Coluna Mix (Por: Fan Teixeira) - Edição do dia 9/12

Desbrava que destrava


Tribuna da Bahia, Salvador
09/12/2019 13:23 | Atualizado há 13 dias, 17 horas e 12 minutos

   
Foto: Divulgação

Seu tesouro está aí, dentro de você. Sei que não foi fácil chegar até aqui. Na verdade, para quem vive de verdade, nunca é. Foram muitos embates pela vida, decepções e ilusões dolorosas que lhe tiraram o chão, mas agora lhe dão sustento. Não que sofrimento esteja atrelado ao crescer, é possível crescer na alegria também, desenvolver habilidades e aprimorar quem somos a partir de experiências felizes. Mas vamos combinar? Se há negócio que nos engrandece é a vulnerabilidade. 

É bem confortável viver acomodada em uma caixa, deitada sobre uma almofada ou calçada com sapatos que protegem seus pés dos espinhos do caminho. Muito mais fácil uma vida assim. Expectativas e realidades alinhadas, onde você sabe o começo, meio e fim de suas emoções. Botar o rostopra fora da janela e deixar o vento embaraçar os cabelos é para poucas, amiga, creia, nem todas têm essa coragem. E sim, coragem é o nome desse bicho esquisito que lhe empurra para além do previsto, para fora das suas próprias margens.

Porque permitir que a vulnerabilidade guie seus passos é duro. Se colocar na berlinda é como estar nua diante de uma plateia impiedosa. Vão analisar as suas falhas, irão apontar o dedo exatamente naquele lugar que lhe dói. Não se escolhe estar vulnerável, geralmente preferimos as sombras que cobrem da luz as nossas fragilidades. Parece até que quanto mais vestes, quanto mais camadas tivermos, mais blindadas estaremos. 

Protegidas, vamos casando depois de anos de relacionamento morno, daí escolhemos comprar aquele carro caríssimo para esfregar na cara dos vizinhos, acabamos formando na profissão que o pai escolheu, adiamos a saída do tal emprego que nos impede de crescer, atrofiamos nossas ideias e enterramos a capacidade de criar. Escondidas sob as camadas nos distraímos e deixamos de treinar o olhar para a felicidade contínua que passa diariamente ao nosso lado. Nos tornamos especialistas em superficialidades porque, tolamente, preferimos crer que viver à flor da pele, nuas em praça pública, é troço muito arriscado. 

A vulnerabilidade brota sem ser convidada e nasce justamente do movimento desordenado que fazemos ao não sabermos o que fazer. Ao bater com a cara na porta temos duas opções, dar meia volta ou empurrar para ver o que há depois da porta. É aí que está o tesouro. É nesse avanço emocional que estão abrigadas as respostas que a gente tanto busca. Certamente, não será debochando da caminhada da amiga que resolveu desbravar a si mesma que você irá se encontrar. Não minimiza a força do outro só porque você sabe que ainda não consegue fazer igual. É hercúlea mesmo essa missão, mas pertence apenas a você.

Olha para sua trajetória e não distrai com os outros. A vida real não é feed do Instagram. Você deveria ser sua própria inspiração. Desbrava que destrava, experimenta. Permite o vento na cara,aceita o vestido abarrotado e a sacola furada de tanto carregar peso. Apenas permite. Nem tudo que parece, é. Olha pra você e enxerga. O que você vê? Encara de uma vez a possibilidade de se tornar gente grande. E o curioso de toda essa revolução silenciosa é que o sofrimento pode ser opcional, ainda que a dor seja inevitável. Enquanto oscila entre menina, moça, mulher, anciã, uma mágica oculta se dá e você consegue alcançar seus reflexos mais distantes por meio de novas percepções. Vai doer, mas vai sarar depois. Como tudo nessa vida.

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