Falta de qualificação afasta trabalhador da indústria brasileira

A pesquisa foi realizada de 1º a 11 de outubro de 2019, com 1.946 indústrias de transformação e extrativas de todo o país. Desse total, 794 são pequenas, 687 são médias e 465 são de grande porte


Tribuna da Bahia, Salvador
12/02/2020 10:39 | Atualizado há 8 dias, 16 minutos

   
Foto: Reprodução

Por: Lício Ferreira


Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada, nesta terça-feira 11, revela que “cinco, em cada dez indústrias brasileiras, têm dificuldade em contratar trabalhadores por falta de qualificação desse profissional para a vaga existente”. A pesquisa foi realizada de 1º a 11 de outubro de 2019, com 1.946 indústrias de transformação e extrativas de todo o país. Desse total, 794 são pequenas, 687 são médias e 465 são de grande porte.

Intitulada Sondagem Especial – Falta de Trabalhador Qualificado, o estudo da CNI mostra que a escassez de mão de obra qualificada afeta, principalmente, a indústria de biocombustíveis, onde 70% das empresas dizem ter dificuldades com a qualificação dos trabalhadores. Em seguida, vêm as indústrias de móveis (64%), de vestuário e de produtos de borracha (empatadas com 62%), têxtil e de máquinas de equipamentos (60% cada). Ainda segundo a pesquisa, a função com maior carência de trabalhador qualificado é a de operador, que afeta 96% das empresas que relataram o problema.

A lista divulgada no site da EBC segue com empregados de nível técnico, que atinge 90% das indústrias que enfrentam a falta de empregados com a formação adequada. Também há escassez de qualificação nas áreas de vendas e marketing (82%); administrativa (81%); engenharia (77%); gerencial (75%); e pesquisa e desenvolvimento (74%). Para a CNI, a falta de trabalhadores qualificados deve agravar-se à medida que a economia se recuperar, tornando-se um dos principais obstáculos para o aumento da produtividade e da competitividade no país.

NÓ CRÍTICO

Essa questão – que parece atual - vem se arrastando já há alguns anos e foi diagnosticada em um estudo de dois economistas do Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA): Edgard Luiz Gutierrez Alves e Carlos Alberto dos Santos Vieira. Para eles, a previsão é que cada vez mais empresas adotarão processos modernos de produção e, portanto, a qualificação profissional do trabalhador poderá constituir-se em nó crítico para a expansão desses processos.

“Por outro lado, os dados sobre o grau de instrução da força de trabalho não são nada animadores. O país tem, portanto, um enorme obstáculo a vencer: o de qualificar, em tempo coerente com as necessidades, os trabalhadores para assegurar-lhes empregos de qualidade e garantir o sucesso do processo de modernização produtiva” dizem.

Os dois estudiosos lembram, ainda, que essa tarefa esbarra na superação dos seguintes pontos de estrangulamento: “os baixos níveis de escolaridade dos trabalhadores; o grande número de jovens egressos, a cada ano, do sistema educacional, com preparo inadequado para enfrentar as exigências do mercado de trabalho; a desatualização e ineficiência do sistema de formação profissional para atender com rapidez às mudanças tecnológicas e gerenciais; a inexistência de metodologias de ensino (já testadas) adequadas às novas necessidades do setor produtivo e ao perfil educacional desejado do trabalhador; e a inexistência do componente de qualificação profissional na política pública de combate ao desemprego”.

CURTO PRAZO

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) sugere esforços de capacitação e de requalificação, no curto prazo, e melhoria da qualidade da educação básica no Brasil, com prioridade para a educação profissional, no médio e no longo prazo. “A baixa qualificação, ressalta o levantamento, dificulta a adoção de novas tecnologias em 31% das grandes indústrias e em 13% das indústrias de menor porte. Entre as empresas com carência de mão de obra qualificada, 72% afirmam que a busca por eficiência e pela redução de desperdício é comprometida; 60% dizem que a manutenção ou o aumento da qualidade dos produtos têm prejuízos; e 27% afirmam que deixam de aumentar a produção”.

Num momento em que a indústria global atravessa a transição para a indústria 4.0, marcada pela tecnologia, a CNI pede que a educação básica dê ênfase às áreas de ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática. “O ensino básico também deve estimular a interdisciplinaridade (utilização simultânea de várias áreas do conhecimento), a tomada de decisões e a resolução de problemas”. O estudo destaca a baixa inserção da educação profissionalizante no país, quando o percentual chega a apenas 9,7% .

Ainda segundo a pesquisa, 91% das empresas com escassez de trabalhadores qualificados promovem políticas e ações para lidar com o problema. No destrinchar dos dados o que se observa é o seguinte: “85% das empresas afetadas pelo problema realizam treinamentos dentro da própria empresa; 42% promovem capacitação fora da empresa; 28% fortalecem a política de retenção do trabalhador, oferecendo salários e benefícios; e 13% delas fecham parcerias com instituições de ensino já estabelecidas. Mesmo capacitando a mão de obra, 53% dos empresários afirmam que a má qualidade da educação básica cria dificuldades nos investimentos em formação e 49% apontam baixo interesse dos trabalhadores nos programas de aperfeiçoamento”.

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