“É inadmissível o sindicato querer greve quando atendemos 98% das reivindicações”

O secretário de Educação de Salvador, Marcelo Oliveira, criticou o sindicato dos professores que tem se posicionado contrário ao retorno às aulas

Tribuna da Bahia, Salvador
03/05/2021 06:00 | Atualizado há 5 dias, 16 horas e 45 minutos

   
Foto: Arquivo/Mais Região

Por Guilherme Reis, Rodrigo Daniel Silva e Paulo Roberto Sampaio

Ao defender a volta às aulas, que está prevista para acontecer hoje, o secretário de Educação de Salvador, Marcelo Oliveira, criticou o sindicato dos professores que tem se posicionado contrário ao retorno. Segundo ele, 98% das reivindicações da entidade foram atendidas pela prefeitura. Único item não atendido, de acordo com o gestor, foi a vacinação de 1.200 profissionais, que têm idade entre 20 e 40 anos. 

“Já vacinamos 80% dos profissionais da educação. Não só os professores. Agora, não tem como a gente avançar na vacinação. Não porque a gente não queira ou porque não temos a dose. Nós temos a vacina, mas quem determina os grupos a serem vacinados é o Plano Nacional de Imunização”, explicou. “Então, se a gente não consegue cumprir e eles argumentam que vão fazer greve porque tem uma exigência que não conseguimos cumprir, que não está sob nossa alçada, é inadmissível manter um movimento grevista quando atendemos 98% das reivindicações deles”, acrescentou, em entrevista à Tribuna.

O secretário ressaltou ainda o papel dos pais para que ocorra efetivamente a volta das aulas. “Se as famílias não levarem as crianças aí vai ficar difícil. Como a gente vai fazer educação se as crianças não forem para a escola?”, questionou.

Tribuna – A prefeitura de Salvador definiu a retomada das aulas para hoje. Como vai funcionar? 

Marcelo Oliveira – Vamos falar sobre a segurança do ponto de vista sanitário. 433 escolas foram adaptadas para esse momento, algumas dessas escolas, cerca de 9 escolas, ainda têm algum tipo de intervenção que vai ser feita nas próximas semanas.  As crianças vão ser transferidas para as outras escolas ou começarão as aulas na semana seguinte, mas o importante é que as escolas estão preparadas. Que preparação foi essa? A ampliação das áreas de ventilação, instalação de lavatórios para melhorar a higiene das mãos, dispensador de álcool em gel, sinalização… Mas o mais importante é que apenas metade das crianças vai em cada dia, ou seja, metade de uma turma vai segunda, quarta e sexta e a outra metade vai terça e quinta, na semana seguinte inverte e eles vão ter 5 dias de aula a cada duas semanas. Eles (alunos) vão continuar com o ensino remoto pela televisão e com os cadernos de atividades. Estarão no ensino híbrido com a aula semipresencial e o ensino remoto, então é assim que vai retornar. Com toda a segurança, o professor quando chegar na sala de aula ele vai encontrar de 10 a 15 alunos, porque uma (turma) máxima tem 30 alunos e só vai encontrar metade. Ele vai ter aí no máximo 15 ou alguma turma que tenha 16 vai girar em torno disso. E são crianças todas de máscaras. O recreio vai ser intercalado para não sair todas as crianças ao mesmo tempo, a merenda vai ser servida na sala de aula na maioria das escolas e não vai poder entrar adulto na escola, os pais vão deixar as crianças na porta. 

Tribuna – Então, é seguro tanto para os alunos quanto para os professores?

Marcelo Oliveira – O ambiente da escola, pela disciplina, com a presença orientadora dos professores e de todo corpo técnico e pedagógico da escola é certamente um ambiente mais seguro, do ponto de vista de evitar o contágio do coronavírus, do que o ambiente que eles estão hoje. Essas crianças hoje estão na rua. Os pais irresponsáveis vão sair para trabalhar em busca do sustento a família, grande parte deles, as crianças estão na rua encontrando com os amiguinhos, com farsantes, com adultos, com vizinhos, sem uma rotina, sem essa disciplina. Então, eu posso assegurar que o ambiente da escola vai estar mais seguro se a questão é a segurança. Sem falar, das questões pedagógicas, o ensino remoto, puro e simplesmente, funciona individualmente para estudantes do ensino superior e da pós-graduação, mas não para uma criança de 6,7,8,10 ou 12 anos, que é o nosso público-alvo do ensino fundamental. Está havendo uma perda de tempo precioso dessas crianças e é uma perda irrecuperável.

Tribuna – O senhor já tem um número de quantos professores já foram vacinados? Como está esse processo?

Marcelo Oliveira – Já, claro que sim, nós vacinamos só na rede pública municipal e estadual já foram mais de 18 mil profissionais. Na rede municipal, que é a rede que vai voltar dia 3, nós já vacinamos 75% dos profissionais e eu não estou falando de professores só. São professores, porteiros, agente de limpeza, merendeiras, diretores, todos. Só faltam vacinar 3.200 profissionais da rede municipal, dos quais apenas 1.200 são professores. Então não é razoável dizer que não vai voltar às aulas porque faltam 1.200 profissionais, que têm idade entre 20 e 40 anos, porque todos acima de 40 anos foram vacinados. É uma posição do sindicato bastante obstinada, eles só querem voltar às aulas depois da 2ª dose, os profissionais tomaram a AstraZeneca que são 90 dias (período entre a 1ª e a 2ª dose), embora a imunidade já aconteça nas primeiras semanas, o sindicato quer esperar mais 4 meses que significa perder mais 1 ano.

Tribuna – A prefeitura conseguiu entrar em algum acordo com o sindicato? Como estão essas conversas e negociações?

Marcelo Oliveira – Eles (sindicato) fizeram uma pauta de reivindicações de 13 itens. Nós já terminamos 12, o único item que foi o da vacinação podemos dizer que já atendemos 80% porque já vacinamos 80% dos profissionais da educação. Não só os professores. Agora, não tem como a gente avançar na vacinação, não porque a gente não queira ou porque não temos a dose, nós temos a vacina, mas quem determina os grupos a serem vacinados é o Plano Nacional de Imunização. O que a gente conseguiu avançar foi que convenceu o pessoal na CIB (Comissão Intergestores Bipartite-Ba), entre o estado e os municípios, que reúne 417 secretários de saúde dos municípios mais o secretário de saúde do estado, que autorizou a gente vacinar a partir de 40 anos. Mas a gente não consegue vacinar com menos de 40 anos. Não é a vontade do prefeito. É o tipo de exigência do sindicado que a gente não consegue cumprir. Então, se a gente não consegue cumprir e eles argumentam que vão fazer greve porque tem uma exigência que não conseguimos cumprir, que não está sob nossa alçada, é inadmissível manter um movimento grevista quando atendemos 98% das reivindicações deles.

Tribuna – Tivemos mais de um ano de suspensão das aulas presenciais. O que essa paralisação deixa de ensinamento para os professores, gestores, alunos? 

Marcelo Oliveira – A primeira coisa que deixa de ensinamento é que o ensino remoto, puro e simplesmente, não funciona para o ensino fundamental. O primeiro ensinamento que fica é esse. Segundo, é que vamos demorar aí pelo menos entre 6 e 8 anos, na melhor expectativa, para recuperar o prejuízo advindo dessa paralisação e suspensão das aulas. Terceiro é que o sindicato, numa situação de pandemia, que é uma situação de perda para toda a sociedade, insiste em fazer exigências que nenhuma outra categoria fez. Todas as categorias profissionais, sem exceção, todos os funcionários inclusive públicos já voltaram para as suas atividades presenciais e os professores insistem em ficar restritos às atividades remotas. E a gente sabe que atividade remota no ensino fundamental não se sustenta. Então, eles não estão em nenhum momento preocupados com o futuro das crianças, que é o propósito nosso enquanto secretaria da educação, enquanto educador, enquanto professor. Nosso propósito não é educar as crianças? Veja que nós temos a responsabilidade exatamente sobre aquela parcela mais vulnerável da população, aqueles filhos oriundos de famílias mais humildes. São eles que mais precisam, que a educação é a única chance que elas têm de romper o ciclo da pobreza, de ter uma oportunidade de ascensão social. E são exatamente esses alunos que estão sendo privados dos efeitos benéficos da educação por uma posição obstinada de um sindicato que exige do prefeito algo que ele não consegue atender, porque não depende dele. O prefeito não tem autoridade para mandar vacinar a quem ele quer. A gente tem que seguir o Plano Nacional de Imunização porque essas vacinas não são da prefeitura. São do governo federal, nós não conseguimos, a despeito de todo esforço do prefeito, adquirir vacinas com nosso próprio recurso, pois aí sim eu poderia vacinar de acordo com a nossa melhor conveniência. O prefeito continua lutando para fazer a vacinação, mas nós não podemos contar com isso e não podemos deixar as crianças esperando por isso. Agora, o diálogo continua no dia 6, quinta-feira, tem uma reunião marcada conosco, com o prefeito e a AP-LB para continuar conversando e discutindo, mas as aulas voltam segunda-feira.

Tribuna – Como o senhor avalia o processo de aquisição de vacinas, e a vacinação por parte do governo federal? 

Marcelo Oliveira – Veja que aqui no Brasil nós já recebemos 107 milhões de doses de vacina, numa população de 220 milhões de habitantes. O governo federal falhou num passado recente quando não saiu na frente e contratou as vacinas. Eu acho que falhou. Só que, naquela época, não sei se a gente tinha toda essa segurança, toda essa certeza para dizer que naquela época valia investir na vacina. Havia muita dúvida da população inclusive sobre os efeitos da vacina. Eu não gostaria de julgar o presidente depois de passado digamos o tempo, sobre a perspectiva histórica é facílimo a gente julgar. Mas o fato é que hoje nós temos a perspectiva de receber aí até julho, ter vacina suficiente para vacinar metade da população do público-alvo nacional, porque não despreze o fato de que só vão ser vacinadas pessoas acima de 18 anos. Então, as vacinas que vamos receber até junho serão suficientes para vacinar metade a população brasileira. Espera-se que até outubro/ novembro esteja a totalidade vacinada, mas enquanto isso a gente espera que não surja nenhuma cepa nova que consiga driblar o efeito imunizante da vacina, o que é uma possibilidade. Nós vamos conviver durante muito tempo com essa doença, e as pessoas vão ser vacinadas até o final do ano. A gente vai voltar às aulas porque nós não podemos esperar essa vacinação. Os professores dizem que querem o menor risco. Ora, quando você vai no mercado você está exposto a um risco maior do que vai estar na escola? Ele (professor) vai numa farmácia, encontra outros clientes, tem contato com a operadora do caixa, pega a nota e dá dinheiro. Então, tem um risco muito maior do que na escola. 

Tribuna – Como o senhor avaliou as medidas de combate à pandemia adotadas pelo governo da Bahia, e também pela prefeitura de Salvador? 

Marcelo Oliveira – Então veja, essas medidas de contenção que impõe o isolamento social como lockdown, suspender atividades comerciais e serviços, eu fui prefeito durante a pandemia, durante todo o ano de 2020, e eu sei as dificuldades e o dilema que é tomar medidas que causam impactos econômico sobre a população e causam impacto sobre o comportamento das pessoas. Mas são medidas que a gente precisa tomar para salvar vidas. Então, eu tomei medidas duras quando fui prefeito de Mata de São João, o prefeito (de Salvador) está tomando medidas duras e o governador também. Estamos todos preocupados, ou estivemos, mas agora a pandemia está dando sinais de arrefecimento, está desaquecendo, está diminuindo e os indicadores epidemiológicos estão melhorando muito. Nós temos hoje a condição realmente total de voltar às aulas. O governo do estado não voltou às aulas antes por algumas razões que eu posso supor, mas isso é uma mera suposição. O governo do estado tem escolas em todos os municípios, e tem municípios que ainda não atingiram a vacinação da população que já poderia ter sido vacinada, por uma própria incapacidade de operacionalizar a vacina, pois não é uma coisa simples, custa muito dinheiro. O estado tem que dar conta de várias escolas espalhadas por todo o estado. Então, isso é muito difícil, não é fácil. Se aqui em Salvador, com toda a nossa estrutura, ainda temos nove escolas que ainda estão em fase de adaptação, imagine em todo o estado da Bahia com 417 municípios. E, em todos eles, tem pelo menos 1, 2 ou 3 escolas estaduais, então eles têm dificuldades outras. Agora aqui em Salvador, não há razão para não voltar, os indicadores nossos estão muito favoráveis. Os profissionais 80% deles vacinados, as escolas adaptadas. Então, a gente tem que voltar. Eu gostaria, depois desses argumentos todos, de contar com o seu entendimento real dessa questão e nos ajudar a estimular as famílias a levarem suas crianças para a escola. Já estarão todas abertas na segunda-feira, dia 3, os portões abertos. Prontas para acolher os alunos com ou sem professores, veja que os professores representam aproximadamente 40% do quadro de profissionais da escola, entre 40 e 45% do quadro das escolas. Então, se a greve tiver adesão de 100%, o que não vai acontecer eu tenho certeza de que não vai acontecer, ainda assim temos metade do quadro nas escolas para receber esses alunos. Sem contar aqueles professores mais abnegados, mais comprometidos com a causa da educação e que realmente compreendem a situação, o esforço que foi feito pela prefeitura de Salvador, pela secretaria de Educação para retornar as aulas e que eles entendam as responsabilidades deles e certamente eles vão voltar e vamos ter aula a partir de segunda-feira. Agora, se as famílias não levarem as crianças aí vai ficar difícil. Como a gente vai fazer educação se as crianças não forem para a escola? 

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