I Fórum de Inovação e Sustentabilidade em Educação da Chapada

Diamantina destaca Universidade de Harvard no sertão da Bahia e a busca por um novo olhar para a educação


Tribuna da Bahia, Salvador
07/12/2019 13:00 | Atualizado há 13 dias, 21 horas e 52 minutos

   
Foto: Divulgação

Da Sucursal da Chapada -Cristina Villarino


O ponto alto do I Fórum de Inovação e Sustentabilidade em Educação da Chapada Diamantina foi a formatura da segunda turma de Computação Criativa, curso realizado pelo Instituto Tecnológico de Piritiba (ITPi) e idealizado pela Universidade de Harvard. Isso significa que Harvard, uma das principais universidades do mundo, está no interior da Bahia. Mais especificamente na cidade de Piritiba, uma típica cidade do sertão nordestino, localizada na região do Piemonte da Chapada Diamantina, a 320Kmda capital Salvador.

Infelizmente, ao qualificar Piritiba como uma típica cidade do sertão nordestino, buscamos construir uma imagem que remete a um povo pobre que sofre com a seca, o êxodo e baixos indicadores sociais. Apesar de ser uma visão estereotipada, ela descreve muito da realidade. Piritiba, por exemplo, tem a seca como um flagelo e possui uma população em torno de 25.000 habitantes há muitasdécadas. A economia da cidade gira em torno do programa assistencialista do governo federal, o Bolsa Família. E os indicadores que avaliam a qualidade da educação para os anos finais do ensino fundamental colocam Piritiba entre uma das piores cidades da Bahia, que é o pior estado do país, juntamente com mais dois coirmãos nordestinos: Rio Grande do Norte e Sergipe.

Diante desde cenário difícil, pode-se perguntar por que Harvard está em Piritiba? A resposta mais direta é: para inserir a Computação Criativa na rotina dos alunos do ensino fundamental da rede municipal de ensino e promover uma formação mais alinhada com as demandas do século XXI. Mas tem uma resposta menos direta: Harvard está em Piritiba porque a sociedade se organizoupara transformar um modelo educacional que não está gerando resultados satisfatórios, especialmente quando tratamos do ensino público. A premissa de que a educação é a chave para o desenvolvimento do país é facilmente aceita. Entretanto, educação ainda é tratada como uma área para apaixonados e abnegados gestores e professores. Se desejamos encarar a educação como um setor estratégico para o país, precisamos de mais estudo, planejamento e profissionalismo; e menos burocracia e desconfiança.

A formatura das 45 crianças, na faixa de 11 anos de idade,da segunda turma do curso de computação criativa evidencia que é possível repensar conteúdo e formas de ensino e aprendizagem. Não podemos prescindir do conhecimento de nenhuma área, mas precisamos criar condições para que profissionais da educação possam repensar um modelo que já se provou inadequado. O professor tem atuado como burocrata do conhecimento. Este cenário não atrai os melhores profissionais para a área, o que compromete o futuro do projeto educação para o país. 

Com esta visão o ITPi realizou o I Fórum de Inovação e Sustentabilidade em Educação da Chapada Diamantina. Organização privada, sem fins lucrativos, o ITPi se propõe a colaborar com um modelo de governança onde a sociedade civil organizada tem voz ativa para o desenvolvimento da cidade, região e país. Fruto da adesão do município de Piritiba aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, o ITPi tem atuado fortemente no ODS 4 – Educação de Qualidade.

Apesar das dificuldades, educação é gratificante e o evento mostrou isso. As discussões em torno do tema e a atuação dos alunos do curso de Computação Criativa emocionaram todos. Estiveram presentes importantes parceiros e apoiadores, como a Secretária de Ciência,Tecnologia e Inovação do Estado, Adélia Pinheiro; aDiretora do Núcleo Territorial da  Chapada Diamantina da Secretaria de Educação do Estado, Valdeci Carvalho; o presidente do WWI-Brasil, Eduardo Athayde; o Assessor Regional do SENAR Bahia, do sistema FAEB/SENAR, Gustavo Marciel; bem como representantes do poder público local, diretores de escolas, professores e familiares dos alunos.

Além do importante debate, o evento foi finalizado com um hackathon, onde os alunos apresentaram seus projetos finais, com direito a premiação para os melhores trabalhos. Foi muito gratificante ver pais da zona rural impressionados pelas habilidades de seus filhos em trabalhar princípios da ciência da computação e programação de software da mesma forma que crianças de países desenvolvidos vêm fazendo há anos. O Brasil está atrasado e o ITPi promove uma ação pioneira. A mais forte evidência disso é que a tradução e adaptação do curso disponibilizado pela Universidade de Harvard foi realizada por professores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), com objetivo de ser utilizadopelo ITPi em Piritiba. 

Ainda no evento, o ITPi apresentou seus projetos para o próximo ano, que envolvem i) a ampliação da capacidade de atendimentos dos alunos; ii) letramento digital para os professores do município; iii) a conclusão de pesquisa no mestrado no programa de Ciência da Computação da UEFS para avaliação do impacto do curso na formação das crianças; iv) a produção, também na UEFS, de um currículo voltado para o Pensamento Computacional, para os anos finais do ensino fundamental  (6º ao 9º ano); e v) a expectativa de incorporação de outros municípios nessa parceria.

Neste ponto, acho que podemos refazer uma pergunta do texto: porque Harvard, MIT, UEFS, ITPi, WWi, ONU, Governo do Estado da Bahia, Prefeitura Municipal de Piritiba, Câmara dos Vereadores de Piritiba, FAEB, e muitos outros parceiros, estiveram em Piritiba no I Fórum de Inovação e Sustentabilidade em Educação da Chapada Diamantina? A resposta é simples: para fazer com que, no futuro, a referência a uma típica cidade do sertão nordestino nos remeta a um local onde o povo toma as rédeas do seu destino e é capaz de transformar sua própria realidade. A semente está plantada e pronta para ser espalhada.

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