ARTIGO: Guedes pode unir mais os brasileiros

Por: Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
18/02/2020 06:30 | Atualizado há 20 dias, 22 horas e 58 minutos

   

O ministro da Economia, Paulo Guedes, é quase uma unanimidade nacional. Operoso, atuante, está dando uma bela sacudida em nossa economia. Ajudou a frear a inflação, tem passado confiança ao investidor e com isso os empregos estão voltando. Diria, sem medo de errar, que é o melhor ministro do governo Bolsonaro, superando, inclusive, em resultados, o da Justiça, Sérgio Moro.

Mas ninguém é perfeito e algumas das idéias de Guedes atingem em cheio a já sofrida classe média. A volta da CPMF, com rótulo novo e nova nomenclatura é uma delas, que ainda bem, não prosperou, ao menos ainda. Pode ser importante para o país, mas penaliza o cidadão comum com mais um imposto e este pago exaustivamente, a cada operação. Mas já que ainda não veio, não percamos tempo falando dele.

Nos concentremos na declaração infeliz da semana passada, ao falar do dólar alto, batendo quase nos R$ 4,40, o oficial, pasme, e insinuar que com ele barato até empregada doméstica estava indo para a Disney.

Coitadas das empregadas domésticas, estigmatizadas na infeliz frase do titular da pasta da Economia. Mas coitados de nós, classe média, atingidos em cheio pela indiferença e descaso do titular da pasta com a velha e sofrida classe  que passa anos sonhando em ir a Disney, a Paris ou mesmo Portugal.

Ao construir a tese de que o dólar alto faz bem ao Brasil, Guedes não está errado. Faz, sim, e muito bem ao país e em especial ao agronegócio, aos que têm seu negócio vinculado as commodities, as exportações de grãos, aos que possuem gigantescas glebas de terra em regiões férteis, sonho impossível para um pobre assalariado. Estes ganham muito e o Brasil, a sua parte nesse bolo.

Não tenho estatística precisa para os números que se seguem, mas estimo por exemplo que no oeste baiano, berço do agronegócio no estado, nos três principais municípios produtores de grãos para exportação - Luis Eduardo Magalhães, São Desiderio e Barreiras - tenhamos 3 mil beneficiados por esse dólar alto. 3 mil baianos, ou nem bem assim porque a maioria nem baiano é, contra 13 milhões de baianos que nasceram ou habitam essa Bahia afora.  

São aqueles que pelejam ano após ano por uma viagem ao exterior para realizar o sonho de um filho ou uma filha, que economizam alguns trocados anos a fio, que se valem de metade do décimo terceiro para ajudar na passagem, mas que com o dólar nas alturas vêem esse sonho cada vez mais longe, frustrando a família, restando contemplar os olhos marejados das crianças ante o adiamento, mais uma vez, daquela viagem tão desejada.

É compreensível que o ministro Paulo Guedes pense no Brasil como um todo e até por circular em meio ao PIB nacional, não entenda nem se sensibilize com o sonho das domésticas ou da sofrida classe média nacional, mas há tempo e forma de corrigir essa escorregada, reconquistando o aplauso de todas as classes, indistintamente.

E a solução não parece tão difícil: por que não equiparar o dólar turismo ao dólar comercial para quem vai ao exterior, com o limite de 1.000 dólares por bilhete emitido. A venda desse dólar especial seria restrita a quem realmente comprovasse a viagem e, passaporte na mão, restrita a uma por ano.

Seria uma forma de estabelecer uma visão macro sobre nossa economia, fazendo a festa dos felizardos latifundiários do agronegócio, mas sem virar a cara para as domésticas e a classe média, lembrada apenas na hora de pagar a conta. Ou não?


* Paulo Roberto Sampaio é diretor de Redação da Tribuna.

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