Renúncia já de Bolsonaro seria prova de que Deus é mesmo brasileiro

Por Raul Monteiro*


Tribuna da Bahia, Salvador
22/09/2021 23:13

   

O novo vexame da segunda passagem de Jair Bolsonaro pela Assembleia Geral da ONU, com seu discurso engraçado e tudo, além do episódio do ministro da Saúde que, tão decepcionante quanto o anterior, foi diagnosticado com Covid depois de ter feito vexatoriamente gestos obscenos para manifestantes contrários ao presidente em Nova Iorque, foi tamanho que ontem já pipocavam notícias na imprensa de que o ultrafisiológico e emendeiro centrão, esteio de um governo que se auto-proclama o mais honesto da história da República, já trabalha com a ideia de que o atual mandatário deve recuar da disputa à reeleição em 2022.

Assim, ao invés de insistir em contestar as eleições no caso cada vez mais provável de perdê-las, como também já previsto pelas principais raposas felpudas do centrão, esse agrupamento de políticos devotados ao interesse pessoal acima de tudo, sobretudo da pátria, do povo, de Deus, da Bíblia e da bala, o presidente escolheria outro candidato para apoiar, escapando de uma derrota vergonhosa. A contrapartida, no entanto, é o mais importante. Antes, sob a promessa de livrar o país dele, o chefe da Nação tentaria garantir apoio para se defender de processos na Justiça contra si e os filhos, considerados inevitáveis quando deixar o Palácio do Planalto.

Como lembrou ontem a colunista de um importante veículo de comunicação do país, não teria sido por acaso que Bolsonaro mencionou, literalmente, a hipótese de resistir à própria prisão no discurso clássico do golpismo feito por ocasião do 7 de Setembro último passado. Apesar das piadinhas de tiozão inconveniente e da ironia ou desvario com que trata tudo aquilo que diz respeito ao mundo adulto, o presidente dorme e acorda pensando que pode, junto com sua família-política, ser alvo de inúmeros processos quando deixar o poder, responsável pela bajulação dos aproveitadores que colocou em sua administração.

Mas o próprio Bolsonaro poderia dar uma notícia melhor ao país, antecipando-se às previsões sempre certeiras dos oportunistas do centrão: renunciar imediatamente, reconhecendo que seu tempo expirou em meio aos últimos suspiros de uma pandemia que insistiu em negar, a ponto de sequer ter tomado a vacina, como o mundo inteiro soube boquiaberto no seu divertido encontro - sobretudo para as TVs internacionais - com o premiê britânico Boris Johnson, e a uma crise econômica e inflacionária, que, diferentemente do que tenta sustentar, não foi provocada exclusivamente pela Covid, impulsionadas ainda por cima por uma baixa hídrica que deve piorá-las.

Não se sabe por quais elementos, além da família, Bolsonaro tem apreço, mas, sem dúvida, seguramente não é pela Presidência da República. Conta a este colunista um importante deputado federal baiano que participou, não faz muito, de um encontro em que, na presença de outros colegas da base, o presidente disse que preferia estar no lugar deles - no Parlamento. Seu desgoverno não nega, motivo mais do que suficiente para que, pelo bem do país, ele o deixe para alguém mais preparado, como o general Hamilton Mourão, capaz de conduzir a Nação a uma transição que lhe permita superar o quanto antes mais um angustiante capítulo de sua história.

* Raul Monteiro é editor da coluna Raio Laser e do site Política Livre e escreve neste espaço às quintas-feiras.

Compartilhe       

 





 

Mais de Raul Monteiro