ARTIGO: Nem Messias de arma na mão

Por: Cláudio Pimentel


Tribuna da Bahia, Salvador
21/02/2020 06:30 | Atualizado há 12 dias, 10 horas e 22 minutos

   

“A tristeza é senhora. Desde que o samba é samba é assim”. Caetano Veloso

Colocar as barbas de molho deveria ser o melhor programa de políticos nesse Carnaval, notadamente aqueles que exibem um certo esgar à importância devida a negros, índios e mulheres no desenvolvimento econômico e social do país; e que torcem o nariz quando ouvem palavras como pobre, igualdade, emprego, saúde, meio ambiente, cultura... Habitués ano-a-ano em rodas, saraus e camarotes momescos, se imaginavam uma festa com temperatura amena, pelo menos nas críticas em comparação aos dois carnavais anteriores, podem tirar os santinhos da chuva, pois a julgar pelos temas escolhidos por algumas escolas de samba, blocos e trios do Rio, São Paulo, Salvador e Recife, a avenida vai ferver e queimar ainda mais a já tão queimada imagem de vossas excelências.

O enredo que chama a atenção é o da Estação Primeira de Mangueira, escola campeã do Carnaval do Rio, no ano passado: “A verdade vos fará livre”. O nome é estranho para enredo, mas é a cara da hipocrisia que se abateu no país quanto a escrúpulos religiosos e respeito às diferenças. Traz até uma palavra pouco usada hoje por autoridades: verdade. A ideia da escola é fazer o público refletir sobre a volta de Jesus à Terra. Um Jesus que irá se identificar e irmanar com os mais pobres, principalmente os das favelas, maiores vítimas de preconceitos de toda ordem, sobretudo o religioso. O estribilho do samba é de arrasar: “Favela pega a visão; não tem futuro sem partilha; nem Messias de arma na mão. Favela pega a visão; eu faço fé na minha gente; que é semente do seu chão”. A menção a Jesus não é uma exclusividade da Mangueira. Outras escolas no Rio e São Paulo também estarão desfilando com o Nosso Senhor do lado.

Aliás, por falar nisso, foi Ele quem já protagonizou o maior protesto em um desfile de escola de samba da história.

Em 1989, na antevéspera do desfile na Sapucaí, a Beija-Flor, cujo enredo era “Ratos e urubus, larguem minha fantasia!”, foi sacudida com a decisão de um juiz, a pedido da Cúria Metropolitana, que censurou a exibição do Cristo Redentor vestido em farrapos, num carro alegórico. A imagem fazia parte da ala dos mendigos catadores de lixo. A bomba, que parecia não ter solução, acabou empurrando Joãosinho Trinta a uma ideia ousada e genial. Envolta num plástico preto, a alegoria entrou na avenida com uma faixa branca gigante com a inscrição: “Mesmo proibido, olhai por nós!...”. Imediatamente transformou-se na imagem mais conhecida do carnaval brasileiro e virou épico mundial na defesa dos mais necessitados. Na transmissão da TV, mediante a possibilidade de Trinta ser preso, o comentarista Fernando Pamplona, estupefato com o que via, gritava: “Eu vou para a cadeia com o João!”, “Eu vou para a cadeia com o João!”. A imagem hipnotizou o mundo. E a Justiça esqueceu o carnavalesco.

Não se sabe exatamente quando o samba e a escola de samba nasceram, mas hoje é possível dizer que ambos nasceram com o mesmo DNA: revolucionário. Nasceram de um povo de maioria negra, vítima de injustiças seculares, criador de uma cultura que até hoje sofre com o preconceito das classes mais abastadas. Negros e descendentes que pouco-a-pouco estão sendo afastados dessa grande festa. Hoje, se não for artista ou músico, estará nos bastidores do evento, como catadores, ambulantes, carregadores, arrumadeiras, costureiras, cozinheiros, garçons e tantos outros que prestam assistência em camarotes vips. De protagonistas passaram a subalternos de um espetáculo que começou a partir da integração, há mais de cem anos, de outras manifestações culturais como o Entrudo, Zé-Pereira, Sociedades, Cordões, Cucumbis e Ranchos, numa mistura entre religioso e profano. Portanto, diante dos últimos exemplos de desequilíbrio emocional, descalabro político, falta de decoro, ignorância, preconceito, misoginia e ódio gratuitos, o Carnaval nas ruas do Brasil promete muita surpresa nesse inseguro e titubeante início de 2020. Material não falta, talquei?!

Sugestão de leitura: As Escolas de Samba do Rio de Janeiro, de Sergio Cabral, Lumiar Editora, 1996.


Cláudio Pimentel é jornalista.

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