ARTIGO: O Irã desnudado

Por: Adilson Fonseca


Tribuna da Bahia, Salvador
15/01/2020 06:40 | Atualizado há 6 dias, 14 horas e 59 minutos

   

Ao se analisar a composição das Forças Armadas do Irã, observa-se que 30% do seu efetivo são dedicados à Guarda Revolucionária, uma espécie de poder paralelo em que o comando é exclusivo dos Aiatolás, os líderes supremos do país. E que desse contingente, de mais de 150 mil homens, uma parte considerável é destinada a ações de infiltrações em países da região, com o a Síria, o Iraque, e o Iêmen, onde apoiam grupos radicais revolucionários.

Ao admitir, por força das evidências e de não ter como escamotear a verdade, ante os dados da “caixa preta” do avião derrubado, um Boeing 737 com 176 pessoas bordos, todos civis, o regime do irã foi desnudado. Se até então, apesar do seu de caráter iminentemente repressivo e da total ausência de direitos individuais, principalmente os das mulheres, vinha merecendo uma certa simpatia da comunidade antiamericana e antiocidental, isso começa a cair por terra, ante o desastre da decisão de lançar um míssil contra um avião civil.

Isso digo, porque alguém, e não um soldado, do alto comando, se não o próprio comando da Guarda Revolucionária, ordenou o disparo do míssil que derrubou o avião. E mais, porque esse mesmo alto comando, e os próprios aiatolás, mesmo com as evidências escancaradas para o mundo, se recusaram, a permitir o acesso à “caixa preta” do avião, e responderam às evidências do abate, como se fosse uma ação conspiratória internacional, liderada pelos Estados Unidos, para enfraquecer o regime do país.

Com um regime fechado, onde quaisquer dissonância é respondida pela força das armas e das prisões, o Irã parecia ter encontrado, no ataque feito pelos Estados Unidos, que resultou na morte do general QasemSoleimani, a saída para a profunda crise econômica por qual passa e pelas divisões internas dentro do próprio regime. Tudo parecia convergir para uma união em nome da luta contra o Grande Satã, os EUA.

E ao responder, com bombardeiros de bases militares no Iraque, onde estão aquarteladas tropas de vários países, mas principalmente dos Estados Unidos, procurou reeditar a luta de David contra Golias. Só não contava com o Boeing 737 que iria viajar de Teerã para Kiev, na Ucrânia, com 176 civis a bordo. E com o fiasco, que resultou na morte de todos os passageiros e tripulantes, revelou ao mundo um regime teocrata em que a palavra do aiatolá é como a de Deus, não pode ser contestada dentro das fronteiras, e quem levanta quaisquer suspeitas, é tido como conspirador.

Hoje o Irã é um país totalmente inseguro, interna e externamente. Acusado de apoiar ações terroristas, vive em constante sobressalto com seus vizinhos árabes e judeus, e não granjeia a confiança da comunidade internacional. Internamente, tem que acionar suas forças repressoras para impedir quaisquer protestos da população por mudanças. Parou no tempo, como e qualquer ditadura.

O reconhecimento,forçado, de que um erro causou a morte de 176 inocentes é um forte abalo ao regime de Teerã que, nos últimos dias, tentou criar no país um sentimento de união nacional desde a morte de QasemSoleimani, transformado, de uma hora para outra, numa espécie de Imã (líder espiritual).Os protestos pedindo a renúncia dos líderes iranianos, entre os quais os comandantes da Guarda Revolucionária e do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, recomeçaram.

A revolta maior se dá pelo fato do próprio regime em esconder os fatos e mascarar uma realidade que não existia. Os aiatolás e os militares já sabiam que o avião ucraniano foi derrubado por um míssil, desde o dia em que o incidente aconteceu, 08 de janeiro. E mesmo assim, ante tamanha tragédia, optou-se pelo teatro. Coisa bem típica dos regimes ditatoriais.


*Adilson Fonsêca é Jornalista e escreve neste espaço sempre às quartas-feiras (adilson.0804@gmail.com)

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