Um conceito em crise

Por Carlos Roberto Santos Araujo*


Tribuna da Bahia, Salvador
12/04/2021 21:20

   

Sintoma evidente da decomposição social dos nossos tempos é a hipocrisia estimulada, aplaudida, proclamada, estilo de vida consistente em administração de atos cotidianos. O malandro não mais se dá ao cuidado de furtar, no silêncio da noite, saltando muros românticos ao luar. Não. Ele rouba à luz do dia, sorrindo... A metáfora do ladrão, não o bom, que sonhara o Paraíso, mas o próprio, destinado aos Infernos, se aplica a muitos que exercitam múltiplas formas de participação social. Pois todos escondem as cartas e... mentem. Desesperadamente, diria o poeta. E ninguém protesta, pois tais mentiras são sustentadas por alguma forma de poder, de maneira que a falta de honestidade é compensada pela total ausência de sua procura.

Bem sabemos que a mentira e a perfídia são elementos indispensáveis a certas formas de atividade humana, sobretudo aquelas ligadas ao jogo do poder. Segundo Hegel, as coisas só andam pelo mau, o que torna o demônio personagem de primeira ordem na trama da vida humana, ironia da Historia. Como entender a política abstraindo Maquiavel e Macbeth? Até aí, tudo bem. O diabo é quando aquele cavalheiro de orelhas e cavanhaque pontiagudos, cansado de rodear a Terra e passear por ela, mete-se em outros setores da vida, sobretudo os compromissados com a libertação dos espíritos, quando a mentira, ou seja, a afirmação sustentada por interesses personalíssimos e inconfessáveis, começa a invadir as ciências, as artes, os juízos de valor. Atenho-me nesse particular à total ausência de responsabilidade que invadiu os juízos de valor no campo do conhecimento humanístico, especificamente no setor da critica literária, no Brasil. Não se lê nos jornais, nas revistas especializadas, um exame crítico literário desprovido de interesse promocional ou publicitário como se tal atividade sucumbisse aos interesses do mercado editorial, se transformasse em mero exercício de mercadologia cuja finalidade consiste em considerar o quadragésimo livro do escritor fulano de tal um dos sete trabalhos de Hércules, oitava maravilha do universo, verdadeira pirâmide do Egito, de cujo alto quarenta séculos nos contemplam. E os jornais propagam estas imposturas que, diga-se de passagem, o público aceita docilmente. As manifestações críticas se reduzem a trocas de elogios, pois o crítico de hoje pode ser a vítima de amanhã, e, por via das dúvidas, livrai-nos Deus de todo mal, amém. E tome elogio, e tome mentira, pois tal critica é formulada pelo contista travestido de crítico literário que aposta suas palavras na esperança do retorno acompanhado dos respectivos dividendos. Eu te elogio, tu me elogias, nós nos elogiamos, e assim elevamos aos céus novelas que não valem um caracol, versos que não merecem um figo seco, contos que não pagam uma banana podre.

Podre, sim, existe algo de podre no reino da Dinamarca. O que falta a estas pessoas é um pouco de pudor, cuja míngua manifesta desprezo pela obra literária e pelo público. Critica é julgamento e julgamento não se vende, não se oferece, não se empresta. As leis do mercado, da ascensão social não podem interferir, jamais, na dignidade da obra literária. Na Bahia, onde prosadores proliferam como cogumelos, poetas pululam como sapos no brejo, onde só se publicam obras- primas, onde todos são inapelavelmente maravilhosos, não caberia ao escritor respeitar a nobreza da sua arte sob pena de exacerbar a degradação do próprio ofício, na medida em que se torne o camelô das suas bugigangas? Não caberia ao crítico a defesa de um espaço de pensamento livre, sem concessões, sem contemporizações? Acariciar subjetividades maltratadas ou repelir sem pedantismos nem jogos de cinturas, a desonestidade intelectual, a mistificação, a farsa, o blefe, a prostituição dos espíritos?

*Carlos Roberto Santos Araujo


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