Tinha de ser no Brasil. Guerra de vacinas e vírus da Covid transmitido pelas formigas

Por Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
29/03/2021 22:24

   

Definitivamente, o Brasil precisa ser reinventado. Recolham a esquadra de Cabral e dêem espaço a alguém mais feliz para chegar pela primeira vez a nossa costa, dando início a civilização nesse pedaço de terra, um quase continente. Senão vejamos como foram os últimos dias.

Primeiro uma coletiva do governador de São Paulo e do presidente do Instituto Butantan para anunciar a primeira vacina 100% brasileira, a Butanvac. Uma hora depois, e o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, já pilotava também um anúncio alvissareiro, de outra vacina 100% brasileira, desenvolvida numa Universidade paulista e que o governo federal solicitou à Anvisa, na véspera, a autorização para testes em humanos.

Chegou tão corrida que sequer tinha nome, mas a internet logo tratou de apelidá-la, termo que rapidinho foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter. 

Um dia para entrar para a história. E enquanto comemorava as agradáveis surpresas, as histórias iam se clareando. A vacina acenada com invulgar entusiasmo pelo governador de São Paulo como 100% nacional tem realmente sua embalagem numa caixinha de papelão 100% tupiniquim. Quanto ao conteúdo é fruto de uma parceria com o Instituto Moint Sinai, de Nova York, que a desenvolveu, e seus testes feitos em parceria com mais 3 países.

Fato é que com o vazamento da parceria, o governador paulista ficou com a cara mexendo, até porque o que menos se quer nesse momento é uma disputa política pelo líquido salvador. Ontem Dória reapareceu jurando que não sabia da parceria e tanto eu quanto você fingimos que acreditamos, ta!

Bom, da vacina do ministro astronauta, afora o nome para batizá-la no ato do lançamento, faltou dizer que mesmo que a Anvisa faça horas extras, dificilmente ela estará em condições de uso este ano. Na melhor das previsões, janeiro de 2022, ou seja, quando desgraçadamente já deveremos ter passado dos 500 mil mortos.

Mas este fim de semana tinha mais e neste Brasil cabe tudo. Uma declaração do ministro Onix Lorenzoni era o que faltava. Veterinário por formação e secretário-geral da Presidência, Onyx resolveu disparar contra o lockdown e de uma forma que causou perplexidade.

Como se a colocar mais uma pitada de terror nesse drama em que estamos mergulhados, tentando escapar de um vírus perverso e cruel, Onyx resolveu se valer da condição de veterinário, como se isso lhe desse a condição de renomado cientista, para difundir uma teoria mais que absurda, diria assustadora, de que o vírus circula entre animais, como passarinhos, cães ou até mesmo pulgas e formigas.

Juro que ele falou isso mesmo: "Eu considero todos eles (que defendem o distanciamento social) muito tolos. Por que? Porque não são inteligentes. Muitos ainda insistem numa ferramenta chamada lockdown, que já está provada em várias experiências no mundo que é ineficiente. E por que ela é ineficiente? Alguém consegue impedir nas áreas urbanas que o passarinho, o cão de rua, o gato, o rato, a pulga, a formiga, o inseto se locomova? Alguém consegue fazer o lockdown dos insetos? É óbvio que não. E todos eles transportam o vírus. Não são contaminados pelo vírus, mas podem transportar o vírus. É uma possibilidade."

Era o que faltava. Então com base na teoria do ministro veterinário, a formiga pode transmitir o vírus. Então vou hoje mesmo providenciar máscara para cada uma delas que teimam em saquear meu açucareiro. Pronto!

Como se não bastasse, pesco no site do Valor Invest que muitas das famílias de nossos leitores e amigos que partiram para o andar de cima por conta da Covid têm contas a acertar com o Leão.

É isso mesmo. Morreu, mas segue devendo. Familiares que perderam pessoas no ano passado, por Covid-19 ou por outro motivo, tratem de enxugar as lágrimas porque precisam declarar o Imposto de Renda dos contribuintes mortos e o prazo para entregar a declaração vai até 30 de abril.

Olha, chega, viu. 

*Paulo Roberto Sampaio é diretor de Redação da Tribuna e escreve neste espaço às terças-feiras.


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