Blocos afros exigem respeito e equidade das autoridades

“O Olodum, Ilê e os Filhos de Gandhy, são blocos tradicionais para a cultura baiana e precisam ser valorizados de forma devida", diz Lucas Di Fiori, revoltado pela maneira como estão sendo tratados nesse que é denominado o Carnaval dos Carnavais


Tribuna da Bahia, Salvador
26/02/2020 11:50 | Atualizado há 4 dias, 1 hora e 46 minutos

   
Foto: Reprodução

Por: Lício Ferreira


“O Olodum, junto com o Ilê e os Filhos de Gandhy, são blocos tradicionais para a cultura baiana e precisam ser valorizados de forma devida. A minha opinião, é que eles não devem entrar em editais e que sejam contemplados da mesma forma como o Governo do Estado contrata os artistas de fora e paga os cachês diretamente entre R$ 600 e R$ 800 mil. A gente sabe que esse valor que nos é dado, a cada ano, não é suficiente. A estrutura de um bloco como Olodum é cara. Um bloco desses requer um bom trio; um bom carro de apoio; e uma boa segurança. E, nem sempre, esse dinheiro que vem, dá para suprir as nossas despesas. E a gente ainda continua na luta, na briga, pela venda dos abadás. Pessoalmente eu acho, que a gente deveria valorizar aqueles que, realmente, nos valorizam. A gente devia buscar um espaço fora, onde o Olodum é muito mais respeitado do que na sua própria cidade, Salvador”.

Essas declarações são do cantor Lucas Di Fiori, que estava revoltado pela maneira como o Olodum está sendo tratado nesse que é denominado o Carnaval dos Carnavais. Em cima do trio, em pleno Farol da Barra, ele discorreu sobre o carnaval comemorativo do bloco que deu voz e vez às mulheres, em um ano de muita violência e de notícias quase que seguidas de feminicídios. “São 40 anos de história do bloco Olodum, que nasceu nas ruas do Maciel e ganhou o mundo. Estamos hoje com 40 países visitados. E ainda esse ano, logo depois do Carnaval, estaremos seguindo para a Costa do Marfim. Possivelmente, até o final do ano deveremos ir à China, para uma apresentação no grandioso Teatro de Pequim”, finalizou.

Do lado de fora do bloco – um pouco arredio com a mídia – e aguardando a saída para o desfile, o presidente João Jorge também rasgou o verbo. “Está faltando respeito. Merecimento. Precisa que a sociedade e as autoridades compreendem a dimensão do bloco Olodum, que está fazendo 40 anos de Carnaval. A Bahia não sabe o que é respeito. A Bahia sabe o que privilégio. Essa história é ainda de Caramuru, Catarina Paraguaçu, e dos índios que depois de ter fundado essa cidade, desapareceram. E nós, da população negra e africana, deu a essa cidade tudo o que ela é. Então, é assim. O que a gente está exigindo, é somente respeito e equidade. É claro que isso é uma luta. Salvador não sabe o que é equidade e não sabe o que é respeito”.

FILHOS DE GANDHY

Em plena Rua Chile, antes do início do desfile do afoxé Filhos de Gandhy e sob o toque envolvente do ijexá, encontramos com o diretor do bloco, João Paulo Gomes, que nos disse em cima do trio. “As verbas que o Governo do Estado nos oferece – anualmente - é para a manutenção do afoxé, no Carnaval de Salvador. Até porque, as empresas privadas não têm interesse em ajudar as nossas instituições tradicionais”. E antecipou uma medida, que ainda se encontra em estudo: “No próximo ano, vamos ter que buscar parcerias privadas para conseguir manter o bloco, por três dias, na avenida”, disse resignado.

Pronto para entrar em ação, mas sempre solicito, conversamos com o folião André Rodrigues dos Santos. Ele disse que a falta de verbas oficiais já era do conhecimento de todos que participam da agremiação carnavalesca. “Estamos sem patrocínio. Mas continuamos firmes e fortes ao lado de nosso bloco querido. Para quem gosta do Olodum – como eu gosto - ter ou não apoio não interfere em nada na nossa alegria. O Olodum é como se fosse uma religião para todos nós. A gente espera que, no próximo ano, tenha patrocínio. Até porque, as atrações que vêm de fora, recebem normalmente apoios governamentais. O Olodum é história. O Olodum tem 40 anos de carnaval e merecia um pouco mais de respeito dos nossos governantes. Eu ouvi falar que não houve o dinheiro, por falta de documentação no edital. Mas eu acho que eles deveriam facilitar a vida do bloco, por força da sua representatividade no Brasil e no Mundo. Sei, ainda, que não é só o Olodum que está sofrendo com essa desconsideração. Os outros blocos afros também estão sentindo a mesma dificuldade”, finaliza.

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