Relatos: Jornalistas contam experiências que tiveram com Irmã Dulce

Os jornalistas Jaciara Santos e Chico Araújo já entrevistaram Irmã Dulce


Tribuna da Bahia, Salvador
10/10/2019 11:26 | Atualizado há 13 dias, 3 horas e 59 minutos

   
Foto: Reprodução

Por Cleusa Duarte

A santa Dulce dos Pobres  tinha uma energia tão contagiante que deixava intrigados até mesmo os jovens que ficavam ao lado dela. Conseguiu a admiração de  espíritas, católicos, ateus, messiânicos e babalorixás. Era diferente. Jornalistas que estavam na ativa no final da década de 1980,  contam o chá de espera que tomavam dela e da correria que praticava no dia a dia no Hospital Santo Antônio.

O jornalista Francisco Araújo, mais conhecido como Chico Araújo relata “minha geração no Jornalismo teve a oportunidade de conviver, conhecer e até entrevistar Irmã Dulce. Eu, repórter iniciante, já era pautado para ir às Obras Sociais, no bairro de Roma, para acompanhar eventos e às vezes, entrevistá-la, pessoalmente. Devo ter entrevistado a Irmã em três oportunidades (não consigo fixar bem), mas uma delas posso  considerar ter sido meu dia com a santa. Procurei-a nas Obras Sociais. Acho que tinha ligado antes para saber se ela atenderia, mas sabia que ela sempre se mostrava disposta a falar com a imprensa (ela, como ninguém, sabia a importância de divulgar sua obra, não como vaidade, mas pela necessidade de manter a chama sempre acesa). Mas ela respondeu me chamando de meu filho e emendando que estava muito ocupada. Mas que se eu acompanhasse poderia conversar.”

Sem perceber, Chico foi se envolvendo na caminhada pelo hospital e observando os passos de Dulce “a segui em atendimento a crianças desnutridas, jovens e adultos com necessidades especiais, doentes, pacientes em estado grave, idosos que vinham abraçá-la a todo momento,  agradecer, pedir, orar... Juro que rodar horas o antigo Hospital Santo Antônio acompanhando a freirinha me cansou fisicamente. Ela sequer demonstrava o mínimo sinal de cansaço. Franzina, já arqueada (e seus últimos dias foram dormindo sentada), certamente, se alimentava do amor gerado por sua bondade.”

Chico ainda destaca que a entrevista foi para a Tribuna da Bahia “fiquei perplexo de como ela  atendia a todos  sem pestanejar, sem se impressionar com ferimentos, aparência, gênero, raça, ou militância política.Sinto não ter tirado uma foto ao lado dela. Na época, não se pensava em selfie e jornalistas também não posavam ao lado das fontes.”

O jornalista afirma “Já me perguntaram se a achava Santa, ou qual o significado de ser Santo. Respondo, não sei. Sei que Ela era Santa e era Ela o único significado da palavra Santa, que conheço.”

Já a jornalista Jaciara Santos lembra a primeira entrevista com a Santa, “ a primeira vez em que estive com a hoje Santa Dulce dos Pobres, vivi uma experiência inesquecível. Repórter iniciante no Jornal da Bahia, fui escalada para uma matéria especial com ela.. Me desloquei até o bairro de Roma, sede da Osid. Fomos eu e o fotógrafo informados  de que a Irmã estava em ronda pelo hospital e pedia que lhe aguardássemos, que tivéssemos ,um pouquinho de paciência. Àquela altura, já contaminada pela arrogância de que são acometidos jovens repórteres, não escondi a insatisfação. Mas tive que encarar o chá de cadeira que ela nos impunha. Nem dava para furar a matéria:,pelo que me lembro, era uma pauta de interesse da direção.”

Mais de uma hora depois, Jaciara conta que  enfim, surgiu a  fonte. “franzina e miudinha, parecia apressada. Disse que precisava continuar  ,vendo as coisas, e nos convidou a acompanhá-la. Concordei, enquanto explicava que estava ali para uma matéria sobre o trabalho, as obras sociais, o atendimento aos seus pobres.. Sem demonstrar um pingo de interesse, ela  indagou se era  para falar sobre ela.. Antes que eu pudesse  argumentar, ela emendou que queria falar sobre o que seus velhinhos estavam precisando. Fiquei meio sem graça e percebi de imediato que não seria fácil assumir o comando daquela entrevista.”

Seguindo  pelos corredores Jaciara lembra que  “em um canto, aparentemente esquecidos, um balde com água suja e utensílios de limpeza não passavam despercebidos.  Então a freira imediatamente chamava uma funcionária para observar aquilo.”

Finalmente, Jaciara lembra que “Entramos no que parecia ser a enfermaria geriátrica. Ela conhecia os pacientes pelo nome e procurava  saber como cada um deles  amanheceu, se já tinha melhorado de determinado sintoma, se o apetite tinha voltado.... Olhava o curativo , os lençóis de outro. Ouvia as queixas de um terceiro.”

Na ala reservada as crianças com deficiência, Jaciara recorda que ela   buscava informações sobre a evolução de um bebê, “ ordenava a troca de fraldas de outro, perguntava  se o médico já tinha passado por lá.”

O que deixou gravado na mente de Jaciara foi nesta  enfermaria pediátrica “ um menino com hidrocefalia. Sobre o corpinho mirrado, se assentava uma cabeça esmesuradamente grande. Irmã Dulce se acercou do berço, pegou a criança ao colo, se desmanchou em carinhos e balbucios, arrancou risos prazerosos do garotinho. E riu, ela que não era muito afeita a sorrisos em público. Riu.”

A visita e a entrevista ocuparam toda a manhã. O tempo passou  sem que a jornalista se desse conta “. minha impaciência e pressa iniciais deram lugar a uma indescritível sensação de bem-estar. Naqueles momentos, senti de perto a energia que emanava de um corpo franzino, mas incansável, e constatei a total ausência de vaidade pessoal daquela que viria a ser (merecidamente) reconhecida como santa.”

Jaciara conta que esteve em outras oportunidades com Irmã Dulce. Foram contatos mais rápidos e superficiais, registro de sua participação em eventos, pauta factual no Hospital Santo Antônio ou em outra das instituições mantidas pela Osid. Mas não  esquece  deste  primeiro encontro.

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