"A Tribuna sempre foi um órgão totalmente independente"

Joaci Góes disse que a Tribuna, sob o comando dele, “não aceitou se submeter às vontades” dos governantes de plantão


Tribuna da Bahia, Salvador
21/10/2019 06:53 | Atualizado há 22 dias, 4 horas e 35 minutos

   
Foto: Reprodução

Por Osvaldo Lyra e Paulo Roberto Sampaio 

O empresário, jornalista, político e escritor Joaci Góes é a memória viva da Tribuna da Bahia. Se o periódico tem meio século de vida, mais da metade dele foi dirigido pelo veterano, que até hoje assina uma coluna semanal na TB. "Eu tenho 50 anos para comemorar. Inclusive, os nove primeiros meses, os únicos em que não participei da gestão da Tribuna, também foram objeto de grande alegria, porque a sua criação partiu de um amigo muito querido que eu admirava com todos os valores que possuía, que foi Elmano Castro. E depois, a partir de julho de 1970, estou ligado de um modo ou de outro com a Tribuna da Bahia e extremamente feliz com as diferentes fases que passou", avalia, em entrevista. No papo, Joaci relembra os momentos mais tensos do jornal, sobretudo o embate com a ditadura militar e com o ex-governador Antônio Carlos Magalhães. Ele também avalia a cena política nacional e faz projeções para o futuro.

Tribuna - Joaci a Tribuna chega aos 50 anos. Há muito o que comemorar?

Joaci Góes - Eu tenho 50 anos para comemorar. Inclusive, os nove primeiros meses do jornal, os únicos em que não participei da gestão da Tribuna, também foram objeto de grande alegria, porque a sua criação partiu de um amigo muito querido, que eu admirava com todos os valores que possuía, que foi Elmano Castro. E depois, a partir de julho de 1970, estou ligado de um modo ou de outro com a Tribuna da Bahia e extremamente feliz com as diferentes fases que passou. Todas elas foram dignificantes do papel que compete ser executado por um veículo de comunicação social e que deve ter como objeto primeiro defender os valores e os princípios da sociedade onde está inserido.

Tribuna - A sua história se confunde diretamente com a história da Tribuna. Como avalia a sua chegada e a sua saída formal do jornal?

Joaci Góes - Cheguei no momento da ditadura máxima. E aquilo foi o modo de responder a um desafio. Inclusive, porque havia a pressuposição, para não dizer preconceito, a crença de outro modo lastreada na experiência prática, de que os veículos de comunicação brasileiros sempre estiveram condicionados a interesses materiais dos seus proprietários. Como eu era empresário e sempre fui orientado por uma aura de independência, fiz um cálculo e conclui que poderia viver sustentando o défict da Tribuna a vida inteira e que, portanto, não teria que sucumbir. E isso sempre aconteceu. A Tribuna sempre foi um órgão totalmente independente, até no tempo da ditadura militar, e do governo do estado da Bahia, quando nós tivemos a oportunidade de enfrentar os anos duros de Antônio Carlos Magalhães.

Tribuna - Como era sua relação com Elmano Castro e o Quintino de Carvalho? Quais as principais características dos dois?

Joaci Góes - Eles eram pessoas extremamente diferentes, mas eram inter complementares. O Quintino era o técnico, jornalista por excelência. E o Elmano era o Dom Quixote De La Mancha. Aconteceu até um episódio, que é importante [registrar] num documento histórico como esse e que, em outras circunstâncias, também vivi na minha vida: Elmano começou a se queixar de desobediência do Quintino do seu comando como diretor do jornal. E, um dia, numa reunião que eu participei, Elmano declarou uma orientação do jornal relativamente a uma determinada matéria. No dia seguinte, a matéria saiu exatamente o contrário da recomendação do Elmano, que era uma pessoa muito impetuosa. Chegou ao jornal e subiu do segundo para o terceiro andar, com um revólver na cintura. Entrou na redação e lá não encontrou Quintino. E nunca o encontraria, porque Quintino já estava hospitalizado com um câncer no cérebro do qual viria a falecer. O que aconteceu? No instante em que Quintino conversou com Elmano, ainda que fisicamente aparentasse um estado de normalidade, na realidade a sua saúde mental já não tinha condições de detectar. Portanto, aquela atitude de reação natural do Elmano não era contra um insubordinado que resolveu enfrentá-lo, mas de uma pessoa que estava padecendo de uma doença da qual ele sequer tinha conhecimento. Essa lição serviu muito para mim no sentido de dizer que nós devemos ter muito cuidado quando tivermos que examinar comportamentos de pessoas que, em determinado momento, assumem uma postura excessivamente heterodoxa, inteiramente distinta do percurso da sua biografia e das expectativas que ela pode julgar. 

Tribuna - Durante esses 50 anos você deve ter vivido histórias muito fortes e muito difíceis na Tribuna. Que ponto ou quais pontos colocaria como de maior tensão ao longo desse período?

Joaci Góes - Se eu for lhe contar todos os episódios, teríamos que multiplicar essa entrevista por várias outras. Vou citar duas. Uma delas, em 1976, o general Walter Paes, que era o comandante da Escola Superior de Guerra, e, porque tinha lutado na Itália, pelos critérios militares, tinha a mais alta patente militar do Brasil. Eu havia chegado de um curso em Stanford, ele conversou comigo aqui na Bahia e me fez um convite para cursar a Escola Superior de Guerra. Eu disse à ele que achava difícil pela posição de defesa das liberdades que eu assumia no jornal. Ele disse: que  'Você está inteiramente enganado, não sou espada virgem, sou a maior autoridade deste país. Quem é que vai duvidar? Vou lhe dar a empregada que eu tenho [ele iria se aposentar em seguida] na Escola Superior de Guerra para ser a sua empregada lá no Rio de Janeiro e, portanto, alugue um apartamento lá no Rio de Janeiro e etc'. E eu fiz. Fui para o Rio. O tempo passou, os nomes saíam no Diário Oficial e o meu não saía. Até que ele me chamou em particular pedindo que eu comparecesse na Praia Vermelha sem a minha mulher, porque ele queria ter uma conversa particular. E lá ele me confessou que ele estava a ponto de romper de maneira brusca com a hierarquia militar, já que ele era subordinado ao Ministro da Guerra, porque o meu nome tinha sofrido um veto intransponível do SNI [Serviço Nacional de Informações] simplesmente porque eu tinha assinado um manifesto contra a disposição do presidente Geisel de cassar o deputado Chico Pinto, que tinha feito um discurso criticando o presidente da República por ter recebido o Pinochet logo depois da queda do [Salvador] Allende, no Chile, com muitas festas. E Chico Pinto, no Plenário vazio, fez o discurso. Eu assinei o manifesto. Fui o único empresário brasileiro que assinou. Fiz até uma mudança. Sugeri a Jorge Amado, que acolheu, que não adiantava ficar atacando o presidente da República para defender a liberdade. Foi feita a mudança. Mesmo assim, não houve jeito. Mas, isso era péssimo, porque eu era empresário. Aí foi marcada uma entrevista minha com o general e comandante da 6ª Região Militar, que era tido como o nome mais top da linha dura. E Walter Pinheiro, o meu sucessor na Tribuna, recentemente convidado por mim para vir trabalhar... Ele até, quando fui para os Estados Unidos fazer o curso em 1975, levei-o para o Hospital Português e Elmano, que estava no leito do qual não sairia, conheceu Walter. Walter não tinha ideia de que iria ficar na Tribuna da Bahia. Ele veio para compor o grupo em outras atividades. Então eu fui com Walter Pinheiro ao comandante da região militar, ali na Mouraria. E lá chegando, Walter, que é um lord desde sempre, estava de paletó e gravata e eu de camisa sport. Quando o general me recebeu, eu estava em pé e ele disse 'vamos sentar, por favor'. Eu disse 'olha, general, antes de sentar, eu quero colocar uma premissa: nós estamos em um regime ditatorial...'. Ele disse 'não, senhor, estamos em um regime democrático'. Respondi 'não, vamos discutir isso, porque estamos vendo que temos avaliações distintas sobre a mesma natureza. Do ponto de vista factual, o senhor é a maior autoridade do Estado da Bahia e eu sou um simples cidadão. Essa nossa conversa só vale a pena ser mantida se o senhor partilhar do meu sentimento. Apesar de eu ser um simples cidadão e o senhor a maior autoridade do Estado, vamos ter uma conversa no mesmo nível de cidadania. Se o senhor achar que essa minha premissa tem uma razão de ser, a gente conversa, senão lhe agradeço a gentileza de estar comigo até agora e eu vou embora'. Ele disse 'não, perfeitamente, vamos conversar'. E a conversa prosseguiu assim. Falei durante uma hora e quinze minutos mais ou menos e ele com um cigarro na mão. Ele disse 'sou um fumante compulsivo, o senhor falou por 1h15min, não o interrompi para nada, sequer dobrei o meu dorso para pegar o isqueiro por estar concentrado na sua exposição. Queria lhe pedir a recíproca. Queria que o senhor me escutasse até o fim'. E assim o fiz. Ele disse 'nada tenho contra o senhor, apenas represento um corpo de ideias e neste contexto o senhor representa outro corpo de ideias e nós estamos em campos opostos. Isso, em linguagem militar, significa dizer que somos inimigos e que aqui estamos conversando cordialmente. Quero lhe contar isso para dizer que um bocado de gente que hoje está aí dizendo coisas, que não sabem o que é que diz. A esquerda mais atrasada do mundo é a brasileira. Esquerda que patrocina interesses de bandidos, de ladrões, de assaltantes do erário? Isso não é esquerda em nenhum canto do mundo'. Estou fazendo esse registro, com essa ênfase, para fazer desse depoimento um instrumento de educação política para a juventude do nosso tempo.

Tribuna - As relações com o ex-governador Antonio Carlos Magalhães sempre foram muito boas. O que aconteceu para causar o rompimento?

Joaci Góes - Não conheço em nenhuma sociedade pessoas que se tenham transformado, a menos que tenham herdado inimizades de família. Geralmente os adversários nascem de pessoas que se davam bem. Esse é o princípio. Marido e mulher só se separam porque um dia viveram unidos. Simplesmente a causa foi o fato de que a Tribuna, sob o meu comando, não aceitou se submeter às vontades de sua excelência. Eu deixei isso muito claro à ele num encontro que tivemos, o último, em 1981, numa quinta-feira. Saí do Rotary Club e Luís Eduardo Magalhães, então deputado estadual, me chamou e disse 'Joaci, meu pai briga com tanta gente, eu não queria que ele brigasse com você'. Aí surgiu o mal-estar. Eu sou empresário. Chegava na prefeitura, que não tem nada a ver com o governo do Estado, toda a repartição estava lá, qualquer medida, a mais trivial que qualquer cidadão poderia ter daquele órgão, estava lá. Como era 'esse assunto aqui seu, só o governador decide'. No banco do Estado, 'só o governador decide'. Achei que aquilo era uma medida de querer me cercear. Então, fomos lá [encontrar com o governador] numa quinta-feira. Fui de camisa sport, de novo, para a autoridade baixar a bola. Fui num carrinho pequeno, um Fiat, e o Luís Eduardo atendeu. Ficamos ali e ele até me disse que no dia anterior tinha determinado a prisão administrativa de Mamede Paes Mendonça, porque uma senhora da sociedade baiana teria feito a denúncia de que Mamede teria tirado das prateleiras o leite Ninho das crianças para, com isso, elevar o preço. Mamede foi o sujeito mais beneficiador da economia baiana que eu tenho memória. Mas, como era um cara que era pobre e cresceu no meio capitalista, havia um preconceito contra ele. Luís Eduardo disse que fez a prisão, mas que a polícia administrativa foi lá e não achou nada. Era falsa a denúncia. Ele comentou 'foi uma pena, porque se eu prendo ele isso ira me dar muitos pontos de popularidade'. Aí eu disse 'queria lhe dizer só uma coisa: considero Mamede uma pessoa respeitável e que deve ser valorizada sobre todos os aspectos. Quero lhe informar que se você o prender, eu irei imediatamente me colocar na prisão solidário com ele'. Luís Eduardo tentou argumentar que a prisão daria popularidade e eu disse que aquilo era imoral e que Mamede só fazia o bem. Terminada a reunião, ele perguntou se eu poderia lhe dar carona para o Centro Administrativo. 'Opa, claro, com maior prazer'. E eu fui com meu Fiat, a segurança dele uma parte a frente e a outra atrás, isso em 81, e eu dirigindo o carro. Quando chegamos no Centro Administrativo, onde é o prédio da Secretaria de Educação era a governadoria, ele disse 'espere um pouco'. Esperei. Estava todo aquele aparato para receber o governador. Era por volta das 15h. O governador falou alguma coisa ao comandante e ele veio em minha direção. Ele disse 'doutor Joaci Góes, poderia saltar?'. Pensei que seria preso. Desci e na frente daquela banda, me senti meio ridículo, de camisa sport, e a guarda me prestando homenagem daquele jeitão dele quando queria agradar. Apesar disso, foi a última vez que nos encontramos. Salvo na inauguração do Jockey Club, quando conversamos por 5 minutos. No ano seguinte veio a eleição e apoiei Roberto Santos. Ele apoiou Clériston Andrade. Clériston morreu no dia 1º de outubro de 1982 e aí foi lançado o nome de João Durval Carneiro. O voto era vinculado, apesar de João Durval Carneiro ser um político de muita aceitação popular. Com o voto vinculado no Nordeste só alguém que eu conheço poderia ganhar a eleição contra o sistema: Jesus Cristo. Então, a partir daí, nos separamos. Quando fui para a Constituinte, ele era ministro [das Comunicações], eu o denunciei por várias questões e tive com ele um entrevero cara a cara durante a Constituinte em que lhe disse palavras muito pesadas que foram gravadas inclusive pelas televisões do Brasil.

Tribuna - É possível relembrar o 'affair' com o jornal A Tarde por causa do 'affair' com Plínio Moscoso?

Joaci Góes - Houve uma coisa muito interessante: por coincidência, a última foto em black tie do Plínio com a Leninha, eu apareci na foto. Poucos meses antes em uma recepção na casa de Humberto Castro, quer era irmão de Elmano Castro. Nessa altura eu já era o titular da Tribuna, o proprietário maior, embora eu atribuísse a Elmano, que estava claudicante ainda, o comando do jornal. Mas eu já tinha o controle acionário. Aí alguém disse ao jornalista que a morte sido [confirmada]. O pessoal me consultou e eu disse para colocar lá. E aí, a Tribuna começou e deu a matéria. Cinco ou seis dias depois, A Tarde colocou uma nota na terceira página 'sobre a morte do empresário Plínio Moscoso surgiram rumores de que poderia ter sido consequência de um crime e A Tarde com sua responsabilidade aos seus leitores, com a cautela que lhe é peculiar, não se dispôs a usar dessa inicial suspeita para fazer estardalhaço como é próprio de uma imprensa nova e inexperiente' fazendo uma alusão pesada [à Tribuna]. Eu, portanto, redigi uma matéria de primeira página usando um pensamento do Franklin Delano Roosevelt que fala de quem prefere viver na sombra, na macieza das circunstâncias, sem enfrentar os desafios. O fato é que eu desci o cacete, condenei a mediocridade, a conveniência, o servilismo e etc. Aquilo criou um ambiente de grande tensão. E eu era rotariano [membro do Rotary Club, associação que tem por fim prestar serviços à comunidade e estabelecer laços de compreensão entre os povos]. E Jorge Calmon, diretor de A Tarde, também era rotariano. Houve um encontro na casa de Luiz Viana Neto, um palacete que ele tem na Federação, para tratar de outro assunto entre pessoas da sociedade.  Quando chegamos lá, Renato Novis, o caçula dos três 'Novises', disse que Jorge Calmon tinha chegado e estava na beira da piscina. 'Ele se recusa a vir para cá, porque você está aqui'. O pessoal achou que eu iria chegar lá e bater em Jorge. Gritei de fora 'meu caro Jorge Calmon'. Ele se levantou. 'As palavras que proferi, duras, hoje na Tribuna da Bahia, foram contra o jornal e sua estrutura, nada, absolutamente nada, há contra a sua personalidade que eu compreendo estar muito acima e tem muito mais valor do que esse jornal. Quero aqui, perante todas te as pessoas que você me diga se isso é suficiente para que eu vá aí e lhe dê um abraço ou se tenho que dizer algo mais?'. Parti na direção dele e ele me deu um grande abraço. Aquilo selou em definitivo a amizade que nos conduziu até a morte dele, quando fez 92 anos de idade. E o episódio com A Tarde, como tudo na vida, terminou passando. Apenas fiquei em paz com a minha consciência, porque não tenho memória de ter provocado uma pessoa. Nunca provoquei, desde menino. Mas até hoje nunca injeitei uma parada.


Leia a entrevista completa na edição impressa do jornal ou na Tribuna Virtual.

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