“Não acredito em colapso do sistema de saúde da Bahia”

Fábio Vilas-Boas não acredita que o sistema de saúde da Bahia entrará em colapso por conta do coronavírus


Tribuna da Bahia, Salvador
23/03/2020 09:10 | Atualizado há 16 dias, 15 horas e 8 minutos

   
Foto: Reprodução

Por: Rodrigo Daniel Silva e Henrique Brinco - Repórteres - Guilherme Reis - Editor de Política e Paulo Roberto Sampaio - Diretor de Redação


Embora o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tenha dito que o sistema de saúde do país entrará em colapso em abril por causa do surto de coronavírus, o secretário de estadual de Saúde, Fábio Vilas-Boas, não acredita que a situação acontecerá na Bahia. “Eu não acredito (em colapso no estado). Nós nos preparamos com muita antecedência. Tem 60 dias que estou trabalhando nisso. (...) Nós já temos todos os hospitais mapeados para absorver a próxima onda de internação. Estamos preparando outros hospitais para absorver eventuais necessidades”, declarou, em entrevista à Tribuna. Fábio Vilas-Boas disse, ainda, que o governo da Bahia se preparou para o “pior cenário”, mas torce para que não aconteça. Também que informou que pacientes com coronavírus, que estejam no interior, serão transferidos para Salvador. “Nós queremos fazer com que esses pacientes não contaminem outros hospitais e outros profissionais de saúde”, pontuou. O secretário negou rumores de que há subnotificação no estado. À Tribuna, o secretário anunciou ainda que remédios, que podem ajudar a tratar pessoas com a doença, serão testados na Bahia. O titular da Sesab criticou a postura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante a crise e afirmou não acreditar que as eleições municipais serão suspensas.

Tribuna – Como o senhor avalia a disseminação do coronavírus na Bahia?

Fábio Vilas-Boas – Nós estamos com uma curva de crescimento dentro do previsto. Nós temos um coeficiente de aumento de 33% dos casos por dia em média. Isso é dentro do previsto. Acredito que com os esforços que iniciamos mais intensos a partir da semana passada e, principalmente, nos últimos dias, nós iremos conseguir reduzir, achatar, a velocidade de crescimento.

Tribuna – A Itália sofre mais hoje do que a China, onde começou a doença. O senhor acha que o Brasil será mais ou menos afetado do que a Europa?

Fábio Vilas-Boas –É chute. É uma avaliação que é baseada apenas em expectativas, algumas variáveis, hipóteses não consolidadas. Há várias variáveis que nos diferenciam da Europa e da China. Nosso clima é mais quente. A população é mais dispersa. Mas, por outro lado, onde existe concentração urbana, que é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro, o sistema de transporte é muito ruim. As pessoas ficam próximas umas das outras. Há uma grande concentração de verticalização de edificações nos centros urbanos. Isso tudo fala contra. Se fizer uma matriz de análise, as ameaças para o Brasil seriam essas. E as forças seriam: o clima tropical. Acredite-se que isso contribua para a diminuição da transmissão.

Tribuna –Há um prazo para haver o controle da disseminação da doença?

Fábio Vilas-Boas – A gente espera que dentro de 60 dias já se consiga enxergar uma inflexão negativa. Ou seja, a curva vai começar a cair.

Tribuna – Muitos equipamentos estão sendo disponibilizados para o atendimento de casos de coronavírus. Entre eles, estão o Hospital Espanhol, o Fazendão e o Centro de Convenções. O governo trabalha com a piora do atual cenário?

Fábio Vilas-Boas – Não. A gente trabalha com o pior cenário possível. Não com a piora. A gente se prepara para o pior e torce para que aconteça o melhor.

Tribuna – Além dos citados, o governo prepara novos equipamentos para atender pacientes com coronavírus?

Fábio Vilas-Boas – Nós estamos trabalhando para antecipar a entrega do Hospital Metropolitano e do Hospital Clériston Andrade em Feira de Santana. A gente pode conseguir o Clériston no dia 30 de maio, e o Metropolitano também em meados de maio. Um pouco antes do Clériston.

Tribuna – Há risco de um colapso de sistema de saúde da Bahia?

Fábio Vilas-Boas – Eu não acredito. Nós nos preparamos com muita antecedência. Tem 60 dias que estou trabalhando nisso. Garantimos o funcionamento do Laboratório Central (de Saúde Pública – Lacen). Nosso Laboratório Central é hoje o mais produtivo do Brasil. Isso está permitindo análise com liberação de resultados dentro de 24 horas enquanto outros estados demoram cinco, sete dias. Outros nem sequer conseguem fazer a análises nos seus laboratórios centrais. Preparamos um plano de continência hospitalar para preparar a chegada de casos. Vale ressaltar que hoje (sexta-feira – dia 20) não temos nenhum paciente com coronavírus internado na rede pública. E nós já temos todos os hospitais mapeados para absorver a próxima onda de internação. Estamos preparando outros hospitais para absorver eventuais necessidades mesmo que não venham a ser afetadas.

Tribuna – A Justiça autorizou, na semana passada, que o governo use temporariamente o Hospital Espanhol para atender casos de coronavírus. Em quanto tempo a unidade de saúde estará funcionando?

Fábio Vilas-Boas – A gente tem a expectativa de que dentro de 30 dias consiga colocar o hospital para funcionar. Mas, antes disso, nós temos vários leitos da rede pública preparados para fazer frente a essa necessidade. O hospital tem alguns problemas na área de infiltração. É um problema simples. De modo geral, o hospital está muito bem conservado. O maior problema para a gente resolver é o sistema de ar-condicionado nas UTIs, mas já estamos providenciando.

Tribuna – O que levou o governo da Bahia a antecipar a compra de respiradores?

Fábio Vilas-Boas – Porque nós temos que nos preparar para o pior cenário possível. Nós temos que ampliar a rede. Nenhum estado tem respiradores de reserva, guardados, como a Bahia. Nós temos em estoque 150 respiradores e estamos adquirindo 400.

Tribuna – O governo informou que já há casos de transmissão comunitária do coronavírus na Bahia. Que medidas devem ser adotadas agora para evitar ainda mais a disseminação da doença?

Fábio Vilas-Boas – Nós temos caso de transmissão comunitária em Salvador. É restrito a Salvador. Não é no estado da Bahia. O que se fez foi ampliar para o estado inteiro as regras de quantidade de pessoas nos eventos. Estamos acertando o cerco na entrada de voos e ônibus vindos do estado de São Paulo. E reforçando, com apoio da imprensa, a recomendação para que as pessoas evitem deslocamento, principalmente, no transporte urbano coletivo para evitar o contato umas com as outras. O conceito de distanciamento social tem que ser reforçado.

Tribuna – O que falar diante das especulações de que casos estariam sendo subnotificados na Bahia?

Fábio Vilas-Boas – Não sei de onde existiu essa especulação. Todos os casos são submetidos à confirmação dentro da Lacen. Se tem um caso positivo no Hospital Aliança, um laboratório privado, tem que mandar para o Lacen. O Lacen recebe entre 100 e 150 exames todos os dias por turno. E os resultados positivos são publicados. Não existe essa história de subnotificação. Nós somos um dos poucos estados, talvez, o único, que está conseguindo fazer o processamento de amostra e soltar o resultado em 24 horas.

Tribuna – Fechar as fronteiras é uma medida necessáriamesmo?

Fábio Vilas-Boas – Sem dúvida. Fechar as fronteiras estaduais e as fronteiras nacionais. As fronteiras estaduais para proteger estados de outros estados que possuem uma quantidade maior de caso. Isso é fundamental.

Tribuna – Com caso de transmissão comunitária, a Bahia deixará de fazer teste do coronavírus?

Fábio Vilas-Boas – Não. Pelo contrário, nós continuamos a fazer o teste. Inclusive, ampliar, porque a Bahia é muito grande. Da mesma que forma que tem transmissão comunitária em Salvador, temos municípios que não têm caso nenhum. Nós temos que trabalhar com o conceito de regiões de saúde e manter essas regiões bloqueadas. Quanto mais a gente conseguir preservar cada uma das 28 regiões mais a gente vai conseguir diminuir a velocidade e progressão da curva.

Tribuna – O governo tem uma estimativa de quantas pessoas serão infectadas na Bahia?

Fábio Vilas-Boas – Isso não existe. Ainda é muito cedo para fazer essa projeção. As curvas de crescimento estão começando a ter algum grau de consolidação agora. A gente não sabe como isso vai caminhar. A gente está se preparando para ter, ao longo dos meses, algumas centenas de casos na Bahia. Mas não é simultâneo. Na medida em que vai curando uma parte, outra parte vai ficando doente. O esforço nosso está no sentido de diluir a quantidade de pessoas (doentes) ao longo de meses.

Tribuna – Há casos de pessoas que tiveram a doença mais de uma vez?

Fábio Vilas-Boas – Até o momento, isso não se sabe no mundo, porque é a primeira vez que tem esse vírus. Mas não faz sentido. A expectativa é que se tenha imunidade para sempre.

Tribuna – Por que o coronavírus ganhou essa proporção tão grande?

Fábio Vilas-Boas – Porque essa gripe não tem vacina. Esse é um vírus novo. O H1N1 quando entrou foi a mesma coisa. Causou muitas mortes e ainda causa porque as pessoas não estão se vacinando.

Tribuna – As pessoas que forem infectadas no interior serão tratadas no local ou haverá a necessidade de serem transferidas para Salvador?

Fábio Vilas-Boas – A expectativa é que essas pessoas todas sejam trazidas para Salvador para que a gente possa concentrá-los no Hospital Couto Maia e nos outros hospitais. Nós queremos fazer com que esses pacientes não contaminem outros hospitais e outros profissionais de Saúde. Nós temos uma maior e mais moderno hospital de doenças infectocontagiosas do país (o Couto Maia).

Tribuna – Quantas pacientes podem ser transferidas do interior para Salvador?

Fábio Vilas-Boas – Também não sabemos. O interior tem muito menos casos do que Salvador. O mais lógico é que Salvador seja a cidade mais afetada pela concentração urbana, pelo tipo de transporte público, com ônibus e metrô sempre cheios. No interior, não tem isso. A probabilidade das pessoas entrarem em contato físico com outras é muito menor no interior. Vale a pena até dizer que, se as pessoas puderam se manter no interior junto com parentes, fique no interior.

Tribuna – Os detentos vão precisa ser soltos para evitar a disseminação da doença nos presídios?

Fábio Vilas-Boas – Nós fizemos reuniões com os secretários de Administração Penitenciária e de Segurança para delinear um plano para atuar nos presídios e delegacias que possuem prisões temporárias. Isso (de soltar presos) está sendo avaliando. Os presos que estão em regime semiaberto está sendo avaliada a possiblidade de eles dormirem em casa, porque hoje eles dormem no presídio. Isso está sendo avaliado, mas ainda não houve uma conclusão por parte da Secretaria de Administração Penitenciária.

Tribuna – Como está o diálogo como o Ministério da Saúde?

Fábio Vilas-Boas – O Ministério tem adotado as medidas corretas. O secretário de Vigilância da Saúde, Wanderson (de Oliveira), é uma pessoa altamente qualificada. E nós temos apoiado o ministério mesmo eventualmente divergindo de uma ou outra posição. Mas, de modo geral, os secretários têm dado todo o apoio e suporto.

Tribuna – A realidade pode estar sendo mascarada pelo governo federal para evitar uma maior comoção nacional?

Fábio Vilas-Boas – Eu acho que não. A situação é essa mesmo.

Tribuna – Como o senhor observa a postura do presidente Jair Bolsonaro de minimizar o surto do coronavírus?

Fábio Vilas-Boas – Acho uma atitude irresponsável. Absolutamente irresponsável. A gente tem claramente um quadro de uma epidemia se alastrando pelo Brasil. O presidente, de forma irresponsável, expôs as pessoas próximas ao Palácio do Planalto (no dia da manifestação pró-governo e anti-Congresso). Até aquele momento, ele não sabia que o exame dele (para coronavírus) era negativo. Se fosse positivo, podia ter passado para outras pessoas. Eu lamento que o Brasil neste momento esteja acéfalo, sem um líder, entregue a uma situação grave em que de repente nós podemos entrar numa situação de colapso das instituições pela falta de uma liderança nacional.

Tribuna – O senhor acha que será necessária a suspensão das eleições?

Fábio Vilas-Boas – Eu acho que não. As eleições estão muito longe. Lá pelo mês de junho (o número de casos) já estará entrando em declínio. Isso tudo deverá demorar cinco meses considerando que começou em fevereiro. Julho já deve estar no fim.

Tribuna – Como o senhor tem visto as notícias de que já há remédios contra o coronavírus?

Fábio Vilas-Boas – São muito alvissareiras. São auspiciosas. São notícias que nos animam e nos alegram. Mas é preciso ser crítico, do ponto de vista de cientifico, para saber o que realmente funciona. O Conselho Federal de Medicina soltou uma autorização para que seja feito com critérios de algumas combinações de medicações, antibiótico, antivirais. O grau de evidência é muito frágil. Aqui na Bahia criamos um comitê científico para reunir especialistas e vamos desenhar um protocolo para tratar as pessoas e para que a gente possa colher dados científicos. Vamos dar o remédio e acompanhar para saber se está funcionando.

Tribuna – Quais as providências que as pessoas com suspeita de coronavírus devem tomar?

Fábio Vilas-Boas – Suspeita de coronavírus precisa ter contato com alguém que tem. Se não teve contato com ninguém e está com um quadro leve de gripe, não precisa fazer nada. Ficar em casa e tomando os remédios.

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