Paulo Roberto Sampaio

Até onde vai o radicalismo

Tribuna da Bahia, Salvador
04/06/2019 13:00 | Atualizado há 30 dias, 22 horas e 13 minutos

   

Em ampla matéria publicada pelo jornal O Globo e repicada pela Tribuna, em nossa edição de ontem, pudemos ter um raio X do que pensam as figuras mais moderadas desse campo político e desse Brasil continental: os generais que transitam em torno do poder.

Militares qualificados, que sempre tiveram os rigores da rotina da caserna como dogma, foram convocados para ajudar a por ordem na casa, mas jamais imaginando que teriam de recorrer a suas patentes ou a retirar as armas do coldre para tal.

A formação militar moderna lhes ensinou que o radicalismo não leva a nada e o diálogo ainda é o melhor caminho e deve ser perseguido ao extremo, até serem esgotadas todas as tentativas do entendimento. Falam quase que uníssono a mesma linguagem e, por incrível que pareça, são os maiores guardiões de nossa democracia.

A farda é usada como sinal de alerta, as estrelas no ombro para referendar uma história de serviço à pátria, mas as armas estão bem guardadas e a firmeza com que se posicionam quando convocados a opinar ou agir diante de situações nervosas, diria, parece temperada com uma finura, elegância, respeito, algo que esperam sempre ter de volta.

Cito o exemplo dos generais para chegar aos bolsonaristas de carteirinha, aqueles que parecem  querer transformar o poder alcançado pelo mito numa arma aniquiladora de adversários, dedicando-se a maior parte do tempo a fustigá-los, sem trégua.

As redes sociais são o terreno mais propício para essas provocações e ataques e não há dia que não pipoquem estocadas em A ou B. Essa semana mesmo testemunhei, muito triste, espetadas direcionadas ao poeta, escritor, compositor e cantor Chico Buarque de Holanda, um dos nomes mais brilhantes da cultura brasileira, premiado internacionalmente com as maiores láureas que um artista brasileiro já conquistou. 

E ainda assim desmerecido por suas posições políticas, provocado, ofendido, fustigado, como se sua história não contasse.

Bolsonaro tem procurado acertar e, afinal, neste fim de semana, começou a descobrir que ele também tem de se ajudar. Gerar uma pauta positiva. Fazer um afago na classe média. Ver o que ela realmente anseia e posso assegurar que não é ter uma arma na mão.

Ao conseguir reduzir o preço da gasolina nas refinarias marcou um belo tento. Agora mesmo está com a bola na marca do pênalti para fazer um gol de letra, acabando com a nefasta cobrança de  uma primeira bagagem despachada nos voos nacionais, mas pelo amor de Deus, senhor presidente,  não dê um chutão daqueles de zagueiro de várzea a isolar a pelota, jogando no mato. 

Vetar o que o Congresso já aprovou, proibindo a abusiva e escorchante cobrança, e cair na lábia de meia dúzia de lobistas de que as companhias internacionais só viriam para o Brasil se as bagagens fossem pagas é tão estúpido que nem merece comentário. E pergunto: por que esse grupo tão ativo nas redes sociais não se mobiliza para impedir que o Presidente não bata esse pênalti para fora?

Bastaria que Bolsonaro disparasse: pois que venham as aéreas e aqui instaladas o próprio Planalto mandaria uma proposta ao Congresso de cobrança dessas bagagens, desde que um voo de Salvador ao Rio ou a São Paulo voltasse para a faixa de 300 reais, como até bem pouco.

Recentemente esse mesmo grupo de visão radical saiu a criticar o governador da Bahia, Rui Costa, por se posicionar como ferrenho defensor dos consórcios regionais, - um deles, na área de segurança, preocupação maior do estado e da região - forma de unir os estados, reduzindo custos, gerando força para as reivindicações e tentando viabilizar suas gestões.

Hoje espalhados por todo o país, com alguns estados sendo disputados por até três desses consórcios, como é o caso do Maranhão, pretendido pelo da região Norte, pelo Centro Oeste e o Nordeste, mostram sua importância, desde o aparelhamento do organismo policial no combate ao crime, às compras em larga escala e na pressão ao governo federal em defesa de toda uma região.

Que os radicais de plantão que só enxergam alguns palmos à frente e dispensam olhar para o lado entendam que para o presidente Jair Bolsonaro governar esse Brasil continente terá de conviver com o contraditório, próprio do processo democrático, afinal essa é uma pátria de todos. 

País que abriga e sonha ser uma pátria igual, coesa a aprovar reformas tão importantes como a da Previdência, a fiscal e tantas outras que estão pelo caminho. Para tanto este Brasil precisa estar unido e menos conflituoso. O radicalismo não leva à nada, que o digam nossos ilustres e ponderados generais.


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