Caso Alvim é 'mais um gol contra' para imagem do Brasil no exterior, veem analistas

O vídeo do secretário especial de Cultura, Roberto Alvim parafraseando o ministro da Propaganda nazista de Hitler já repercutiu também fora do Brasil


Tribuna da Bahia, Salvador
20/01/2020 06:40 | Atualizado há 8 dias, 8 horas e 3 minutos

   
Foto: Reprodução

O vídeo do secretário especial de Cultura, Roberto Alvim — demitido nesta sexta-feira (17/1) pelo presidente Jair Bolsonaro —, parafraseando o ministro da Propaganda nazista de Hitler já repercutiu também fora do Brasil e foi tema de reportagens internacionais e comentários nas redes sociais.

"A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", disse Alvim no vídeo, em frase semelhante à de Joseph Goebbels em 1933, segundo o biógrafo Peter Longerich.

"A arte alemã da próxima década será heróica, será de um romantismo ferrenho, será objetiva e sem sentimentalismos, será nacional com um grande pathos e será, ao mesmo tempo, igualmente obrigatória e vinculante, ou não será nada", disse o ministro nazista.

Para o brasilianista Brian Winter, editor-chefe da publicação America's Quarterly, o episódio é um novo arranhão na forma como o país é visto no exterior.

"É mais um gol contra na imagem internacional do Brasil e mais um incidente negativo depois da polêmica em torno da Amazônia (em referência ao recorde de queimadas e sua repercussão mundial) no ano passado e o tuíte de carnaval do presidente (quando, no Carnaval de 2019, Bolsonaro postou um vídeo pornográfico e depois tuitou a pergunta a respeito de 'golden shower')", disse Winter à BBC News Brasil.

"A maior parte do soft power do Brasil se queimou no ano passado com a crise ambiental", prossegue Winter, em referência ao termo usado para falar da capacidade de persuasão de um país por seus valores políticos e culturais, sem uso da força. "Mas em um mundo tão politizado e com as redes sociais, um incidente como esse (do vídeo) vai se desenrolar."

O também brasilianista Mark Langevin, do centro de estudos Brazil Works, nos EUA, concorda que o impacto externo é inferior ao das queimadas amazônicas, mas "acho que pode afetar a percepção do Brasil e do governo no mundo, na medida em que as pessoas informadas comecem a entender de Bolsonaro com esses elementos de extrema direita, fascistas", opina.

Além disso, diz ele, especificamente no âmbito cultural, o vídeo de Alvim "prejudica a reivindicação brasileira desse status de soft power que se reflete principalmente no que a maior parte do mundo considera uma cultura nacional extremamente atraente".

"Talvez mais importante", prossegue Langevin, "seja o fato de que esse problema não começou com o secretário. Ele começou após o impeachment de Dilma Rousseff e o esforço do presidente Michel Temer de eliminar o Ministério da Cultura. E Bolsonaro, claro, também tentou fazê-lo (a Secretaria Especial da Cultura acabou absorvida no atual governo pelo Ministério do Turismo). E isso envolve uma questão maior agora que é: esse governo, que é nacionalista e conservador, tentará disseminar a cultura brasileira orgânica, que todos reconhecemos, ou vai querer substituí-la, implementando algo que se parece mais com uma cultura colonialista europeia?"


Paula Adamo Idoeta e Giuliana Vallone

BBC News Brasil

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