A classe média baiana e a renda que encolhe e pode em parte desaparecer

Por: Gerson Brasil


Tribuna da Bahia, Salvador
06/11/2019 14:38 | Atualizado há 13 dias, 14 horas e 24 minutos

   

Passou despercebida a queda no rendimento dos ricos na Bahia (conceituação do IBGE) entre 2017 e 2018, talvez porque o espanto ou a solidariedade esteja reservado para os pobres, nos discursos esquerdistas e direitistas; afinal, estão sempre a formular planos para redimir os pobres, sem que estes saiam do lugar, desmoralizando o calendário gregoriano. Ainda bem que não é o chinês, com aqueles mil e tantos anos. Afe! Mas o fato não passou despercebido pelos repórteres Yuri Abreu, Tribuna, Julia Rodrigues, Metro1, e Gabriel Amorim, Correio; Mostraram que houve uma queda de 18,5% no rendimento médio dos que ganhavam mais, e essa perda afetou aqueles bem preparados profissionalmente e que se declararam brancos, para o IBGE. Para quem tinha formação universitária o baque foi de 22,1%.

Se trouxermos esse dado para Salvador, cidade majoritariamente pobre (Em 2017, 6,9 milhões de pessoas viviam abaixo da linha da pobreza), o impacto não é desprezível; numa urbe que já não detém sedes importantes de grandes empresas, bancos e mesmo o polo petroquímico deixou de ser aquele grande empregador, com bons salários.

Como se trata de renda, envolvendo não apenas os salários, mas também aplicações, ou ativos que geram ganhos, a queda representa um freio na tomada de decisões de médio e longo prazos, no que concerne a investimentos ou compra de novos serviços e, pior ainda, desligamentos de outros tantos.

A divulgação do IBGE aparece num momento delicado, o fechamento das atividades da Petrobras na Bahia, sem a devida repercussão que o fato merece. As entidades civis, os políticos e a web não mobilizaram a sociedade sobre a questão.

Sem apresentar um polo dinâmico econômico, Salvador está preste a perder uma parcela considerada da renda gerada na cidade e que alimenta uma vasta capilaridade de pequenos e médios negócios.

Embora na Bahia deva-se tomar cuidado com as estatísticas de associações e mesmo de governos, o Sindipetro estima que a Petrobras tem hoje, na Bahia, cerca de 4 mil trabalhadores próprios e 13 mil terceirizados. Se a informação não for precisa, encontra-se na circunvizinhança da realidade.

A questão, por enquanto, está travada por conta de uma liminar, mas a perda da renda, e aí não estamos mais falando de queda, representará um esfriamento na circulação da moeda, com rebate considerável, principalmente no setor de serviço, não só bar e restaurante, mas também serviços qualificados, como de engenharia, medicina et al, sem falar no imobiliário. Há muito não se vê uma grua na cidade e vai demorar a aparecer. Os convênios da Petrobras às vezes representam 20%, 30% e até 100% do faturamento de clínicas.

Como a economia não é carro, não dá cavalo de pau e nem faz curvas bruscas e sim cresce ou se retrai devido à tendência ancorada nas tomadas de decisões dos agentes que a movem, recuperar a perda da renda ou substituir as que vão embora só no longo prazo e pode levar décadas.

Por enquanto, o cenário é árido numa cidade cuja atividade maior é o serviço, com grande peso para bares, restaurantes, call centers, “escritórios” e “firmas”; e espelha de modo claro os efeitos da recessão petista, que no biênio 2015-2016 cravou uma queda acumulada do PIB de 7,2%.

O campo é nostalgia, mas a cidade é fascinação, de quem procura um lugar que lhe oriente. O cubano Sarduy descobre em Roma o rumor das fontes, como guia; em Havana, o labirinto das ruelas, em Istambul, a voz dos leiloeiros, e em Estocolmo, painéis hipergráficos. Em Salvador, a sinalização é da pobreza e do cheiro do mijo, agora a cidade incorporou o vacui da renda. No YouTube, Elsa Armengou, nos seus seis ou sete anos, trompetaMoodIndigo, de Duke Ellington.


 Gerson Brasil é secretário de redação da Tribuna da Bahia.

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