Artigo: Roberto Alvin quis ser mais real que o rei

Por: Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
21/01/2020 06:40 | Atualizado há 13 horas e 55 minutos

   

Jair Messias Bolsonaro tem colecionado, enquanto presidente da República, erros e acertos. Começou errando mais do que acertando, equilibrou o jogo, com a experiência que só o templo nos concede, e hoje já tem o jogo a seu favor. Os avanços no campo econômico são inquestionáveis e pouco importa se a conta devesse ser entregue a Paulo Guedes e sua equipe. A escolha do titular da pasta foi do capitão e os méritos ou deméritos, quando algo não vai bem, são dele.

Sendo assim, chegamos ao caso Roberto Alvin, esse desqualificado cidadão que titular da Secretaria Nacional da Cultura se julgou com poderes ilimitados para até apagar e reescrever, conforme sua ótica, nossa cultura. Ele captou alguns sinais que lhe foram passados pelo presidente e tratou de apimentar suas ações com uma exagerada dose de ultradireitismo só encontrada em passado recente no nazismo.

E para não deixar dúvidas do seu pensamento e do desejo de abreviar essa transição entre nossa diversificada e elogiada cultura, mundialmente reconhecida pela sua abrangência, e o modelo que estava decidido a implantar em solo pátrio foi buscar nas catacumbas do nazismo um inspirador para os nefastos passos que pretendia dar. 

A presença de expressões de Joseph Goebbels, ex-ministro da Propaganda de Adolf Hitler, na boca de uma autoridade do Brasil manchou de vez o galhardão nacional, e o desfecho dessa ópera bufa, mal ensaiada e pessimamente executada, não poderia ser outro senão a exoneração do paspalhão da poltrona de secretário Nacional de Cultura.

Decisão que muito se assemelha a história do copo d'água pelo meio. Na visão de muitos, o presidente foi severo e agiu antes que a crise ameaçasse lhe queimar as canelas com labaredas vindas do inferno. Para outros, a ficha do presidente demorou até demais para cair e ele só encontrou a caneta parra assinar  a exoneração do desastrado auxiliar quando a sociedade já ameaçava um levante nacional ante uma figura tão pequena a ocupar um cargo tão relevante no governo.

De uma forma ou de outra, o Diário Oficial ganhou uma edição extra e horas depois de arder no inferno onde devem estar até hoje seus infelizes inspiradores, Roberto Alvin já não era mais Secretário Nacional da Cultura. Se quis ser mais real que o rei acabou tendo merecido castigo destinado aos títeres.

Mas há um detalhe em toda essa história que não há como o presidente passar à margem: ao pretender colocar em pé uma política cultural focada em valores demasiadamente conservadores, sem espaço para a saudável diversidade, corre o risco de inspirar o surgimento de mentes doentias capazes de um discurso tão estúpido como o desse nefasto ex-secretário da Cultura Nacional.

Mas para compensar as diabruras dessa criatura vale um louvor ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Participe da reunião da Sociedade Mont Pelerin, no Instituto Hoover, da Universidade de Stanford, nos EUA, Guedes proferiu uma das falas mais elogiadas do evento, demonstrando uma invejável visão do mundo, calçado no amplo equipamento conceitual que ostenta. Convocou para tanto, Acton  e Tocqueville, Fukuyama e Huntington, Kissinger e tantos outros.

Teceu avaliação precisa da conjuntura global e para onde caminha o mundo, com base em suas interações com protagonistas como Trump, Xi e Putin. E reservou ao presidente um perfil nobre. De um governante voltado para o campo dos valores da família e do amor à Pátria. Da alternância democrática, ordem de mercado e Estado de Direito - pressupostos de uma sociedade livre.

Quem sabe esse tal Alvin tivesse um dia ouvido uma fala dessas de Guedes e diria menos asneiras ocupando uma pasta tão relevante para o país.  


Paulo Roberto Sampaio é diretor de redação da Tribuna

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