Artigo: Afinal, quem fez a assessoria paralela de Bolsonaro para a pandemia?

Raul Monteiro*


Tribuna da Bahia, Salvador
06/05/2021 00:06

   

Em que pese a alegação feita por alguns senadores de que a CPI da Covid tende a não apresentar nada de inédito - ou nada de que a sociedade brasileira e o mundo não sabiam - sobre a conduta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na pandemia, o fato de as decisões ou omissões do governo começarem a ser analisadas em retrospecto, longe do calor do momento em que foram ou deixaram de ser tomadas, naturalmente produzirá desgaste para ele. Decidissem os senadores que questionaram ontem Nelson Teich e, anteontem, Luiz Henrique Mandetta, se preparar melhor para inquirí-los e os estragos poderiam ter sido ainda maiores no governo.

Os ex-ministros da Saúde enriqueceram a percepção de que tudo o que o governo tentou patrocinar sob as suas gestões, ambas interrompidas de maneira abrupta e em momentos decisivos para que o enfrentamento da pandemia pudesse ter se dado de uma maneira mais adequada, não passou por qualquer critério de preocupação em relação às consequências da disrupção sobre a população. O resultado a que se chegou em termos de mortos e sequelados pela doença tratada desde o princípio pelo presidente como uma 'gripezinha' que não atingiria pessoas de perfil atlético como o seu ainda está para ser catastroficamente atualizado.

Político, Mandetta deu o principal recado ao deixar claro ter percebido que o presidente possuía outras fontes de assessoramento, que divergiam do que ele, como médico, que se baseava pelas recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), pensava sobre a pandemia. Foi o mesmo que dizer que as opções feitas por Bolsonaro no curso da elevação do aumento de casos e da perspectiva, sob uma análise técnica e científica, de que o número de óbitos se elevaria para alcançar o patamar vexatório a que está chegando faziam, surpreendentemente, sentido para determinados objetivos que ainda não puderam ser elucidados.

A partir dos dados fornecidos pelo ex-ministro alguns senadores chegaram a levantar a hipótese de que o propósito era levar a um processo de imunização de rebanho por meio da contaminação natural pelo vírus para que o governo economizasse na aquisição de vacinas para a população, o que, se provado, pode levar à conclusão de que se praticou um verdadeiro crime contra a sociedade. Simplesmente, porque, como a própra Covid-19 está mostrando com as variantes "de Manaus" e do "Reino Unido", entre muitas outras mundo afora, muito mais agressivas, o objetivo de imunidade de rebanho é inalcançável com vírus que entram em mutação.

Nelson Teich, que ficou menos de um mês no cargo, revelou que pediu demissão porque se negou a aceitar a prescrição de cloroquina como forma de tratamento para a doença e por perceber que não teria autonomia para atuar. Não precisava dizer muito, mesmo porque, logo após ele, assumiu a pasta o general Eduardo Pazuello, que muitos passaram a chamar jocosamente de 'pesadelo' por causa dos números e dos erros que se produziram sob sua gestão na Saúde. A provar que ainda não sabe como poderá se defender nem ao presidente, a quem seguiu cegamente, Pazuello alegou que não podia comparecer à CPI no dia marcado por ter tido contato com duas pessoas contaminadas pela Covid.

* Raul Monteiro é editor da coluna Raio Laser e do site Política Livre e escreve neste espaço às quintas-feiras.

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