Ponto de Vista: O papel da Universidade Moderna 3

Por Joaci Góes*

Tribuna da Bahia, Salvador
25/02/2021 06:30 | Atualizado há 26 dias, 17 horas e 17 minutos

   

Ao prezado amigo e grande escritor grapiúna Antônio Lopes!

O perigo presente em a burocracia priorizar a articulação do poder, em prejuízo do avanço científico, é o grande inimigo potencial das ciências nos ambientes de seu culto, como as universidades e os centros de pesquisa, como se verifica no Brasil, onde o bolivarianismo se adonou das estruturas educacionais. Aqui as universidades querem pousar de “grandes democracias”, sem o concurso de dirigentes democratas. O resultado tem sido a perda de competitividade internacional dos produtos manufaturados brasileiros, em face da baixa qualidade do valor neles agregado em razão da mão de obra que depende da qualidade do ensino científico e tecnológico e das pesquisas a eles inerentes, parâmetro que afere o poder de sua competitividade no comércio internacional. Nessas universidades, de gestão autárquica, dominadas pela esquerda bolivariana, formam-se verdadeiros grupos de interesse, no melhor estilo das guildas medievais. Quem não pertencer ao clube e às suas regras não se subordinar, será eliminado, nos vários sentidos do verbo, inclusive no acesso aos mecanismos de aprimoramento intelectual disponibilizado no meio acadêmico. Grupos fechados, impermeáveis ao influxo de presenças renovadoras, criam um ambiente aconchegante aos de dentro, aos da grei ideológica, de olho numa desejável futura nomenklatura, integrada pela intelligentsia dos regimes totalitários. Esse comportamento caminha na contramão dos mais caros interesses do saber, levando-o à mediocridade e ao estiolamento. Essas associações corporativas são o epitáfio da ciência. 

Uma das vacinas mais eficazes para impedir essa estagnação consiste na realização de estudos interdisciplinares entre diferentes ramos da ciência, particularmente entre as naturais e as sociais. E entre as sociais, as mais recentes, carentes, ainda, de um acervo de conhecimentos que elevem o seu prestígio. O risco calculado é o de que em lugar de dilatar suas fronteiras, essas se estereotipem, numa rigidez atrófica. 

A sociedade aberta, como nos ensinou Karl Popper, foi o berço da ciência e do Estado de Direito, regulado por um sistema legal de caráter democrático, traços marcantes do iluminismo. Em ambos os casos - democracia e iluminismo -, nenhum indivíduo, solitariamente, tem a última palavra. Nem mesmo grupos de indivíduos, em caráter permanente. A palavra de ordem, aí, é consenso. A ampla liberdade de pensar, porém, não pode ser levada aos limites obscenos de supor que não existe certo nem errado, julgamento que flutuaria ao sabor do pensamento de cada qual. Pelo contrário; nos domínios da ciência e da lei, essa distinção é de preceito. Para a ciência, pela necessidade de expurgar o erro; para a lei, pela necessidade de proteger a vítima do agressor. Como o conhecimento avança graças ao binômio ensaio-erro, dependemos da crítica honesta de terceiros para corrigirmos desvios de percepção, de modo a nos aproximarmos, gradativamente, dos padrões objetivos da verdade factual.  Essa possibilidade depende do confronto dos fatos e da análise objetiva das consequências operacionais de nossas reflexões. Esse conjunto chama-se “Conjecturas e refutações”, método do ensaio e erro que só prospera em ambientes receptivos à interação, apto a eliminar estéreis discussões de caráter subjetivo entre pontos de vista individuais, grupais, comunitários ou marcadamente de viés ideológico. A característica fundamental da interação reside na possibilidade e valorização do confronto entre pontos de vista conflitantes, divergentes ou opostos. Até porque, a experiência chancela a eventual validade e utilidade de decisões ou tomadas de rumos nascidas de pontos de vista distintos e, até, antípodas, porém, sinérgicos. Não raro, grandes avanços são alcançados na ciência e na política a partir de propostas minoritárias ou divergentes do consenso, parcial ou inteiramente enxovalhadas no momento de sua proposição. Quantas boas ideias não morreram no nascedouro pela prática autoritária de suprimir o dissenso ou contraditório! Casos há de ideias que só triunfaram anos, décadas e, eventualmente, séculos depois de sua primeira proposição. Nada, portanto, tão consistentemente inovador e até mesmo revolucionário do que o desenvolvimento de um espírito iluminista receptivo à diversidade, como praticam as sociedades abertas. A ausência dessa possibilidade é a causa do fracasso dos regimes totalitários. 

A mudança é compatível com a preservação das melhores tradições, contrariamente ao que pratica o pensamento dominante na Universidade Pública Brasileira! 


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