ARTIGO: Licença para ser vivíssimo

Por Cláudio Pimentel

Tribuna da Bahia, Salvador
16/01/2021 06:30 | Atualizado há 10 dias, 3 horas e 19 minutos

   

Na contracapa de “Os últimos soldados da Guerra Fria”, do jornalista Fernando Morais, lançado, em 2011, pela Companhia das Letras, o editor derrama-se em elogios: “Uma história de peripécias dignas dos melhores romances de espionagem”. Não estava exagerando. Afinal, nove anos depois, as quatrocentas páginas do livro viraram filme: “Wasp Network – Prisioneiros da Guerra Fria”. Dirigido pelo francês Olivier Assayas e estrelado por Edgar Ramires, Penélope Cruz, Wagner Moura, Ana de Armas e Gael Garcia Bernal, o filme, que encantou no Festival de Veneza, está em exibição na Netflix. Um presente para quem gosta de “thrillers” incomuns mesclados de suspense.

Livro e filme começam no mesmo ponto: a deserção de um piloto cubano para a Flórida (EUA). A trama, que nem de longe lembra os filmes de espionagem como “007”, “Missão Impossível” ou “Bourne”, envolve cubanos e suas famílias que “abandonavam” a terra natal em busca de vida melhor na América. Na prática, porém, eles tinham outra missão: infiltrar-se nos grupos anticastristas, todos de extrema direita. Em 1990, eram contabilizados mais de 40 deles, a maioria envolvido com ações terroristas em solo cubano. Os agentes secretos infiltrados queriam informações que pudessem permitir a Cuba antecipar-se aos ataques. Era tudo real.

Ao contrário de agentes em espetaculares perseguições ou em permanentes duelos com o inimigo, os espiões cubanos tinham apenas os olhos como armas. Não viviam escondidos. Faziam parte da comunidade. Trabalhavam onde cubanos da Flórida trabalhavam. A estratégia era usar e abusar da sutileza. Arriscada no grau máximo, infiltrar-se é uma arte, cuja pena, se descoberta, pode ser a morte. O espião da Rede Vespa, como foi batizada a missão, não tinha licença para matar. Mas para ser vivo. Vivíssimo. E não podia ser diferente. Eles espiavam cubanos da CIA. Como os de Watergate, flagrados grampeando a sede dos Democratas.

Quando a União Soviética desmoronou, Cuba teve que reinventar-se. Uma crise econômica sem precedentes abateu-se sobre a Ilha. A saída foi investir em turismo. Os grupos anticastristas mais radicais apostando também no desmoronamento de Cuba, surpreenderam-se com as ações de sobrevivência do país e, em represália, passaram a sabotar o país: ora envenenando plantações com produtos lançados de aviões piratas; ora explodindo hotéis, restaurantes e praias de turistas, usando mercenários. Queixas aos EUA, à época sob Clinton, não eram ouvidas. A extrema direita americana dava apoio aos grupos. A Rádio Martí, que transmitia da Flórida para Cuba, nunca trabalhou tanto.

A Rádio Martí foi um presente de Reagan aos anticastristas da Flórida. Eleito pelo Partido Republicano, como Trump, dedicava carinho especial àqueles que combatiam o comunismo, o que talvez explique a inédita invasão ao Capitólio. Republicanos e extrema direita são siameses. No livro “Ronald Reagan”, de Bill O’Reilly e Martin Dugard, ele aparece como aquele que venceu o comunismo soviético. Exagero. Curiosa, porém, foi sua postura na guerra das Malvinas. Ficou neutro. Considerava Galtieri um bêbado, mas era importante parceiro contra o comunismo na América do Sul. Aliada de primeira hora, Mrs. Thatcher teve que enfrentar o bêbado sozinha. Ganhou.

Cuba é um fetiche para a esquerda mundial. Tornou-se maior, quando passou a ser perseguida pelos EUA, que impôs impiedoso embargo econômico, o mais longo da história. Cuba sobreviveu a todos os cercos e sobrevive heroicamente. Fidel Castro, que já é lenda, um Robin Hood dos trópicos, mostrou-se um líder além do seu tempo. Mas não é Deus, assim, como Cuba não é paraíso. Presos políticos e perseguição a homossexuais são inaceitáveis. Assim como inaceitáveis eram as ações terroristas, apoiadas por alguns assessores do poder Executivo americano, deputados e senadores. Um Davi e Golias, cujo final parece longe do fim.

Cláudio Pimentel é jornalista

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