'O negacionismo está vencendo', diz presidente do Butantan

Para o médico, essa postura tem dificultado a adesão da população às medidas de distanciamento e agravam a crise sanitária.

Tribuna da Bahia, Salvador
07/04/2021 15:50 | Atualizado há 11 dias, 21 horas e 48 minutos

   
Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena / Agência O Globo

Presidente do Instituto Butantan, o hematologista Dimas Covas, de 64 anos, afirma que o aumento da transmissão e do número de casos e mortes pela Covid-19 são a prova de que hoje o negacionismo está vencendo a batalha contra a ciência. Para o médico, essa postura tem dificultado a adesão da população às medidas de distanciamento e agravam a crise sanitária.

Ao comentar sobre outra das causas do agravamento da pandemia, as novas variantes da doença, Dimas afirma que a nova vacina ButanVac, que aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para poder ser testada em humanos, será eficaz contra a variante de Manaus, a P1, que já responde pela maioria dos casos em São Paulo. Ele também afasta o risco de que a produção da vacina contra a gripe atrapalhe a das vacinas contra o novo coronavírus.

O cronograma de entrega da vacina CoronaVac para abril ainda depende da chegada de mais insumos importados da China. A pressão interna que o país asiático vem sofrendo para produizr mais vacinas antes de exportar insumo tem preocupado o presidente do Butantan. Até o fim desta semana, diz Dimas, ele espera receber notícias sobre a vinda de insumos que permitam terminar até o final de abril a entrega de 46 milhões de doses ao Ministério da Saúde — falta a remessa que será usada para as últimas 6 milhões de vacinas.

O senhor já disse que, se todas as pessoas ficassem em casa por duas semanas, a pandemia acabava. É viável endurecer ainda mais as medidas no Brasil?

O combate a uma epidemia é extremamente complexo e envolve fenômenos sociais e econômicos. Se houvesse o poder mágico de confinar todas as pessoas por 14 dias, você acabaria com a epidemia, porque o ciclo do vírus é de 14 dias. Obviamente que isso não é possível e nós dependemos das chamadas medidas de restrição e medidas de controle da transmissão. Elas não são efetivas de forma isolada, têm que ser combinadas. O lockdown, como foi usado em muitos países da Europa, por si só ajuda, mas não é definitivo. Tem que ter outros mecanismos, principalmente a vigilância epidemiológica ativa, que é a identificação e o isolamento de casos. No Brasil, temos uma vigilância muito insuficiente, então só nos resta a parte de isolamento social.

Por que não há grande adesão ao isolamento no Brasil? O quanto disso é responsabilidade do governo federal?

Não temos uma adesão nacional e um discurso único. Temos muitos discursos, inclusive os contrários a isso. Discursos de autoridades importantes da República que dizem que as pessoas não têm que ficar em casa. Do ponto de vista das necessidades econômicas, isso é perfeito, só que isso é o jogo do vírus. Você leva as pessoas para a rua e aumenta a taxa de transmissão. Não pode haver duplo comando no controle de uma epidemia. (No Brasil,) nós temos o comando da ciência e o comando do negacionismo. E, neste momento, o negacionismo está vencendo. Os números são alarmantes. Hoje o Brasil é campeão do mundo na epidemia, e isso significa uma vitória do negacionismo. Estamos perdendo a batalha. O vírus está ganhando, correndo de uma forma muito tranquila e com isso provocando muitos óbitos. A falta de um discurso unificado e de um entendimento correto do que é a epidemia é fatal.

O Brasil vive uma nova onda marcada pelas variantes do vírus. A ButanVac está sendo estudada para ser eficaz contra as novas cepas?

Esse é o planejamento. Como essa cepa é a mais importante do ponto de vista da epidemia no Brasil, estamos desenvolvendo a P1, para incorporá-la na vacina.

Essa é a principal razão para o Butantan buscar uma nova vacina?

Na realidade, os motivos são vários. A questão de incorporar novas cepas, sim, é um dos motivos, mas não o principal. O principal é que é uma vacina de segunda geração, já desenvolvida com base na experiência das vacinas de primeira geração. Ela já tem um aperfeiçoamento em termos de apresentação e antígenos, de forma a tornar esses antígenos mais imunogênicos. O segundo aspecto é que isso é fruto de um consórcio internacional cujo objetivo é disponibilizar uma plataforma mais barata e acessível (a mesma da vacina da gripe, que usa ovos de galinha).

Quanto à CoronaVac, como estão as tratativas para a chegada de mais insumos da China?

Esperamos que ainda nesta semana tenhamos notícias lá da China em relação a essas novas partidas.

Há risco de atraso pela pressão que a China sofre para vacinar a própria população primeiro?

Essa pressão é em relação às vacinas prontas para uso. O nosso caso é a matéria-prima, então esperamos que não haja problema. Estamos tentando trazer um maior volume de matéria-prima da China para poder aumentar as entregas, porque hoje praticamente essa vacina é a que está em produção em grande escala no Brasil. E estamos muito preocupados com isso. A nossa capacidade de produção é de até um milhão de doses por dia, mas depende dos insumos. Em março essa capacidade foi usada, tanto é que nós não temos neste momento matéria-prima a ser processada. Toda a matéria-prima já foi processada. Estamos aguardando a chegada de novas partidas para voltar à produção.

Após o anúncio da ButanVac como uma “vacina 100% nacional”, foi reconhecida a participação do Hospital Mount Sinai, dos EUA, no estudo. Antes, na CoronaVac, a eficácia foi inicialmente apresentada como sendo de 78%, depois de 50%. Essa série de anúncios em meio a uma politização das vacinas afeta a imagem do Butantan?

Obviamente que a comunicação política trouxe muitos prejuízos à própria imagem do Butantan. Por ele estar produzindo uma vacina com a China, no estado de São Paulo, que tem um governador nitidamente opositor ao governo federal, isso trouxe uma pressão enorme. O Butantan acabou ficando no meio de várias forças e muitas vezes foi ator principal. O fato de o Butantan não ter sido contratado no ano passado, ter sido preterido quando ofereceu vacinas ao ministério… Houve uma questão política que atingiu fortemente o Butantan. O governo do estado de São Paulo veio em defesa e usou das armas da política para isso. O fato é que o Butantan neste momento é a espinha dorsal da vacinação no Brasil. É o que no fundo prevalece.

Fonte: O Globo.

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