Valeu a pena Roma romper com ACM Neto?

Por Rodrigo Daniel Silva*


Tribuna da Bahia, Salvador
15/02/2021 21:44

   

A pergunta do título foi feita ontem entre os aliados do ex-prefeito e do agora ministro da Cidadania. Depois de 20 anos de amizade pessoal e política, os dois romperam na última sexta-feira após João Roma aceitar ser ministro da Cidadania. ACM Neto era contra para não dar força ao argumento de Rodrigo Maia de que trocou votos na disputa da Câmara dos Deputados por cargos na administração federal. Também era contrário para não atrelar a sua imagem ao desgastado governo de Jair Bolsonaro. Em Salvador, principal base eleitoral de ACM Neto, apenas 18% dos eleitores aprovam o capitão reformado. É a capital brasileira onde tem a menor aprovação.

Se quiser conquistar o governo da Bahia, Neto sabe que precisa vencer e vencer bem em Salvador. Diante disto, a avaliação é de que, para ele, seria um “suicídio político” uma aproximação com Bolsonaro. Mas, e para Roma? O novo ministro terá apenas 1 ano e dois meses no cargo, já que em abril de 2022 terá que se descompatibilizar se for disputar a eleição. Os 14 meses serão suficientes para ter um bom desempenho? Só o tempo nos dirá.  

Além do exíguo tempo, Roma terá que lidar com os arroubos autoritários e a vaidade de Bolsonaro, que jamais aceitou qualquer ministro com destaque na imprensa. Foi o caso de Luiz Henrique Mandetta na Saúde, e Sérgio Moro na Justiça. Ambos foram humilhados publicamente após terem mais visibilidade na mídia do que o presidente da República. Tereza Cristina e Tarcísio Gomes ensinam que, se quiser ter vida longa na Esplanada dos Ministérios, é preciso ter um perfil discreto na gestão e jamais afrontar o chefe do Palácio do Planalto. As críticas ao mandatário da República, que Roma fazia, terão que ser colocadas debaixo do tapete, e ele terá que estar disposto a escudar o governo sempre que virar alvo da artilharia da oposição, já que se tornará o principal representante de Bolsonaro no estado.

Se não acertar os ponteiros do relógio, Roma ficará pouquíssimo tempo à frente do ministério e será muito provavelmente o fim da sua carreira política. Sem cargos e sem recursos federais, não terá força para conquistar novos aliados e será morto por seu ex-padrinho político, que já determinou a invasão das bases eleitorais do deputado do Republicanos. A decisão de Roma pôs a liderança política de ACM Neto novamente em xeque. E, mais uma vez, Bolsonaro foi o estopim da traição. Na campanha de 2018, o candidato do DEM ao governo da Bahia, José Ronaldo, declarou apoio ao capitão reformado, mesmo com a orientação de Neto para dar sustentação a Geraldo Alckmin.

Na época, o então prefeito soteropolitano disse que perdoou Zé Ronaldo. “Existem coisas na política que são imperdoáveis. Existem outras que são superáveis. Essa não está entre as imperdoáveis”, disse na época. A relação entre eles, no entanto, nunca mais voltou a ser como era antes. Um conselho machadiano já dizia que, em política, não se perdoa nem se esquece nada. Desta vez, a desobediência a ACM Neto foi de um “liderado da cozinha”, que virou independente e abriu a porta para que os outros soldados tenham a mesma postura. Resta saber se a deslealdade de Roma está na cartilha dos erros perdoáveis ou imperdoáveis.

*Jornalista. É repórter da Tribuna. Twitter: @rodansilva

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