"Salvador pode pensar, planejar e executar um projeto mais ousado"

O presidente estadual do PT, Éden Valadares, é otimista com relação à eventual vitória do PT na eleição de 2020 em Salvador


Tribuna da Bahia, Salvador
13/01/2020 06:40 | Atualizado há 13 dias, 23 horas e 5 minutos

   
Foto: Reprodução

Por: Guilherme Reis - Editor Interino - Henrique Brinco - Repórter e Paulo Roberto Sampaio - Diretor de Redação


O presidente estadual do PT, Éden Valadares, é otimista com relação à eventual vitória do PT na eleição de 2020 em Salvador. O gestor da sigla se posiciona diante da indefinição de quem será o representante que entrará na corrida para enfrentar o pré-candidato do prefeito ACM Neto, Bruno Reis (DEM).

"O PT, ao contrário dos partidos mais tradicionais, por assim dizer, tem um processo singular de respeito à democracia interna e às diversas opiniões presentes no partido. Essa diversidade seja talvez a maior fortaleza do PT. Então é natural que a gente tenha um tempo próprio, de análise, de maturação e definição das coisas", declara, em entrevista à Tribuna. Valadares faz um panorama otimista para o futuro da sigla, que sofreu forte abalo após a queda da ex-presidente Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro.

"Quatro anos atrás vivemos a maior maré baixa do PT. Caiu nosso número de prefeitos, vereadores, alguns mais afoitos chegaram a de Dilma foi um golpe na democracia, depois de revelada a farsa da Lava Jato contra Lula, depois de Temer e Bolsonaro destruírem as conquistas sociais, trabalhistas e ambientais, a maré mudou", avalia. Ainda na entrevista, o presidente estadual também faz projeções para o futuro e avalia as gestões de Neto e do governador Rui Costa.

Tribuna da Bahia - O presidente Jair Bolsonaro encerrou recentemente o seu primeiro ano de governo. Qual sua opinião sobre o desempenho dele? Como avalia o cenário político nacional?

Éden Valadares - Com muita preocupação. A agenda do país deveria ser a da geração de emprego, de renda, de oportunidades para nossa gente trabalhar, estudar, crescer e ter esperança em dias melhores. Infelizmente, Bolsonaro fez opções muito ruins. Na economia, o desmonte do nosso patrimônio, a venda das nossas estatais, a entrega da condução do país ao mercado financeiro… E hoje assistimos às famílias penando com o preço do custo de vida, do gás de cozinha, da gasolina, da carne… E na política, o cenário é ainda pior. Não há trégua, não tentativa de unir o país. Ao contrário, ele segue no palanque, radicalizando e legitimando o discurso do ódio, o expediente da violência, da perseguição aos adversários e da retirada de direitos sociais, ambientais e trabalhistas.

Tribuna - O PT tem adotado uma estratégia acertada para fazer oposição?

Éden Valadares - O PT faz a oposição que o governo merece. Quem segue radicalizando é o governo, não o PT ou a esquerda. De dez palavras que Bolsonaro fala, nove é Lula. Então, obviamente, ele optou pelo clima de campanha permanente. Quanto a Lula e o PT, sinceramente, não cabe a pecha de sectário. Nós governamos para todos, criamos mecanismos de diálogo, de busca de consensos nacionais. A História e os fatos estão aí. Portanto, não se pode pedir ao PT que amenize a oposição, tem que pedir a quem ganhou a eleição que busque governar, e não seguir no palanque. Insisto, a trajetória de 40 anos do PT se confunde com a defesa e o aprofundamento da democracia no Brasil. Nós respeitamos resultados das eleições quando perdemos e buscamos governar para todos quando vencemos. Aécio não. Bolsonaro muito menos.

Tribuna - Em relação ao cenário local, qual será o principal desafio do PT em Salvador e na Bahia para as eleições deste ano?

Éden Valadares - Defender a democracia e aprofundar o projeto político que vem mudando para melhorar a vida do povo baiano ao longo destes 13 anos. Libertamos a Bahia do atraso, do autoritarismo, inauguramos uma era de diálogo, de respeito, sem perseguição a adversários. Isso é uma marca muito forte e é reconhecida por prefeitos, empresários, a sociedade como um todo. E nesse sentido, nós confiamos em uma aliança com todos aqueles que defendem os legados de Lula, de Wagner e Rui Costa para seguirmos juntos e impor uma grande derrota a Bolsonaro e seu aliado local, o DEM de ACM Neto, em toda a Bahia. Em Salvador, que você citou, temos um time de muito forte, com craques do gabarito de Wagner, Lídice, Otto, Olívia, Bacelar, Isidório, João Leão, dentre outros. E o líder dessa turma é Rui Costa, o melhor governador do Brasil. Então Rui, que é o técnico do time, vai dialogar com os partidos, montar o melhor esquema tático e escalar os times. Temos muita obra, muito serviço prestado, muita coisa feita na nossa capital e o povo soteropolitano reconhece. Chegaremos fortes em 2020. Tenho certeza.

Tribuna - No Estado, quantos candidatos a prefeito? Qual será a meta do PT?

Éden Valadares - A meta numérica não foi definida. Realizaremos encontros em todos os Territórios de Identidade da Bahia entre janeiro e fevereiro para ter um diagnóstico mais preciso. Mas a meta política está clara: o bolsonarismo e o carlismo serão derrotados pelo campo democrático, por aqueles que mudaram a Bahia, pelo time de Lula e Rui Costa.

Tribuna - Como avalia a pré-candidatura de Bruno Reis? Vai chegar com força na eleição? 

Éden Valadares - Eu não gosto de comentar a escalação de time adversário. Cada um joga com os instrumentos que tem. Mas vejo uma certa soberba, um salto alto na movimentação da turma do DEM. Nós seguiremos com humildade, com muito trabalho e sinceridade no diálogo com a sociedade. O Brasil está numa encruzilhada entre a defesa da democracia e o projeto absurdo de Bolsonaro. ACM Neto, que é presidente nacional do DEM, dá sustentação a isso. Nós não. Nós queremos que Salvador experimente o que a Bahia conhece e aprova, que é um governo tamanho G, seja de grandes obras, grande investimentos, de ousar pensar grandes projetos, seja G de cuidar de gente, da saúde, do emprego, da vida das pessoas. Penso que é chegada a hora de Salvador experimentar esse projeto.

Tribuna - O PT está demorando de definir o candidato em Salvador?

Éden Valadares - O PT, ao contrário dos partidos mais tradicionais, por assim dizer, tem um processo singular de respeito à democracia interna e às diversas opiniões presentes no partido. Essa diversidade seja talvez a maior fortaleza do PT. Então é natural que a gente tenha um tempo próprio, de análise, de maturação e definição das coisas. Além disso, o PT é a alternativa real de poder no Brasil e dirige a coalizão que governa a Bahia há 13 anos, sendo seu principal partido. Nós temos decisão pela candidatura própria. Mas obviamente quem tem uma responsabilidade deste tamanho não o fará isoladamente. Nós vamos montar a melhor tática para Salvador dialogando com os aliados e nossas principais lideranças, o senador Jaques Wagner e o governador Rui Costa. Há uma ansiedade? Claro. Mas estamos no prazo.

Tribuna - Pelegrino pode deixar a Sedur para disputar?

Éden Valadares - Pelegrino é uma grande liderança do PT e tem um peso político importante na Cidade do Salvador. Não à toa ele pontua bem nas pesquisas, não à toa seu nome é sempre lembrado. Eu fico com a formulação que o próprio Nelson vem fazendo: ele está no banco de reservas, se convocado, vai a campo e tenho certeza jogará muito bem.

Tribuna - O que acha possibilidade de Major Denice se filiar ao PT e sair como candidata a prefeitura de Salvador?

Éden Valadares - Quatro anos atrás vivemos a maior maré baixa do PT. Caiu nosso número de prefeitos, vereadores, alguns mais afoitos chegaram a decretar, de maneira afobada, o fim do PT. Hoje, depois de o Brasil perceber que o impeachment de Dilma foi um golpe na democracia, depois de revelada a farsa da Lava Jato contra Lula, depois de Temer e Bolsonaro destruírem as conquistas sociais, trabalhistas e ambientais, a maré mudou. A lembrança dos governos do PT, a memória do tempo de prosperidade, de esperança, de geração de emprego e renda, reativou no coração do nosso povo a saudade de Lula e do PT. Portanto, fico feliz em saber que o PT volta a ser procurado como alternativa por personagens da política e fora dela. Nunca conversei com a Major Denice sobre filiação. Respeito a trajetória dela e sei que muita gente tem admiração pelo seu trabalho e sua postura. Mas o primeiro passo deve ser dela. O PT tem excelentes quadros. Se ela deseja se integrar às nossas fileiras, a iniciativa deve ser dela.

Tribuna - Você é próximo a Jaques Wagner e dizem que ele tem preferência por Robinson Almeida na corrida pela prefeitura de Salvador. Procede?

Éden Valadares - Sou próximo, sou amigo, temos uma longa relação política. Tenho enorme gratidão e lealdade ao senador. Mas não sou seu porta-voz. Essa questão deve ser respondida pelo próprio Wagner. Posso lhe dizer que é um cara convencido sobre a necessidade de renovação. Ele incentiva, prega, estimula a renovação política com muita convicção. Não à toa apoiou Rui em 2014, não à toa me apoiou em 2019. Mas somente ele pode te responder.

Tribuna - Você pretende se lançar como candidato a vereador?

Éden Valadares - Não. Não pretendo ser candidato a nada. Categoricamente, não sou candidato a absolutamente nada. Acabei de tomar posse como presidente do PT na Bahia. É o PT, o maior partido da esquerda brasileira. E é a Bahia, o principal governo do campo democrático. Então essa é a maior missão política da minha vida e vou me dedicar integralmente a essa tarefa, que muito orgulha. É o PT e é a Bahia. Essas duas coisas mexem muito comigo e estou cem por cento focado nisso.

Tribuna - Qual a melhor estratégia, em sua opinião, para a base? Uma ou duas candidaturas, ou afunilamento?

Éden Valadares - Olha, eu fiz um pacto na eleição do PT. Não serei um presidente que coloca suas opiniões individuais acima da opinião coletiva do partido. E assim tenho atuado, assim atuarei sempre. Há quem defenda a estratégia de uma, duas ou três candidaturas da base do governador Rui Costa. Nós vamos ouvir o sentimento da militância, dialogar com os aliados e conversar com as lideranças. Essa será uma decisão coletiva, pactuada e articulada em respeito à opinião de todos, sob a liderança de Rui.

Tribuna - De que forma a desistência de Bellintani impactou os planos do PT?

Éden Valadares - Eu diria que, na estratégia, nada mudou. Temos a definição de apresentar candidatura própria e dialogar com os aliados. Isso não mudou. Na tática talvez tenha influenciado, pois é uma possibilidade a menos, um perfil de candidatura a menos. Mas, repare, eu nunca discuti com Guilherme sua filiação ao PT. Sempre que dialogamos ele dizia estar concentrado no Bahia e quando falamos sobre política, ele disse estar em dúvida sobre sair ou não da presidência do clube. Sou conselheiro do Bahia, apoiei Bellintani e fiquei contente com a decisão enquanto tricolor. Desejo boa sorte a ele. Até porque, na política, temos outros nomes até mais preparados para enfrentar uma eleição tão importante e complexa como é a de Salvador.

Tribuna - Lula vai influenciar e ter peso na eleição municipal?

Éden Valadares - Certamente sim. Salvador tem alguns grandes eleitores, pessoas que influenciam a tomada de decisão na hora de escolher os candidatos. Claro, ACM Neto é um deles, mas não o único. Lula é uma grande referência e Rui Costa, hoje, um influenciador ainda maior.

Tribuna - Para esse ano, a gente pode esperar uma renovação na Bahia? No Legislativo, com o fim das coligações proporcionais?

Éden Valadares - Penso que sim. A novidade do fim das coligações proporcionais terá peso. Mas a própria dinâmica política, na Bahia e no Brasil, também aponta isso. Veja o caso do PT. Nosso partido foi fundado em 1980 e a sociedade em que isso ocorreu mudou profundamente. Mudaram as relações de trabalho, o marcado de trabalho, nossas formas de se comunicar, nossas linguagens, nosso jeito de fazer política e disputar eleições. Então nada mais natural que o PT se atualize, se modernize e dê oportunidade às novas gerações. A renovação é um processo natural e já está em curso.

Tribuna - O governador Rui Costa está indo para o segundo ano do segundo mandato. Ele tem conseguido dar conta do recado? Como avalia a gestão dele?

Éden Valadares - Estou certo que sim. As pesquisas dizem isso, a opinião pública também, os dados oficiais dizem isso, mas, sobretudo, o povo da Bahia diz e reconhece. Não à toa Wagner foi eleito o senador mais votado da história e Rui Costa, o governador mais votado, seja em percentual seja em números absolutos, da história da Bahia. Isso é o maior reconhecimento que Rui e nosso projeto poderiam ter. Mas não é toa. É fruto de opções políticas e de muito, mas muito trabalho. Policlínicas, novos hospitais, estradas, metrô, VLT, agora a Ponte Salvador-Itaparica. É muito investimento em grandes obras, grandes projetos, sem perder de vista os investimentos na área social, na agricultura familiar, na política de mulheres, na juventude, Primeiro Emprego, Partiu Estágio. Enfim. É um caso de sucesso de boa administração, responsabilidade na gestão, grandes investimentos sem abrir mão do social, do combate às desigualdades e injustiças sociais.

Tribuna - Como avalia a gestão de ACM Neto?

Éden Valadares - Bolsonaro trata os adversários como inimigos. Aqui mesmo rejeitei e condenei essa prática. Então, não sou daqueles que acham que tudo que é feito pelo adversário é ruim só porque o cara é adversário. Neto tem seus pontos positivos. Arrumou a casa, botou a prefeitura para girar. Mas Salvador pode mais. Muito mais. Na área da Saúde, por exemplo, é preciso mudar muita coisa, aumentar a cobertura básica, se aproximar dos que mais precisam e não tem. Grande hospitais foram feitos por Wagner e por Rui, temos que cuidar da prevenção, da saúde da família, estar mais presente nas comunidades. A mesma coisa na questão da infraestrutura. O Governo do Estado revolucionou Salvador com o metrô, os viadutos, as novas avenidas, e vem por aí VLT e Ponte. São grandes investimentos. Neto cuidou de praça, de meio-fio, mas ousou pouco nessa área. Salvador pode pensar, planejar e executar um projeto mais ousado, que pense a cidade da dimensão que ela merece.

Tribuna - Rui Costa deve estar ausente na Lavagem do Bonfim em 2020. Acha que isso pode dar protagonismo ao grupo de ACM Neto?

Éden Valadares - A responsabilidade da vitória é dele, do prefeito, e do seu candidato que já sonha com isso desde o dia em que ACM Neto amarelou em enfrentar Rui Costa nas urnas. Quem tem obrigação de ganhar é ele, pois tem uma expectativa de poder limitada a Salvador. Nós do PT, e dos partidos aliados, dirigimos a coalizão que vem mudando a Bahia há 13 anos e somos alternativa real de poder no Brasil. Salvador é super importante. Mas nós vamos para essa disputa com leveza, com tranquilidade, queremos discutir a cidade, seus problemas e encontrar soluções. Assim também será no Bonfim. Vamos caminhar ao lado do povo, da militância, dialogando e ouvindo muito. Se pesquisa não ganha eleição, imagina festa popular. Deixa eles no salto alto. Nós vamos de humildade, muito trabalho e renovando a fé no Nosso Senhor do Bonfim

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