Ponto de vista: No campo das ideias, Política e Economia se interrelacionam 

Por Raymundo Pinto*


Tribuna da Bahia, Salvador
18/01/2022 20:44

   

No artigo anterior, publicado aqui na Tribuna (5/1º/22), procurei fixar alguns conceitos básicos para distinguir “Direita” e “Esquerda” no plano ideológico. Os leitores perceberam que, quase sempre, houve necessidade de invocar fatos e ideias políticos e econômicos. Agora, nesta oportunidade, vou tentar fazer breves comentários sobre como os dois ramos citados do conhecimento humano exercem recíproca influência entre si. Basta lembrar que os estudos a respeito de “democracia” lideram os assuntos ligados à Política, sendo consensual que seria o regime político – até por causa da origem da palavra – em que o poder pertence ao povo, que o exerce por meio de eleições livres para escolha dos dirigentes. Onde a Economia entra aí? É que candidatos e partidos normalmente têm de dispender elevados recursos financeiros nas campanhas, podendo os mais ricos exercerem influências maiores na conquista de eleitores.  Vou tentar, em linhas a seguir, explorar outros aspetos ligados ao tema. 

No caso da Economia, constitui assunto dominante a discussão em torno da maior ou menor interferência do Estado no domínio dos negócios. Desde que vários países se uniram para formar a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o mundo se dividiu em dois grandes blocos, dando origem à denominada “Guerra Fria”, permanecendo o Ocidente, sob a liderança dos Estados Unidos, contando com Nações do oeste da Europa, enquanto o Oriente incluiu parte da Europa, a China e países da Ásia, sendo liderado pela URSS. O bloco ocidental faz a defesa fervorosa do “Capitalismo” (que costuma disfarçar e chamar de “livre iniciativa”). O outro grupo não fica atrás e prega, com bastante ênfase, na economia, o controle estatal dos meios de produção, sob a denominação de “regime socialista”, que evoluiria, numa segunda etapa, para o “comunismo”. 

A situação internacional, apesar das ameaças em virtude do avanço e sofisticação dos armamentos de guerra, permaneceu em certo equilíbrio, graças à evidência de que um conflito em escala mundial poderia destruir a possibilidade da própria sobrevivência da humanidade na superfície do nosso planeta. Em meio a todas essas incertezas e ameaças, as várias Nações optaram por manter um volume expressivo de negócios – exportação e importação – provando, uma vez mais, que a Economia tem o poder de superar graves e perigosas desavenças em torno das ideias.  

No final do século XX, dois fatos históricos foram bem marcantes: a. a queda do Muro de Berlim, que provocou a reunificação da Alemanha, sendo extinta a banda socialista; e b. o desmoronamento da URSS, havendo uma corrida dos países que antes a compunham para aderir, por incrível que pareça, ao ...”capitalismo”. De novo, as circunstâncias econômicas – fracasso da experiência do domínio estatal – interferiram na ideologia.  

Aqui no Brasil, por último fala-se muito na possibilidade do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, vir a integrar, como vice, a chapa de Lula para presidente da República. Note-se que os debates que se formam levantam sempre a divergência ideológica que os distancia. O paulista tem apoio claro de empresas e empresários que tendem a assumir posições mais conservadoras. Não é o caso do ex-torneiro mecânico, que nunca escondeu sua nítida opção pela esquerda e sua ligação íntima como PT, igualmente esquerdista. Além disso, o presidente Bolsonaro é o adversário a ser enfrentado no segundo turno da eleição deste ano e que tem a seu favor – até por questões fanáticas – forte contingente da denominada “direita” e também pode usar politicamente verbas públicas por estar na cúpula do poder. 

Em suma, pelos poucos argumentos que usamos nas linhas que antecedem, parece-me que foram suficientes para mostrar aos leitores que Política e Economia se entrelaçam de tal forma que é difícil, senão impossível, analisar os aspectos de uma sem invocar a outra. Como a próxima eleição será ainda em outubro deste ano, entendo que o eleitor terá tempo (nove meses) para pensar e meditar muito sobre os candidatos em que irá votar (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual). Na análise que fará, recomendo nunca deixar de levar em conta que a análise profunda das circunstâncias políticas e econômicas são essenciais à boa escolha. 

*Raymundo Pinto, desembargador aposentado do TRT, é escritor, membro da Academia de Letras Jurídicas da Bahia e da Academia Feirense de Letras. racpinto1@gmail.com.  

          

 

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