo atrás de si milhares de desempregados e desalentados.

Para piorar, não há um só cristão no Congresso que acredite na tese de que a Polícia Federal agiu esta semana de forma imparcial, sem nenhum tipo de orientação, principalmente do ministro Sérgio Moro (Justiça), ao cumprir mandados de busca e apreensão na casa do presidente nacional do PSL, o deputado federal Antonio Bivar (PE), transformado no mais novo desafeto do presidente por causa da fatia milionária a que o partido tem direito do bilionário fundo partidário, o que só criou imensa a preocupação com os métodos que Bolsonaro pode utilizar contra todos aqueles que ousem enfrentá-lo.

As suspeitas foram turbinadas pelo fato de procedimentos muito mais amenos terem sido adotados com relação a outro membro do partido, por acaso o ministro do Turismo, Alvaro Antonio, que continua imexível, e um dos filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL), alvo de uma investigação suspensa pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, por suspeita de prática, quando deputado estadual no Rio de Janeiro, da famosa rachadinha, prática pela qual o titular do mandato fica com o total ou parte dos salários dos assessores que contrata em seu gabinete.

O único lenitivo que poderia minorar um pouco a expectativa, compartilhada por muitos, de que, se concluir seu mandato, o presidente se arrastará até o final envolto e envolvendo o país em mais crises, seria um processo de ativação da economia que animasse a todos, o que parece um sonho cada vez mais distante. Em parte, porque o ministro Paulo Guedes, da Economia, já mostrou que não é do riscado, mas, pelo visto, inconsciente de suas próprias limitações, não consegue reconhecer que, sozinho do jeito que sempre foi, dificilmente vai colocar o país acima de tudo.

* Raul Monteiro é editor da coluna Raio Laser e do site Política Livre e escreve neste espaço às quintas-feiras.


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