Ponto de Vista: Xuxa e a cegueira da ignorância

Por Cláudio Pimentel*

Tribuna da Bahia, Salvador
09/04/2021 06:00 | Atualizado há 29 dias, 16 horas e 8 minutos

   

Nunca o dito “antes de falar, pense duas vezes no que vai dizer” foi tão atual. Xuxa, a rainha dos baixinhos, teve que pular o “Ilariê” de trás para frente, depois de propor que os presos fossem cobaias em testes para vacinas e remédios, pois assim "serviriam para alguma coisa antes de morrer”. A loira cometeu a gafe, clássico do pensamento universal de botequim – preconceituoso, desumano -, durante “live” sobre defesa dos direitos dos animais. Que ironia! O equino incidente mostrou uma faceta cruel da nossa tragédia social: a ignorância. Mal que atinge o brasileiro, independente de classe, escolaridade, raça.

Celebridades, autoridades e políticos parafrasearem Ofélia, aquela do “só abro a boca quando tenho certeza”, após derramar besteiras, não surpreende a ninguém. Xuxa, por exemplo, se encaixaria no capítulo “Festival de Besteira que Assola o País – Febeapá”, livro do jornalista Sérgio Porto, o “Stanislaw Ponte Preta”, que não deixava “coices” com ares “acadêmicos” passarem em branco. Hoje, com os mentecaptos que ocupam a ribalta nacional, se publicariam até enciclopédias, mas de um humor diferente do galhofeiro: ácido. Presidente, filhos e apoiadores seriam artífices do amoral. Quanto à Xuxa, que comemorava 58 anos, teve que se retratar. “Beijinho, beijinho; Tchau, tchau”!

Lugares-comuns e frases feitas proliferam como ratos. Muitos ganharam status de “verdades” e tornaram-se motivo de debates calorosos, deixando as mesas de bar, ascendendo às redes sociais e dando vida à profecia de Umberto Eco: “As mídias sociais deram direito à fala a uma legião de imbecis”. “Bandido bom é bandido morto”, por exemplo, tornou-se epiteto paralelo da campanha do presidente, cujo discurso notabiliza-se pelo balbucio de pensamentos típicos de botequins. “Celebrismo” que estimula fãs e fanáticos a repetirem gente como Xuxa e Bolsonaro. O dano ocorre quando viram armas políticas e ideológicas, contaminando o debate e cegando os contendores.

O mundo foi politizado. Separar é a lógica. Quebrar a sociedade ao meio virou foco. Os costumes viraram campos de batalha. O antagonismo entre o politicamente correto e o politicamente incorreto explodiu. Nos anos 1990, quase na virada do milênio, governos, instituições e empresas resolveram assumir erros. Bill Clinton, presidente dos EUA, desculpou-se pelas humilhações infligidas aos negros; o Papa penitenciou-se pela omissão da Igreja no holocausto; e a rainha Elizabeth lamentou a ação britânica no Punjab. Até a Globo arrependeu-se pelo apoio ao golpe de 1964. Reconhecer erros desagradou radicais. E, vinte anos depois, os exemplos pouco nos mudaram.

O politicamente correto foi estigmatizado. É hipocrisia! Ironicamente, correto seria ser politicamente incorreto. O tema ganhou livros. Atropelou as mídias sociais. O comportamento social mudou. O ódio materializou-se. Surgiu um novo ideal. O tratamento grosseiro dado à presidente Dilma é um “case” sobre a agressão como valor. O politicamente incorreto defendia-se do correto atirando bombas. Era o popularesco assumindo o popular. O preconceito vencendo o conceito. A brutalidade sufocando a gentileza. A demência solapando a razão. Condenar o general Patton por esbofetear recruta com colapso nervoso estava errado. Bater era o correto, exemplificava um desses livros. Guerra é para machos.

Bolsonaro encampa o pesadelo de uma época precária. Seu filho estampar camisetas com “Ulstra Vive” ou ‘Eu pacificamente vou te matar” é a vitória do politicamente incorreto. Do banditismo animalesco. O presidente mandar parar o “mimimi” e o choro pelas mortes por Covid são tapas do general Patton em nós. O ambiente é reconstruído para abrigar aberrações doentias. Frases popularescas, até então sem malícia, alicerçaram a ideia de igualar a sociedade por baixo. Tal como os Talibãs, que fecharam escolas, negaram a ciência, proibiram as artes e destruíram culturas milenares. Negar a ciência poderá matar quase um milhão de brasileiros.

Cláudio Pimentel é jornalista


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