Estudo inédito apresenta o "Raio X da surdez no Brasil"

Levantamento do Instituto Locomotiva, em parceria com a Semana da Acessibilidade Surda, aponta que apenas 37% dos surdos estão no mercado de trabalho, mas, ainda assim, movimentam R$ 576 bilhões por ano


Tribuna da Bahia, Salvador
07/10/2019 17:01 | Atualizado há 15 dias, 23 horas e 5 minutos

   
Foto: Divulgação

O Brasil tem 10,7 milhões de deficientes auditivos, e muitos desafios a enfrentar. Segundo levantamento inédito sobre o panorama das pessoas com deficiência auditiva no Brasil, realizado pelo Instituto Locomotiva em parceria com a Semana da Acessibilidade Surda (SAS), projeto idealizado pela jornalista Millena Machado, os brasileiros com deficiência auditiva têm metade do acesso ao ensino superior e quatro vezes mais ausência de escolaridade.

A deficiência auditiva atinge homens e mulheres, de todas as idades, especialmente os idosos, e com o rápido envelhecimento da população - a expectativa de vida vai superar os 81 anos até 2050 -, o tema da deficiência auditiva se tornará cada vez mais urgente. No entanto, apesar da incidência crescer com a idade, grande parte convive com a deficiência desde jovem - 9% das pessoas com deficiência auditiva nasceram com a deficiência; 91% adquiriram ao longo da vida; das pessoas que adquiriram a deficiência auditiva, metade foi antes dos 50 anos; 1/3 desenvolveu a deficiência antes dos 34 anos; 7% dizem frequentar algum tipo de serviço de reabilitação e só 13% afirmam utilizar aparelho para auxiliar na audição. Um outro dado relevante aponta que, das pessoas com deficiência auditiva, 28% declaram ter também algum tipo de deficiência visual e 2%, deficiência intelectual.

O cotidiano das pessoas com deficiência auditiva

De acordo com a pesquisa, 2 em cada 3 brasileiros com deficiência auditiva afirmam ter dificuldade com alguma atividade cotidiana, impactando na vida social.

- Não poder me comunicar com minha família é uma das coisas mais negativas. Como eles não sabem libras, tentam fazer mímica, gestos ou então inventam uma linguagem própria para falar comigo. Por causa disso, eles não conhecem meu verdadeiro eu até hoje - revelou um dos entrevistados.

Nesse radar, 14% dos brasileiros com problemas auditivos afirmam não se sentir à vontade e poder falar sobre quase tudo com a família, 40% sentem isso em relação aos amigos, contra 11% e 34% da população de forma geral, respectivamente.

Em se tratando da saúde, os deficientes auditivos são menos otimistas do que o restante dos brasileiros - 14% dos deficientes auditivos afirmam ter deixado de realizar alguma atividade habitual nas últimas semanas por motivo de saúde e entre aqueles com deficiência severa, esse percentual atingiu 20%, o que significa dizer que as pessoas com deficiência auditiva severa têm três vezes mais chance de sofrerem discriminação em serviços de saúde.

A falta de acolhimento e inclusão limitam também o acesso dos surdos às oportunidades básicas, como educação - 7% possuem o ensino superior completo; 15% frequentaram até o ensino médio, 46% até o fundamental e 32% não possuem grau de instrução.

No que se refere ao trabalho, os surdos também encontram barreiras. Apenas 37% estão no mercado de trabalho e mesmo aqueles que estão no mercado de trabalho dependem mais de atividades autônomas.

Sobre as ocupações exercidas pelos surdos, o levantamento diz que 43% são empregados do setor privado, 37% trabalham por conta própria, 9% são empregados do setor público, 4% são trabalhadores domésticos, 3% são empregadores, 3% exercem trabalho familiar não remunerado, 2% são militares no exército, marinha, aeronáutica, polícia ou corpo de bombeiros.

Diante dos dados, constata-se que as pessoas com deficiência auditiva ainda têm menos acesso à educação e ao trabalho. Também enfrentam barreiras e preconceitos até em suas atividades mais cotidianas. É um desafio que vai crescer com o envelhecimento da população. Torna-se urgente que o país se prepare para acolher as pessoas com deficiência auditiva.

Apesar de todas essas barreiras, os brasileiros com deficiência auditiva movimentam por ano R$ 576,6 bilhões em renda própria (rendimento provenientes de todas as fontes, incluindo trabalhos, aposentadorias, e outras fontes de rendimento).

No mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) são 500 milhões de surdos e até 2050 haverá pelo menos 1 bilhão surdos no mundo. Não é à toa que a OMS colocou a surdez como um dos 5 pilares para se trabalhar mundialmente no século XXI. Entre as 345 ocorrências de saúde monitoradas pela OMS que mais impactam na qualidade de vida, de décimo lugar, em 2015, a perda auditiva passou para quarto lugar em 2019. A humanidade está mudando radicalmente seus hábitos individuais e se expondo mais a ruídos: fones de ouvido, viagens de avião, frequência em shows de música, descolamento em trânsito ruidoso com veículos compartilhados abertos (patinete, bicicleta, etc).

Sobre a Semana da Acessibilidade Surda  

A Semana da Acessibilidade Surda visa promover a inclusão social dos surdos, além de conscientizar e mobilizar a população ouvinte sobre a recorrência da surdez. A 2ª edição do evento aconteceu de 20 a 30 de setembro em diversos pontos na cidade de São Paulo com ações abertas ao público ligadas à saúde auditiva, conscientização da sociedade ouvinte, diminuição do preconceito contra os surdos que usam aparelho auditivo, que falam por Libras e que têm uma cultura própria, além de gerar visibilidade para a questão do desemprego entre as pessoas com deficiência auditiva e incentivar o aumento da oferta de emprego para pessoas aptas ao trabalho no Brasil que têm a chamada "deficiência invisível".

A ideia de criar a ação foi da jornalista Millena Machado, após ver as dificuldades pessoais e profissionais que uma prima ainda passa por ter ficado surda após sequelas de uma meningite.

A SAS contou com o patrocínio e apoio de marcas de peso, como Hospital Paulista (patrocínio master), Phonak (patrocínio gold), Helpvox (patrocínio silver), McDonald, Nutty Bavarian, Brechó Agora é Meu, Car Shopper BR, CNA, DryWash, Rei do Mate, Sorridents e Le Postiche (patrocínio bronze). Prefeitura de São Paulo, Governo do Estado de São Paulo, Paramount Films, Unibes Cultural, Wework/InovaBra, Mercedes-Benz, Pro Access, Cine Itaim Paulista, Instituto Severino Fabriani. Instituto Mauricio de Sousa, Instituto Gustavo Rosa, Instituto Escuta, Nadus, Personal Garage, ABRAPS, Empatia do Silêncio, Fundação Otorrinolaringologia, Ear Parade, Casa Bauducco, Editora Lamônica, Programa Empresários de Sucesso, Revista 29h, Metrô SP, R1, RGA Med, Rocha Consultores Associados, Multiplier, Mercure Hotels, Padaria Benjamin e Associação Brasileira de Franchising (ABF) apoiam a iniciativa.

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