Crivella mandou recolher livros LGBT de olho na eleição de 2020

Prefeito do Rio busca dar tom mais ideológico do que administrativo à disputa pela reeleição, dizem políticos e analistas


Tribuna da Bahia, Salvador
10/09/2019 08:40 | Atualizado há 8 dias, 15 horas e 18 minutos

   
Foto: Reprodução

Com um governo sem marca e com problemas de gestão e popularidade, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), se movimenta para dar tom mais ideológico que administrativo à disputa pela reeleição de 2020. A ordem que deu para recolhimento de livros com conteúdo LGBT na Bienal Internacional do Livro, considerada censura por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), fez parte dessa estratégia, segundo políticos e analistas. Para esses observadores, Crivella tenta, com o gesto, se reafirmar como o principal candidato conservador da cidade, mesmo após a onda bolsonarista que varreu o Estado em 2018. O PSL do presidente Jair Bolsonaro ainda não se definiu no processo de escolha do candidato à Prefeitura. 

Apesar de o combate ao conteúdo homoafetivo, alvo da ação de Crivella, ser um tema caro ao bolsonarismo, os dois políticos cotados para representar o PSL na eleição, deputados Rodrigo Amorim (estadual) e Hélio Lopes (federal), não se manifestaram sobre o assunto nas redes sociais. Há um entendimento, nos bastidores da direita carioca, de que Crivella exagerou ao mandar recolher livros em vez de apenas fazer uma crítica mais genérica ao conteúdo. De qualquer forma, criou um impasse. Se alguém apoiasse a medida, colaria sua imagem a um prefeito impopular; se a repudiasse, seria visto como “esquerdista” pelos bolsonaristas mais radicais. 

A aposta no discurso conservador e o uso das máquinas pública e evangélica são vistos por personagens do meio político e analistas como os caminhos para Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, ter alguma chance em 2020.  Na última grande pesquisa de opinião sobre a prefeitura, feita pelo Datafolha em março de 2018, ele foi reprovado por 58% e aprovado por 10%. O levantamento foi realizado antes das chuvas que deixaram dez mortos na cidade no início de 2019 e desgastaram ainda mais o prefeito. Um opositor classifica a ação na Bienal como um “pedido de socorro” que tenta pegar carona na onda conservadora.  O movimento em direção à direita, com ênfase na agenda de base religiosa, contrasta com a postura de Crivella em 2016. Naquela eleição, o então candidato do PRB teve como prioridade apagar a imagem de fundamentalista. 

Em tom conciliador, aproximou-se até de personalidades do samba, do qual agora se distancia. No cargo, primeiro, Crivella reduziu a subvenção financeira para as escolas de samba do Grupo Especial. Recentemente, anunciou o corte total do auxílio, alegando que o desfile, parte do principal evento turístico do Rio, o Carnaval, vende ingressos. O auxílio oficial agora irá para os desfiles abertos (sem cobrança de entrada) e para o carnaval de rua. Também passou a veicular na mídia anúncio em que a Prefeitura diz que o dinheiro economizado irá para refeições aos sábados para alunos da rede municipal.  Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, o prefeito, ao ordenar a ação na Bienal, extrapolou no método e pode até ter se prejudicado ainda mais. 

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