Guedes diz que 'cartão vermelho' de Bolsonaro não foi para ele

Mais cedo, presidente discordou da equipe econômica sobre alternativas para bancar o programa. No domingo, ao G1, secretário cogitou congelamento de aposentadorias e pensões

Tribuna da Bahia, Salvador
15/09/2020 15:47 | Atualizado há 7 dias, 2 horas e 42 minutos

   
Foto: Reuters

O ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de "barulheira" as discordâncias entre o presidente Jair Bolsonaro e integrantes da equipe econômica sobre meios de financiar o programa social Renda Brasil. O ministro também afirmou que não foi endereçado a ele o "cartão vermelho" citado pelo presidente.

Mais cedo nesta terça-feira (15), Bolsonaro disse que "está proibido" dentro do governo falar do programa Renda Brasil. O programa chegou a ser discutido como um substituto do Bolsa Família.

No entanto, propostas de equipe econômica sobre cortes de gastos noutras áreas para financiar o Renda Brasil não agradaram ao presidente. Bolsonaro disse que o Bolsa Família vai continuar.

O presidente também criticou tentativas de se buscar receitas para o Renda Brasil a partir do congelamento de aposentadorias e pensões.

Em entrevista ao G1, no domingo (13), o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, disse que essas medidas eram avaliadas pela equipe econômica. Outra alternativa era reduzir o valor do seguro-desemprego.

Bolsonaro chamou as medidas de "devaneio" e disse que daria um "cartão vermelho" a quem lhe apresentasse essas propostas.

Guedes falou sobre a situação em uma videoconferência sobre reformas e o futuro da economia brasileira após a pandemia.

"Hoje [terça-feira] teve essa barulheira toda. Estamos fazendo conexões de pontos que não estão conectados. São estudos que fazemos, estamos assessorando. Várias simulações e estudos são feitos. Tratamento seletivo da informação distorce tudo", afirmou Guedes.

O ministro disse ainda que conversou com o presidente na manhã desta terça-feira.

"Como todos jornais deram isso hoje, que o presidente vai tirar dinheiro dos idosos, frágeis e vulneráveis para passar aos paupérrimos, o presidente repetiu o que tinha dito antes. E levantou um cartão vermelho, que não foi para mim. Conversei com o presidente hoje cedo. Lamentei muito essa interpretação", continuou o ministro.

'Ilação'

Em sua fala, Guedes lembrou que o Renda Brasil aproveitaria a experiência do auxílio emergencial para continuar fazendo pagamentos a pessoas vulneráveis socialmente acima do valor do Bolsa Família. O auxílio, criado para ajudar trabalhadores durante a pandemia, será pago até o fim do ano.

O ministro disse que o governo estuda maneiras de fazer uma "aterrisagem" após o fim do auxílio emergencial. O termo se refere à necessidade de setores mais vulneráveis continuarem recebendo alguma ajuda pública.

Ele defendeu medidas de desindexação, com as quais o governo poderia fazer que benefícios atualmente pagos não sejam corrigidos, por exemplo, pelo salário mínimo.

Para Guedes, a desindexação deveria ser geral e, segundo ele, é uma "ilação" dizer que atingiria somente os benefícios para os mais pobres.

"Se desindexarmos todos os gastos do governo, há uma parte que pega os mais vulneráveis, idosos, BPC [Benefício de Prestação Continuada]. Fala assim: 'O governo está tirando dos idosos e mais frágeis para fazer o Renda Brasil'. Isso é uma ilação. Não é isso que está no pacto federativo [proposta de emenda à Constituição enviada ao Congresso]. Era uma desindexação de todos os gastos , não dos mais pobres", disse o ministro.

O ministro confirmou o fim dos planos de criação do Renda Brasil, relembrando a orientação do presidente Bolsonaro de não retirar dinheiro dos pobres para dar aos paupérrimos.

"Já que continuam dizendo que continuo querendo tirar dinheiro dos pobres, para o Renda Brasil, vou deixar claro: 'Não vou fazer isso'", disse ele, citando Bolsonaro.

"E aí [o presidente] descredenciou a ideia do Renda Brasil. Não vai ter isso. Acabou. Estão distorcendo tudo. Estão acusando o presidente de demagogia, de tirar dinheiro do pobre para dar para o mais pobre ainda. Consolidação de programas sociais já aconteceu no passado. Para os mais desfavorecidos. Começou uma notícia que não é o que está na cabeça, politicamente, do presidente. Se estão interpretando assim, não tem isso", acrescentou o ministro.


Alexandro Martello, G1

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