Ponto de vista: Utopia e realidade

Por: Joaci Goes

Tribuna da Bahia, Salvador
16/01/2020 09:42 | Atualizado há 7 dias, 16 horas e 11 minutos

   

Ao competente arquiteto e engenheiro Valtércio da Silva Filho!

Em meus verdes anos, cri na possibilidade da construção de um mundo em que não existissem desigualdades econômicas, porque o Estado, monopolista da produção de todos os bens e serviços, proveria as necessidades gerais de modo equânime. Naquele momento, parecia que o mundo marchava nessa direção, com a União Soviética disputando a liderança do mundo socialista que contava, também, com partidos fortes em toda a Europa e nas demais regiões do Globo, com a única exceção dos Estados Unidos, invariavelmente fiéis ao ideário liberal, apoiado na crença da superioridade da iniciativa privada como fator de construção do progresso da humanidade. O slogan dominante para expressar esse sentimento crescente era “O mundo marcha para o socialismo”. Recordo-me que um dos mais festejados políticos baianos, com projeção nacional, sugeriu-me esquecer o inglês, língua que, segundo ele, dentro em pouco perderia importância, e cuidasse, o mais rapidamente possível, de aprender russo, idioma que logo seria de curso obrigatório, em escala planetária.

Mesmo depois das denúncias do genocídio levado a efeito por Stalin, a esquerda brasileira continuou sustentando que tudo não passava de invenção do imperialismo Ianque. Na China, Mao TseTung superava o holocausto russo, numa mortandade que abatia milhares de pessoas por dia. Jorge Amado foi proscrito pelas esquerdas quando abandonou o Partido Comunista, em 1955, depois que NikitaKruschev reconheceu as brutalidades de Joseph Stalin.

Numa visita de negócios que fiz à União Soviética, em 1969, conclui que o economista austríaco Ludwig von Mises estava certo no diagnóstico que fez da impossibilidade de sobrevivência do comunismo no livro que escrevera em 1922, sob o título Socialismo. Esse livro de Mises, como toda a sua obra, é cada vez mais estudada nas melhores universidades do primeiro mundo, enquanto O Capital e O Trabalho de Karl Marx são arquivadas e reverenciadas como as mais influentes nos destinos humanos entre as segundas metades dos Séculos XIX e XX, quando se deu a implosão do Império Soviético, daí decorrendo a redução abissal de sua influência e prestígio, a ponto de, como observa Norberto Bobbio, no seu conhecido livro Direita x Esquerda, todos os partidos comunistas europeus terem migrado para o centro, o centro direita ou a extremo direita.

Nada disso, porém, significa o fim da esquerda, palavra cujo conceito pouco tem a ver com o padrão agressivo e atrasado que vocifera no Brasil palavras de ordem que o mundo civilizado já proscreveu de seu ideário. O conceito moderno e construtivo de esquerdasignifica o reconhecimento de que a função de produzir, com qualidade, bens e serviços, é tarefa do setor privado. Ao Estado cabe o papel imprescindível e insubstituível de operar como uma grande agência reguladora, dedicada ao fomento do mérito e redução das desigualdades, mediante vigorosas políticas sociais de atendimento das necessidades básicas dos segmentos populacionais mais carentes, ao tempo em que prioriza o acesso a educação de alta qualidade aos de origem humilde, de modo a habilitá-los a competir, em igualdade de condições, na sociedade do conhecimento em que todos estamos inapelavelmente imersos. Tudo muito distante das práticas que temos assistido no Brasil, em que a manutenção na ignorância das camadas mais pobres parece resultar do propósito ideológico de cultivar a dependência das massas para fins eleitorais.

Além da corrupção desenfreada que figura como o elemento de proa desses grupos anéticos e populistas-eleitorais, caracterizando crime de genocídio, a manutenção de mais da metade da população brasileira sem acesso a saneamento básico de qualidade, razão pela qual sua longevidade é de apenas 54 anos, é outra dimensão assombrosa dos crimes de que é vítima a patuleia ignara, padecente, também, da síndrome de Estocolmo, na medida em que festeja os seus implacáveis algozes.

A manutenção, nos dias correntes, do sentimento utópico que gestou a velha esquerda só pode resultar de má-fé ou de juízo fraco.

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